sábado, 4 de abril de 2009

A MORENINHA (JOAQUIM MANUEL DE MACEDO)

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1
Universidade da Amazônia
A Moreninha
de Joaquim Manuel Macedo
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A Moreninha
de Joaquim Manuel de Macedo
DUAS PALAVRAS
Eis aí vão algumas páginas escritas, às quais me atrevi dar o nome de romã
Não foi ele movido por nenhuma dessas três poderosas inspirações que tantas
vezes soem amparar as penas dos autores: glória, amor e interesse. Desse último
estou eu bem a coberto com meus 23 anos de idade, que não é na juventude que
pode ele dirigir o homem; a glória só se andasse ela caída de suas alturas, rojando
as asas quebradas, me lembraria eu, tão pela terra que rastejo, de pretender ir
apanhá-la. A respeito do amor não falemos, pois se me estivesse o buliçoso a fazer
cócegas no coração, bem sabia eu que mais proveitoso me seria gastar meia dúzia
de semanas aprendendo numa sala de dança, do que velar trinta noites garatujando
o que por aí vai. Este pequeno romance deve sua existência somente aos dias de
desenfado e folga que passei no belo Itaboraí, durante as férias do ano passado.
Longe do bulício da corte e quase em ócio, a minha imaginação assentou lá consigo
que bom ensejo era esse de fazer travessuras, e em resultado delas saiu a
Moreninha.
Dir-me-ão que o ser a minha imaginação traquinas não é um motivo plausível
para vir eu maçar a paciência dos leitores com uma composição balda de
merecimento e cheia de irregularidades e defeitos; mas que querem? Quem escreve
olha a sua obra como seu filho, e todo o mundo sabe que o pai acha sempre graças
e bondades na querida prole.
Do que vem dito concluir-se-á que a Moreninha é minha filha: exatamente
assim penso eu. Pode ser que me acusem por não tê-la conservado debaixo de
minhas vistas por mais tempo, para corrigir suas imperfeições; esse era o meu
primeiro intento. A Moreninha não é a única filha que possuo: tem três irmãos que
pretendo educar com esmero, e o mesmo faria a ela; porém esta menina saiu tão
travessa, tão impertinente, que não pude mais sofrê-la no seu berço de carteira e,
para ver-me livre dela, venho depositá-la nas mãos do público, de cuja benignidade
e paciência tenho ouvido grandes elogios.
Eu, pois, conto que, não esquecendo a fama antiga, o público a receba e lhe
perdoe seus senões, maus modos e leviandades. E uma criança que terá, quando
muito, seis meses de idade; merece a compaixão que por ela imploro; mas, se lhe
notarem graves defeitos de educação, que provenham da ignorância do pai, rogo
que não os deixem passar por alto; acusem-nos, que daí tirarei eu muito proveito,
criando e educando melhor os irmãozinhos que a Moreninha tem cá.
Tu, filha minha, vai com a bênção paterna e queira o céu que ditosa sejas.
Nem por seres traquinas te estimo menos; e, como prova, vou em despedida dar-te
um precioso conselho: recebe, filha, com gratidão, a crítica do homem instruído; não
chores se com a unha marcarem o lugar em que tiveres mais notável senão, e
quando te disserem que por este erro ou aquela falta não és boa menina, jamais te
arrepies, antes agradece e anima-te sempre com as palavras do velho poeta:
"Deixa-te repreender de quem bem te ama,
Que, ou te aproveita ou quer aproveitar-te."
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CAPÍTULO I
Aposta imprudente
— Bravo! Exclamou Filipe, entrando e despindo a casaca, que pendurou em
um cabide velho. Bravo!... Interessante cena! Mas certo que desonrosa fora para
casa de um estudante de medicina e já do sexto ano, a não lhe valer o adágio
antigo: o hábito não faz o monge.
— Temos discurso!... Atenção!... Ordem!... gritaram a um tempo três vozes.
— Coisa célebre! acrescentou Leopoldo, Filipe sempre se torna orador depois
do jantar...
— E dá-lhe para fazer epigramas, disse Fabrício.
— Naturalmente, acudiu Leopoldo, que, por dono da casa, maior quinhão
houvera no cumprimento do recém-chegado; naturalmente Bocage, quando tomava
carraspanas, descompunha os médicos.
— C’est trop fort! bocejou Augusto, espreguiçando-se no canapé em que se
achava deitado.
— Como quiserem, continuou Filipe, pondo-se em hábitos menores; mas por
minha vida que a carraspana de hoje ainda me concede apreciar devidamente aqui
o meu amigo Fabrício, que talvez acaba de chegar de alguma visita diplomática,
vestido com esmero e alinho, porém tendo a cabeça encapuçada com a vermelha e
velha carapuça do Leopoldo; este, ali escondido dentro de seu robe de chambre cor
de burro quando foge, e sentado em uma cadeira tão desconjuntada que, para não
cair com ela, põe em ação todas as leis de equilíbrio, que estudou em Pouillet; acolá,
enfim, o meu romântico Augusto, em ceroulas, com as fraldas à mostra, estirado em
um canapé em tão bom uso, que ainda agora mesmo fez com que Leopoldo se
lembrasse de Bocage. Oh! V.S.as tomam café!
Ali o senhor descansa a xícara azul em um pires de porcelana... aquele tem
uma chávena com belos lavores dourados, mas o pires é cor-de-rosa... aquele outro
nem porcelana, nem lavores, nem cor azul ou de rosa, nem xícara... nem pires...
aquilo é uma tigela num prato...
— Carraspana!... Carraspana!... gritaram os três.
— Ó moleque! prosseguiu Filipe, voltando-se para o corredor, traz-me café,
ainda que seja no púcaro em que o coas; pois creio que, a não ser a falta de louça,
já teu senhor mo teria oferecido.
— Carraspana!... Carraspana!...
— Sim, continuou ele, eu vejo que vocês...
— Carraspana! Carraspana!...
Não sei de nós quem mostra...
— Carraspana! ... Carraspana!
Seguiram-se alguns momentos de silêncio, e ficaram os quatro estudantes
assim a modo de moças quando jogam o siso. Filipe não falava, por conhecer o
propósito em que estavam os três de lhe não deixar concluir uma só proposição; e
estes, porque esperavam vê-lo abrir a boca para gritar-lhe: carraspana!
Enfim, foi ainda Filipe o primeiro que falou, exclamando de repente:
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— Paz! Paz!...
— Ah! já?... disse Leopoldo, que era o mais influído.
— Filipe é como o galego, disse um outro; perderia tudo para não guardar
silêncio durante uma hora.
— Está bem, o passado, passado: protesto não falar mais nunca na carapuça,
nem nas cadeiras, nem na louça do Leopoldo... Estão no caso... sim...
— Hein?... olha a carraspana...
— Basta! Vamos a negócio mais sério. Onde vão vocês passar o dia de
Sant’Ana?
— Por quê?... Temos patuscada?... acudiu Leopoldo.
— Minha avó chama-se Ana.
— Ergo!...
Estou habilitado para convidá-los a vir passar a véspera e dia de Sant’Ana
conosco, na ilha de...
— Eu vou, disse prontamente Leopoldo.
— E dois, acudiu logo Fabrício.
Augusto só guardou silêncio.
— E tu, Augusto?... perguntou Filipe.
— Eu?... Eu não conheço tua avó.
— Ora, sou seu criado; também eu não a conheço, disse Fabrício.
— Nem eu, acrescentou Leopoldo.
— Não conhecem a avó, mas conhecem o neto, disse Filipe.
— E ademais, tornou Fabrício, palavra de honra que nenhum de nós tomará o
trabalho de lá ir por causa da velha.
— Augusto, minha avó é a velha mais patusca do Rio de Janeiro.
— Sim?... Que idade tem?
— Sessenta anos.
— Está fresquinha ainda... Ora.... se um de nós a enfeitiça e se faz avô de
Filipe!
— E ela, que possui talvez seus 200 mil cruzados, não é assim, Filipe? Olha,
se é assim, e tua avó se lembrasse de querer casar comigo, disse Fabrício, juro que
mais depressa daria o meu "recebo a vós" aos cobres da velha, do que a qualquer
das nossas "toma-larguras" da moda.
— Por quem são!... Deixem minha avó e tratemos da patuscada. Então tu
vais, Augusto?
— Não.
— É uma bonita ilha.
— Não duvido.
— Reuniremos uma sociedade pouco numerosa, mas bem escolhida.
Melhor para vocês.
— No domingo, à noite, teremos um baile.
— Estimo que se divirtam.
— Minhas primas vão. Não as conheço.
— São bonitas.
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— Que me importa?... Deixem-me. Vocês sabem o meu fraco e caem-me logo
com ele: moças!... moças!... Confesso que dou o cavaco por elas, mas as moças me
têm posto velho.
— E porque ele não conhece tuas primas, disse Fabrício.
— Ora… o que poderão ser senão demoninhas, como são todas as outras
moças bonitas?
— Então tuas primas são gentis?... perguntou Leopoldo a Filipe.
— A mais velha, respondeu este, tem dezessete anos, chama-se Joana, tem
cabelos negros, belos olhos da mesma cor, e é pálida.
— Hein?... exclamou Augusto, pondo-se de um pulo duas braças longe do
canapé onde estava deitado: então ela é pálida?...
— A mais moça tem um ano de menos: loira, de olhos azuis, faces cor-derosa...
seio de alabastro... dentes...
— Como se chama?
— Joaquina.
— Ai, meus pecados! ... disse Augusto.
— Vejam como Augusto já está enternecido...
Mas, Filipe, tu já me disseste que tinhas uma irmã.
— Sim: é uma moreninha de catorze anos.
— Moreninha! Diabo!... exclamou outra vez Augusto, dando novo pulo.
— Está sabido... Augusto não relaxa a patuscada.
— É que este ano já tenho pagodeado meu quantum satis; e, assim como
vocês, também eu quero andar em dia com alguns senhores, com quem nos é muito
preciso andar de contas justos no mês de novembro.
— Mas a pálida?... A loira?... A moreninha?...
— Que interessante terceto! exclamou em tom teatral Augusto; que coleção
de belos tipos!... Uma jovem com dezessete anos, pálida… romântica e, portanto,
sublime; uma outra, loira… de olhos azuis... faces cor-de-rosa… e... não sei que
mais; enfim, clássica e por isso bela. Por último, uma terceira de catorze anos…
moreninha, que, ou seja romântica ou clássica, prosaica ou poética, ingênua ou
misteriosa, há de por força ser interessante, travessa e engraçada; e por
conseqüência qualquer das três, ou todas ao mesmo tempo, muito capazes de fazer
de minha alma peteca, de meu coração pitorra!... Está tratado… não há remédio...
Filipe, vou visitar tua avó. Sim, é melhor passar os dois dias estudando alegremente
nesses três interessantes volumes da grande obra da natureza, do que gastar as
horas, por exemplo, sobre um célebre Velpeau, que só ele faz por sua conta e risco
mais citações em cada página do que todos os meirinhos fizeram, fazem e hão de
fazer pelo mundo.
— Bela conseqüência! É raciocínio o teu que faria inveja a um calouro, disse
Fabrício.
— Bem raciocinado… não tem dúvida, acudiu Filipe; então, conto contigo,
Augusto.
— Dou-te palavra… e mesmo porque eu devo visitar tua avó.
— Sim... já sei... isso dirás tu a ela.
— Mas vocês não têm reparado que Fabrício tornou-se amuado e pensativo,
desde que se falou nas primas de Filipe?...
— Disseram-me que ele anda enrabichado com minha prima Joaninha.
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— A pálida?… pois eu já me vou dispondo a fazer meu pé de alferes com a
loira.
— E tu, Augusto, quererás porventura requestar minha irmã?...
— É possível.
— E de qual gostarás mais, da pálida, da loira ou da moreninha?...
Creio que gostarei, principalmente, de todas..
— Ei-lo aí com sua mania.
— Augusto é incorrigível.
— Não, é romântico.
— Nem uma coisa nem outra... é um grandíssimo velhaco.
— Não diz o que sente.
— Não sente o que diz.
— Faz mais do que isso, pois diz o que não sente.
— O que quiserem… Serei incorrigível, romântico ou velhaco, não digo o que
sinto, não sinto o que digo, ou mesmo digo o que não sinto; sou, enfim, mau e
perigoso, e vocês inocentes e anjinhos. Todavia, eu a ninguém escondo os
sentimentos que ainda há pouco mostrei: em toda a parte confesso que sou volúvel,
inconstante e incapaz de amar três dias um mesmo objeto; verdade seja que nada
há mais fácil do que me ouvirem um "eu vos amo" , mas também a nenhuma pedi
ainda que me desse fé; pelo contrário, digo a todas o como sou; e se, apesar de tal,
sua vaidade é tanta que se suponham inesquecíveis, a culpa, certo que não é
minha. Eis o que faço. E vós, meus caros amigos, que blasonais de firmeza de
rochedo, que jurais amor eterno cem vezes por ano a cem diversas belezas... sois
tanto ou ainda mais inconstantes que eu!... Mas entre nós há sempre uma grande
diferença; vós enganais e eu desengano; eu digo a verdade e vós, meus senhores,
mentis...
— Está romântico!... Está romântico!... exclamaram os três, rindo às
gargalhadas.
— A alma que Deus me deu, continuou Augusto, é sensível demais para reter
por muito tempo uma mesma impressão. Sou inconstante, mas sou feliz na minha
inconstância, porque, apaixonando-me tantas vezes, não chego nunca a amar uma
vez...
— Oh!... Oh!... Que horror!... Que horror!...
— Sim! Esse sentimento que voto às vezes a dez jovens num só dia, às
vezes numa mesma hora, não é amor, certamente. Por minha vida, interessantes
senhores, meus pensamentos nunca têm damas; porque sempre têm damas; eu
nunca amei... eu não amo ainda… eu não amarei jamais.
— Ah!... Ah!... Ah!... E como ele diz aquilo!
— Ou, se querem, precisarei melhor o meu programa sentimental; lá vai:
afirmo, meus senhores, que meu pensamento nunca se ocupou, não se ocupa, nem
se há de ocupar de uma mesma moça durante quinze dias.
— E eu afirmo que segunda-feira voltarás da ilha de... loucamente
apaixonado de alguma de minhas primas.
— Pode bem suceder que de ambas.
E que todo resto do ano letivo passarás pela rua de... duas e três vezes por
dia, somente com o fim de vê-la.
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— Assevero que não.
— Assevero que sim.
— Quem?... Eu?... Eu mesmo passar duas e três vezes por dia por uma só
rua por causa de uma moça?... E para quê?... Para vê-la lançar-me olhos de ternura,
ou sorrir-se brandamente quando eu para ela olhar, e depois fazer-me caretas ao lhe
dar as costas?... Para que ela chame as vizinhas que lhe devem ajudar a chamarme
tolo, paleta, basbaque e namorador?... Não, minhas belas senhoras da moda! Eu
vos conheço!... Amante apaixonado quando vos vejo, esqueço-me de vós, duas
horas depois de deixar-vos. Fora disto só queimarei o incenso da ironia no altar de
vossa vaidade; fingirei obedecer a vossos caprichos e somente zombarei deles. Ah!
... Muitas vezes, alguma de vós, quando me ouve dizer: "Sois encantadora", está
dizendo consigo: "Ele me adora", enquanto eu digo também comigo: "Que vaidosa!"
— Que vaidoso!… te digo eu, exclamou Filipe.
— Ora, esta não é má!... Então vocês querem governar o meu coração?...
— Não; porém eu torno a afirmar que tu amarás uma de minhas primas
durante todo o tempo que for da vontade dela.
— Que mimos de amor que são as primas deste senhor!
— Eu te mostrarei.
— Juro que não.
Aposto que sim.
— Aposto que não.
— Papel e tinta: escreva-se a aposta.
— Mas tu me dás muita vantagem, e eu rejeitarei a menor. Tens apenas duas
primas: é um número de feiticeiras muito limitado. Não sejam só elas as únicas
magas que em teu favor invoquem para me encantar: meus sentimentos ofendem,
talvez, a vaidade de todas as belas; todas as belas, pois, tenham o direito de te fazer
ganhar a aposta, meu valente campeão do amor constante!
— Como quiseres, mas escreve.
— E quem perder?...
— Pagará a todos nós um almoço no Pharoux, disse Fabrício.
Qual almoço! acudiu Leopoldo. Pagará um camarote no primeiro drama novo
que representar o nosso João Caetano.
— Nem almoço, nem camarote, concluiu Filipe; se perderes, escreverás a
história da tua derrota; e se ganhares, escreverei o triunfo da tua inconstância.
— Bem, escrever-se-á um romance, e um de nós dois, o infeliz, será o autor.
Augusto escreveu primeira, segunda e terceira vez o termo da aposta; mas
depois de longa e vigorosa discussão, em que qualquer dos quatro falou duas vezes
sobre a matéria, uma para responder e dez ou doze pela ordem; depois de se
oferecerem quinze emendas e vinte artigos aditivos, caiu tudo por grande maioria, e
entre bravos, apoiados e aplausos, foi aprovado, salva a redação, o seguinte termo:
"No dia 20 de julho de 18... na sala parlamentar da casa nº ... da rua de..., sendo
testemunhas os estudantes Fabrício e Leopoldo, acordaram Filipe e Augusto,
também estudantes, que, se até o dia 20 de agosto do corrente ano, o segundo
acordante tiver amado a uma só mulher durante quinze dias ou mais, será obrigado
a escrever um romance em que tal acontecimento confesse; e, no caso contrário,
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igual pena sofrerá o primeiro acordante. Sala parlamentar, 20 de julho de 18... Salva
a redação".
Como testemunhas — Fabrício e Leopoldo.
Acordantes — Filipe e Augusto.
E eram oito horas da noite quando se levantou a sessão.
CAPÍTULO II
Fabrício em apuros
A cena que se passou teve lugar numa segunda-feira.
Já lá se foram quatro dias: hoje é sexta-feira, amanhã será sábado, não um
sábado como outro qualquer, mas um sábado véspera de Sant’Ana.
São dez horas da noite; os sinos tocaram a recolher. Augusto está só,
sentado junto de sua mesa, tendo diante de seus olhos seis ou sete livros, papéis,
pena e toda essa série de coisas que compõem a família do estudante.
É inútil descrever o quarto de um estudante: aí nada se encontra de novo. Ao
muito acharão uma estante, onde ele guarda os seus livros, um cabide, onde
pendura a casaca, o moringue, o castiçal, a cama, uma até duas canastras de roupa,
o chapéu, a bengala e a bacia, a mesa, onde escreve e que só apresenta de
recomendável a gaveta cheia de papéis, de cartas de família, de flores e fitinhas
misteriosas: é pouco mais ou menos assim o quarto de Augusto.
Agora ele está só. Às sete horas, desse quarto saíram três amigos: Filipe,
Leopoldo e Fabrício. Trataram da viagem para a ilha de... no dia seguinte e
retiraram-se descontentes, porque Augusto não se quis convencer de que deveria
dar um ponto na clínica para ir com eles ao amanhecer. Augusto tinha respondido:
Ora vivam! Bem basta que eu faça gazeta na aula de partos; não vou senão às dez
horas do dia.
E, pois despediram-se amuados. Fabrício queria ainda demorar-se e mesmo
ficar com Augusto, mas Leopoldo e Filipe o levaram consigo à força. Fabrício fez-se
acompanhar do moleque que servia Augusto, porque, dizia ele, tinha um papel de
importância a mandar.
Eram dez horas da noite, e nada de moleque. Augusto via-se atormentado
pela fome, e Rafael, o seu querido moleque, não aparecia... o bom Rafael, que era
ao mesmo tempo o seu cozinheiro, limpa-botas, cabeleireiro, moço de recados e... e
tudo mais que as urgências mandavam que ele fosse.
Com justa razão, portanto, estava cuidadoso Augusto, que de momento a
momento exclamava:
Vejam isto! ... Já tocou a recolher e Rafael está ainda na rua! Se cai nas
unhas de algum beleguim, não é decerto o sr. Fabrício quem há de pagar as
despesas da Casa de Correção... Pobre do Rafael! Que cavaco não dará quando lhe
raparem os cabelos!
Mas neste momento ouviu-se tropel na escada... Era Rafael, que trazia uma
carta de Fabrício, e que foi aprontar o chá, enquanto Augusto lia a carta. Ei-la aqui:
"Augusto. Demorei o Rafael porque era longo o que tenho de escrever-te.
Melhor seria que eu te falasse, porém bem viste a impertinência de Filipe e
Leopoldo. Felizmente, acabam de deixar-me. Que macistas!... Principio por dizer-te
que te vou pedir um favor, do qual dependerá o meu prazer e sossego na ilha de...
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Conto com a tua amizade, tanto mais que foram os teus princípios que me levaram
aos apuros em que ora me vejo. Eis o caso".
Tu sabes, Augusto, que, concordando com algumas de tuas opiniões a
respeito de amor, sempre entendi que uma namorada é traste tão essencial ao
estudante, como o chapéu com que se cobre ou o livro com que estuda. Concordei
mesmo algumas vezes em dar batalha a dois e três castelos a um tempo; porém tu
não ignoras que a semelhante respeito estamos discordes no mais: tu és ultraromântico
e eu ultraclássico.
O meu sistema era este:
1º Não namorar moça de sobrado. Daqui tirava eu dois proveitos, a saber:
não pagava o moleque para me levar recados e dava sossegadamente, e a mercê
das trevas, meus beijos por entre os postigos das janelas.
2º Não requestar moça endinheirada. Assim eu não ia ao teatro para vê-la,
nem aos bailes para com ela dançar, e poupava meus cobres.
3º Fingir e ficar mal com a namorada em tempos de festas e barracas no
campo. E por tal modo livrava-me de pagar doces, frutas e outras impertinências.
Estas eram as bases fundamentais do meu sistema.
Ora, tu te lembrarás que bradavas contra o meu proceder como indigno da
minha categoria de estudante; e, apesar de me ajudares a comer saborosas
empadas, quitutes apimentados e finos doces, com que as belas pagavam por vezes
a minha assiduidade amantética, tu exclamavas:
— Fabrício! Não convêm tais amores ao jovem de letras e de espírito. O
estudante deve considerar o amor como um excitante que desperte e ateie as
faculdades de sua alma: pode mesmo amar uma moça feia e estúpida, contanto que
sua imaginação lha represente bela e espirituosa. Em amor a imaginação é tudo: é
ardendo em chamas, é elevado nas asas de seus delírios que o mancebo se faz
poeta por amor.
Eu então te respondia:
— Mas quando as chamas se apagam, e as asas dos delírios se desfazem, o
poeta não tem, como eu, nem quitutes nem empadas.
E tu me tornavas:
— E porque ainda não experimentaste o que nos prepara o que se chama
amor platônico, paixão romântica! Ainda não sentiste como é belo derramar-se a
alma toda inteira de um jovem na carta abrasadora que escreve à sua adorada, e
receber de troco uma alma de moça, derramada toda inteira em suas letras, que
tantas mil vezes se beijam.
Ora, esses derramamentos de alma bastante me assustavam; porque eu me
lembro que em patologia se trata mui seriamente dos derramamentos.
Mas tu prosseguias:
— E depois, como é sublime deitar-se o estudante no solitário leito e ver-se
acompanhado pela imagem da bela que lhe vela no pensamento, ou despertar ao
momento de ver-se em sonhos sorvendo-lhe nos lábios voluptuosos beijos!
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A inda estes argumentos não me convenciam suficientemente, porque eu
pensava: 1º que essa imagem que vela no pensamento não será a melhor
companhia possível para um estudante, principalmente quando ela lhe velasse na
véspera de alguma sabatina; 2º porque eu sempre acho muito mais apreciável
sorver os beijos voluptuosos por entre postigos de uma janela, do que sorvê-los em
sonhos e acordar com água na boca: beijos por beijos, antes os reais que os
sonhados.
Além disto, no teu sistema nunca se fala em empadas, doces, petiscos etc; no
meu eles aparecem e tu, apesar de romântico, nunca viraste as costas nem fizeste
ma cara a esses despojos de minhas batalhas.
Mas, enfim, maldita curiosidade de rapaz!... Eu quis experimentar o amor
platônico, e dirigindo-me certa noite ao teatro São Pedro de Alcântara, disse entre
mim: esta noite hei de entabular um namoro romântico.
Entabulei-o, sr. Augusto de uma figa!... Entabulei-o, e quer saber como?... Saí
fora do meu elemento e espichei-me completamente. Estou em apuros.
Eis o caso:
Nessa noite fui para a superior; eu ia entabular um namoro romântico; não
podia ser de outro modo. Para ser tudo à romântica consegui entrar antes de todos;
fui o primeiro a sentar-me quando ainda o lustre monstro não estava aceso; vi--o
descer e subir depois, ornado e brilhante de luzes, vi se irem enchendo os
camarotes; finalmente eu, que tinha estado no vácuo, achei-me no mundo: o teatro
estava cheio. Consultei com meus botões como devia principiar, concluí que, para
portar-me romanticamente, deveria namorar alguma moça que estivesse na quarta
ordem. Levantei os olhos, vi uma que olhava para o meu lado, e então pensei
comigo mesmo: seja aquela!... Não sei se é bonita ou fria, mas que importa? Um
romântico não cura dessas futilidades. Tirei, pois, da casaca o meu lenço branco,
para fingir que enxugava o suor, para abanar-me e enfim para fazer todas essas
macaquices que eu ainda ignorava que estavam condenadas pelo Romantismo.
Porém, oh infortúnio!... Quando de novo olhei para o camarote, a moça tinha-se
voltado completamente para a tribuna; tossi, tomei tabaco, assoei-me, espirrei e a
pequena... nem caso; parecia que o negócio com ela não era. Começou a ouverture
e nada; levantou-se o pano, e ela voltou os olhos para a cena, sem olhar para o meu
lado. Representou-se o 1º ato… Tempo perdido. Veio o pano finalmente
abaixo.
— Agora sim, começará o nosso telégrafo a trabalhar, disse eu comigo
mesmo, erguendo-me para tornar-me mais saliente.
Porém, nova desgraça! Mal me tinha levantado, quando a moça ergueu-se
por sua vez e retirou-se para dentro do camarote, sem dizer por que, nem por que
não.
— Isto só pelo diabo!... exclamei eu involuntariamente, batendo o pé com toda
a força.
— O senhor está doido?! disse-me... gemendo e fazendo uma careta horrível,
o meu companheiro da esquerda.
— Não tenho que lhe dar satisfações, respondi-lhe amuado.
Tem, sim senhor, retorquiu-me o sujeito, empinando-se.
Pois que lhe fiz eu então? acudi, alterando-me.
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— Acaba de pisar-me, com a maior força, no melhor calo do meu pé direito.
— Oh! senhor… queira perdoar!...
E dando mil desculpas ao homem, saí do teatro, pensando no meu amor.
Confesso que deveria ter notado que a minha paixão começava debaixo de
maus auspícios, mas a minha má fortuna ou, melhor, os teus maus conselhos me
empurravam para diante com força de gigante.
Sem pensar no que fazia, subi para os camarotes e fui dar comigo no
corredor da quarta ordem; passei junto do camarote de minhas atenções: era o
nº 3 (número simbólico, cabalístico e fatal! repara que em tudo segui o
Romantismo). A porta estava cerrada; fui ao fim do corredor e voltei de novo; um
pensamento esquisito e singular acabava de me brilhar na mente, e abracei-me com
ele.
Eu tinha visto junto à porta nº 3 um moleque com todas as aparências
de ser belíssimo cravo da Índia. Ora, lembrava-me que nesse camarote a minha
querida era a única que se achava vestida de branco e, pois, eu podia muito bem
mandar--lhe um recado pelo qual me fizesse conhecido. E assim avancei para o
moleque.
Ah! maldito crioulo… estava-lhe o todo dizendo o para que servia!... Pinta na
tua imaginação, Augusto, um crioulo de dezesseis anos, todo vestido de branco com
uma cara mais negra e mais lustrosa do que um botim envernizado, tendo, além
disso, dois olhos belos, grandes, vivíssimos e cuja esclerótica era branca como o
papel em que te escrevo, com lábios grossos e de nácar, ocultando duas ordens de
finos e claros dentes, que fariam inveja a uma baiana; dá-lhe a ligeireza, a
inquietação e rapidez de movimentos de um macaco e terás frito idéia desse diabo
de azeviche, que se chama Tobias.
Não me foi preciso chamá-lo: bastou um movimento de olhos para que o
Tobias viesse a mim, rindo-se desavergonhadamente. Levei-o para um canto.
— Tu pertences aquelas senhoras que estão no camarote, a cuja porta te
encostavas?...perguntei.
— Sim, senhor, me respondeu ele, e elas moram na rua de... nº… ao lado
esquerdo de quem vai para cima.
E quem são?...
— São duas filhas de uma senhora viúva, que também aí está, e que se
chama a Ilma. Sra. d. Luíza. O meu defunto senhor era negociante e o pai de minha
senhora é padre.
— Como se chama a senhora que está vestida de branco?
— A sra. d. Joana... tem dezessete anos, e morre por casar.
— Quem te disse isso?...
— Pelos olhos se conhece quem tem lombrigas, meu senhor!...
— Como te chamas?
— Tobias, escravo de meu senhor, crioulo de qualidade, fiel como um cão e
vivo como um gato.
O maldito do crioulo era um clássico a falar português. Eu continuei:
— Hás de me levar um recado à sra. d. Joana.
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— Pronto, lesto e agudo, respondeu-me o moleque.
— Pois toma sentido.
— Não precisa dizer duas vezes.
Ouve. Das duas uma: ou poderás falar com ela hoje, ou só amanhã...
— Hoje... agora mesmo. Nestas coisas Tobias não cochila: com licença de
meu senhor, eu cá sou doutor nisto; meus parceiros me chamam orelha de cesto, pé
de coelho e boca de taramela. Vá dizendo o que quiser, que em menos de dez
minutos minha senhora saberá tudo; o recado de meu senhor é uma carambola que,
batendo no meu ouvido vai logo bater no da senhora d. Joaninha.
— Pois dize-lhe que o moço que se sentar na última cadeira da 4ª
coluna da superior, que assoar-se com uni lenço de seda verde, quando ela para ele
olhar, se acha loucamente apaixonado de sua beleza etc., etc., etc.
— Sim, senhor, eu já sei o que se diz nessas ocasiões: o discurso fica por
minha conta.
— E amanhã, ao anoitecer, espera-me na porta de tua casa.
— Pronto, lesto e agudo, repetiu de novo o crioulo.
— Eu recompensar-te-ei, se fores fiel.
— Mais pronto, mais lesto e mais agudo!
— Por agora toma estes cobres.
— Oh, meu senhor! Prontíssimo, lentíssimo e agudíssimo.
Ignoro de que meios se serviu o Tobias para executar sua comissão. O que
sei é que antes de começar o 2º ato já eu havia feito o sinal, e então comecei a pôr
em ação toda a mímica amantética que me lembrou: o namoro estava entabulado;
embora a moça não correspondesse aos sinais do meu telégrafo, concedendo-me
apenas amiudados e curiosos olhares, isso era já muito para quem a via pela
primeira vez.
Finalmente, sr. Augusto dos meus pecados, o negócio adiantou-se, e hoje,
tarde me arrependo e não sei como me livre de semelhante entaladela, pois o
Tobias não me sai da porta. Já não tenho tempo de exercer o meu classismo; há
três meses que não como empadas e, apesar de minhas economias, ando sempre
com as algibeiras a tocar matinas. Para maior martírio a minha querida é a sra.
Joana, prima de Filipe.
Para compreenderes bem o quanto sofro, aqui te escrevo algumas das
principais exigências da minha amada romântica.
1º Devo passar por defronte de sua casa duas vezes de manhã e duas à
tarde. Aqui, vês bem, principia a minha vergonha, pois não há pela vizinhança
gordurento caixeirinho que se não ria nas minhas barbas quatro vezes por dia.
2º Devo escrever-lhe, pelo menos, quatro cartas por semana, em papel
bordado, de custo de 400 réis a folha. Ora, isto é detestável, porque eu não sei onde
vá buscar mais cruzados para comprar papel, nem mais asneiras para lhe escrever.
3º Devo tratá-la por "minha linda prima" e ela a mim por "querido primo".
Daqui concluo que a sra. d. Joana leu o Faublas. Boa recomendação!...
4º Devo ir ao teatro sempre que ela for, o que sucede quatro vezes no mês; o
mesmo a respeito de bailes. Esta despesa arrasa-me a mesada terrivelmente.
5º Ao teatro e bailes devo levar no pescoço um lenço ou manta da cor da fita
que ela porá em seu vestido ou no cabelo, o que, com antecedência, me é
participado. Isto é um despotismo detestável.
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Finalmente, ela quer governar os meus cabelos, as minhas barbas, a cor de
meus lenços, a minha casaca, a minha bengala, os botins que calço e, por último,
ordenou-me que não fumasse charutos de Havana nem de Manilha, porque era isto
falta de patriotismo.
Para bem rematar o quadro das desgraças que me sobrevieram com a tal
paixão romântica que me aconselhaste, d. Joana, dir-te-ei, mostra amar-me com
extremo, e, no meio de seus caprichos de menina, dá-me prova do mais constante e
desvelado amor; mas que importa isso, se eu não posso pagar-lhe com gratidão?...
Vocês com seu romantismo a que me não posso acomodar, a chamariam "pálida".
Eu, que sou clássico em corpo e alma e que, portanto, dou os coisas o seu
verdadeiro nome, a chamarei sempre "amarela".
Malditos românticos, que têm crismado tudo e trocado em seu crismar os
nomes que melhor exprimem suas idéias!…
O que outrora se chamava, em bom português, moça feia, os reformadores
dizem: menina simpática!... O que em uma moça era antigamente desenxabimento,
hoje é ao contrário: sublime languidez!... Já não há mais meninas importunas e
vaidosas. As que forem, chamam-se agora espirituosas! A escola dos românticos
reformou tudo isso, em consideração ao belo sexo.
E eu, apesar dos tratos que dou a minha imaginação, não posso deixar de
convencer-me que a minha linda prima é (aqui para nós) amarela e feia como uma
convalescente de febres perniciosas.
O que, porém, se torna sobretudo insofrível é o despotismo que exerce sobre
mim o brejeiro do Tobias!...
Entende que todos os dias lhe devo dar dinheiro e persegue-me de maneira
tal que, para ver-me livre dele, escorrego-lhe cum quibus, a despeito da minha má
vontade.
O Tobias está no caso de muitos que, grandes e excelentes parladores, são
péssimos financeiros na prática. Como eles fazem ao país, faz Tobias comigo, que
sempre depois de longo discurso me apresenta um déficit e pede-me um crédito
suplementar.
Eis aqui, meu Augusto, o lamentável estado em que me acho. Lembra-te que
foram os teus conselhos que me obrigaram a experimentar uma paixão romântica;
portanto, não só por amizade, como por dever, conto que me ajudarás no que te vou
propor.
Eu preciso de um pretexto mais ou menos razoável para descartar-me de tal
pálida.
Ela vai passar conosco dois dias na ilha de… Aí podemos levar a efeito, e
com facilidade, o meu plano: ele é de simples compreensão e de fácil execução.
Tu deverás requestar, principalmente a minha vista, a tal minha querida. A
inda que ela não te corresponda, persegue-a. Não te custará muito isso, pois que é
o teu costume. Nisto se limita o teu trabalho, e começará então o meu, que é mais
importante.
Ver-me-ás enfadado, talvez que te trate com rispidez, e que te dirija alguma
graça pesada, mas não farás caso e continuarás com a requesta para diante.
Eu então irei as nuvens... Desesperado, ciumento e delirante, aproveitarei o
primeiro instante em que estiver a sós com d. Joaninha, e farei um discurso forte e
eloqüente contra a inconstância e volubilidade das mulheres. No meio de meus
transportes, dou-me por despedido de amores com ela, e pulando fora de tal paixão
romântica, correrei a apertar-te contra meu peito, como teu amigo e colega do
coração — Fabrício".
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— E esta!... exclamou Augusto, depondo a carta sobre a mesa e sorvendo
uma boa pitada de rapé de Lisboa. E esta!...
Acabando de sorver a pitada, o nosso estudante desatou a rir como um doido.
Rir-se-ia a noite inteira talvez, se não fosse interrompido pelo Rafael, que o vinha
chamar para tomar chá.
CAPÍTULO III
Manhã de sábado
Seriam pouco mais ou menos onze da manhã, quando o batelão de Augusto
abordou à ilha de... Embarcando às dez horas, ele designou ao seu palinuro o lugar
a que se destinava, e deitou-se para ler mais à vontade o Jornal do Comércio.
Soprava vento fresco e, muito antes do que supunha, Augusto ergueu-se, ouvindo a
voz de Leopoldo que o esperava na praia.
— Bem-vindo sejas, Augusto. Não sabes o que tens perdido...
— Então... muita gente, Leopoldo?
— Não: pouca; mas escolhida.
No entanto, Augusto pagou, despediu o seu bateleiro, que se foi remando e
cantando com seus companheiros. Leopoldo deu-lhe o braço, e, enquanto por uma
bela avenida, orlada de coqueiros, se dirigiam à elegante casa que lhes ficava a
trinta braças do mar, o curioso estudante recém-chegado examinava o lindo quadro
que a seus olhos tinha e do qual, para não sermos prolixos, daremos idéia em duas
palavras. A ilha de... é tão pitoresca como pequena. A casa da avó de Filipe ocupa
exatamente o centro dela. A avenida por onde iam os estudantes a divide cm duas
metades, das quais a que fica à esquerda de quem desembarca, está
simetricamente coberta de belos arvoredos, estimáveis ou pelos frutos de que se
carregam, ou pelo aspecto curioso que oferecem. A que fica à mão direita é mais
notável ainda: fechada do lado do mar por uma longa fila de rochedos, e no interior
da ilha por negras grades de ferro, está adornada de mil flores, sempre brilhantes e
viçosas, graças à eterna primavera desta nossa boa terra de Santa Cruz. De tudo
isto se conclui que a avó de Filipe tem no lado direito de sua casa um pomar e no
esquerdo um jardim.
E fizemos muito bem em concluir depressa, porque Filipe acaba de receber
Augusto com todas as demonstrações de sincero prazer e o faz entrar
imediatamente para a sala.
Agora, outras duas palavras sobre a casa: imagine-se uma elegante sala de
cinqüenta palmos em quadro; aos lados dela dois gabinetes proporcionalmente
espaçosos, dos quais um, o do lado esquerdo, pelos aromas que exala, espelhos
que brilham, e um não sei quê que insinua, está dizendo que é o gabinete das
moças. Imagine-se mais, fazendo frente para o mar e em toda a extensão da sala e
dos gabinetes, uma varanda terminada em arcos; no interior meia dúzia de quartos;
depois uma alegre e longa sala de jantar, com janelas e portas para o pomar e
jardim, e ter-se-á feito da casa a idéia que precisamos dar.
Pois bem; Augusto apresentou-se. A sala estava ornada com boa dúzia de
jovens interessantes: pareceu ao estudante um jardim cheio de flores ou o céu
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semeado de estrelas. Verdade seja que, entre esses "orgulhos" da idade presente,
havia também algumas rugosas representantes do tempo passado; porém isso ainda
mais lhe sanciona a propriedade da comparação, porque há muitas rosas murchas
nos jardins e estrelas quase obscuras no firmamento.
Filipe apresentou o seu amigo à sua digna avó, e a todas as outras pessoas
que aí se achavam. Não há remédio senão dizer alguma coisa sobre elas.
A sra. d. Ana, este é o nome da avó de Filipe, é uma senhora de espírito e
alguma instrução. Em consideração a seus sessenta anos, ela dispensa tudo quanto
se poderia dizer sobre o seu físico. Em suma, cheia de bondade e de agrado, ela
recebe a todos com o sorriso nos lábios: seu coração pode-se talvez dizer o templo
da amizade, cujo mais nobre altar é exclusivamente consagrado à querida neta, irmã
de Filipe; e ainda mais, seu afeto para com essa menina não se limita à doçura da
amizade; vai ao ardor da paixão. Perdendo seus pais quando apenas contava oito
anos, a inocente criança tinha, assim como Filipe, achado no seio da melhor das
avós a ternura de sua extremosa mãe.
Ao lado da sra. d. Ana estavam duas jovens, cujos nomes se adivinharão
facilmente: uma é a "pálida", a outra a "loira". São as primas de Filipe.
Ambas são bonitinhas; mas, para Augusto, d. Quinquina tem as feições mais
regulares, achou-lhe mesmo muita harmonia nos cabelos loiros, olhos azuis e faces
coradas, confessando, todavia, que as negras madeixas e o rosto romântico de d.
Joaninha fizeram-lhe uma brecha terrível no coração.
Além destas, algumas outras senhoras aí estavam, valendo bem a pena de se
olhar para elas meia hora sem pestanejar. Toda a dificuldade, porém, está em pintar
aquela mocinha que acaba de sentar-se pela sexta vez, depois que Augusto entrou
na sala: é a irmã de Filipe. Que beija-flor! Há cinco minutos que Augusto entrou e em
tão curto espaço já ela sentou-se em diferentes cadeiras, desfolhou um lindo pendão
de rosas, derramou no chapéu de Leopoldo mais de duas onças de água-de-colônia
de um vidro que estava sobre um dos aparadores, fez chorar uma criança, deu um
beliscão em Filipe, e Augusto a surpreendeu fazendo-lhe caretas: travessa,
inconseqüente e às vezes engraçada; viva, curiosa e em algumas ocasiões
impertinente, O nosso estudante não pode dizer com precisão nem o que ela é, nem
o que não é: acha-a estouvada, caprichosa e mesmo feia, e pretende tratá-la com
seriedade e estudo para nem desgostar a dona da casa, nem se sujeitar a sofrer as
impertinências e travessuras que a todo o momento a vê praticar com os outros.
Enfim, para acabar de uma vez esta já longa conta das senhoras que se achavam
na sala, diremos que aí se notavam também duas velhas amigas da dona da casa.
Uma, que só se entreteve, se entretém e se há de entreter em admirar a graça e
encantos de duas filhas que consigo trouxera; e outra, que pertence ao gênero
daquelas que nas sociedades agarram num pobre homem, sentam-no ao pé de si, e,
maçando-o duas e três horas com enfadonhas e intermináveis dissertações,
finalmente o largam, supondo que lhe têm feito grande honra e dado o maior prazer.
Quanto aos homens... Não vale a pena! ... Vamos adiante.
Estas observações que aqui vamos oferecendo, fez também Augusto consigo
mesmo, durante o tempo que gastou cm endereçar seus cumprimentos e dizer todas
essas coisas muito banais, e já muito cediças, mas que se dizem sempre de parte a
parte, com obrigado sorrir nos lábios e indiferença no coração. Concluída essa
verdadeira maçada e reparando que todos tratavam de conversar, para melhor
passar as horas e esperar a do jantar, ele voltou o rosto com vistas de achar uma
cadeira desocupada junto de algumas daquelas moças; porém, é mofina do pobre
estudante! O intempestivo castigo dos seus maiores pecados! ... A segunda das
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duas velhas, de quem há pouco se tratou, estendeu a mão e chamou-o, mostrando
com o dedo carregado de anéis um lugar livre junto dela.
Não havia remédio; era preciso sofrer, com os olhos enxutos, o prazer na
face, o martírio que se lhe oferecia. Augusto sentou-se ao pé da sra. d. Violante.
Ela lançou-lhe um olhar de bondade e proteção, e ele abaixou os olhos,
porque os de d. Violante são terrivelmente feios e os do estudante não se podem
demorar por muito tempo sobre espelho de tal qualidade.
— Adivinho, disse ela com certo ar de ironia, que lhe está pesando demais o
sacrifício de perder alguns momentos conversando com uma velha.
— Oh, minha senhora! respondeu o moço, as palavras de V. S.a fazem
grande injustiça a si própria e a mim também: a mim, porque me faz bem cheio de
rudeza e mau gosto; a si, porque, se um cego as ouvisse, certo que não faria idéia
do vigor e da...
— Olhem como ele é lisonjeiro!… exclamou a velha, batendo levemente com
o leque no ombro do estudante, acompanhando esta ação com uma terrível
olhadura, rindo-se com tão particular estudo, que mostrava dois únicos dentes que
lhe restavam.
Augusto olhou fixamente para ela e conheceu que na verdade se havia
adiantado muito. D. Violante era horrivelmente horrenda, e, com sessenta anos de
idade, apresentava um carão capaz de desmamar a mais emperrada criança.
A conversação continuou por urna boa hora; o tédio do estudante chegou a
ponto de fazê-lo arrepender-se de ter vindo à ilha de... Três vezes tentou levantarse;
mas d. Violante sempre tinha novas coisas a dizer: falou-lhe sobre a sua
mocidade… seus pais, seus amores, seu tempo, seu finado marido, sua esterilidade,
seus rendimentos, seu papagaio, e até suas galinhas. Ah! falou mais que um
deputado da oposição, quando se discute o voto de graças. Finalmente, parou um
instante, talvez para respirar, e para começar novo ataque de maçada. Augusto quis
aproveitar-se da intermitência: estava desesperado e pela quarta vez ergueu-se.
— Com licença de V. Sa...
— Nada! disse a velha, detendo-se e apertando-lhe a mão: eu ainda tenho
muito que dizer-lhe.
Muito que dizer?... balbuciou o estudante automaticamente, e deixando-se
cair sobre a cadeira, como fulminado por um raio.
— O senhor está incomodado?… perguntou d. Violante com toda a
ingenuidade.
— Eu... eu estou às ordens de V. S. ª.
— Ah! vê-se que a sua delicadeza iguala a sua bondade, continuou ela com
acento meio açucarado e terno.
— Oh, castigo de meus pecados! ... pensou Augusto consigo; querem ver que
a velha está namorada de mim?!! E recuou sua cadeira meio palmo para longe da
dela.
Não fuja... prosseguiu d. Violante, arrastando por sua vez sua cadeira até
encostá-la à do estudante; não fuja... eu quero dizer-lhe coisas que não é preciso
que os outros ouçam.
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— E então? pensou de novo Augusto, fiz ou não uma galante conquista!... E
suava suores frios.
— O senhor está no quinto ano de medicina?...
— Sim, minha senhora. Já cura?
— Não, minha senhora.
— Pois eu desejava referir-lhe certos incômodos que sofro, para que o senhor
me dissesse que moléstia padeço e que tratamento me convém.
— Mas... minha senhora… eu ainda não sou médico e só no caso de urgente
necessidade me atreveria...
— Eu tenho inteira confiança no senhor: me parece que é o único capaz de
acertar com a minha enfermidade.
Mas ali está um estudante do sexto ano...
— Eu quero o senhor mesmo.
Pois, minha senhora, eu estou pronto para ouvi-la; porém julgo que o tempo e
o lugar são pouco oportunos...
— Nada… há de ser agora mesmo.
Ah!... A boa da velha falou e tornou a falar. Eram duas horas da tarde e ela
ainda dava conta de todos os seus costumes, de sua vida inteira; enfim, foi uma
relação de comemorativos, como nunca mais ouvirá o nosso estudante. Às vezes
Augusto olhava para seus companheiros e os via alegremente praticando com as
belas senhoras que abrilhantavam a sala, enquanto ele se via obrigado a ouvir a
mais insuportável de todas as histórias. Daqui e de certos fenômenos que acusava a
macista, nasceu-lhe o desejo de tomar uma vingançazinha. Firme neste propósito,
esperou com paciência que d. Violante fizesse ponto final, bem determinado a
esmagá-la com o peso de seu diagnóstico, e ainda mais com o tratamento que
tencionava prescrever-lhe.
As duas horas e meia a oradora terminou o seu discurso, dizendo:
— Agora quero que, com toda a sinceridade, me diga se conhece a minha
enfermidade e o que devo fazer.
Então V. S. ª dá-me licença para falar com toda a sinceridade?
— Eu o exijo.
— Pois, minha senhora, atendendo a tudo quanto ouvi, e principalmente a
esses últimos incômodos, que tão amiúde sofre, e de que mais se queixa, como
tonteiras, dores no ventre, calafrios, certas dificuldades, esse peso dos lombos etc.,
concluo, e todo o mundo médico concluirá comigo, que V. S. padece...
— Diga... não tenha medo.
— Hemorróidas.
D. Violante fez-se vermelha como um pimentão, horrível como a mais horrível
das fúrias, encarou o estudante com despeito, e, fixando nele seus tristíssimos olhos
furta-cores, perguntou:
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— O que foi que disse, senhor?
— Hemorróidas, minha senhora.
Ela soltou uma risada sarcástica.
— V. S.ª quer que lhe prescreva o tratamento conveniente?...
— Menino, respondeu com mau humor, tome o meu conselho: outro ofício; o
senhor não nasceu para médico.
— Sinto ter desmerecido o agrado de V. S.ª por tão insignificante motivo.
Rogo-lhe que me desculpe, mas eu julguei dever dizer o que entendia.
Isto dizendo, o estudante ergueu-se; a velha já não fez o menor movimento
para o demorar, e vendo-o deixá-la, disse em tom profético:
— Este não nasceu para a medicina!
Mas Augusto, afastando-se de d. Violante, dava graças ao poder de seu
diagnóstico e augurava muito bem de seu futuro médico, pela grande vitória que
acabava de alcançar.
Agora sim, disse ele com os seus botões, vou recuperar o tempo perdido; e
procurava uma cadeira, cuja vizinhança lhe conviesse.
A digna hóspeda compreendeu perfeitamente os desejos do estudante, pois
mostrando-lhe um lugar junto de sua neta, disse:
— Aquela menina lhe poderá divertir alguns instantes.
— Mas, minha avó, exclamou a menina com prontidão, até o dia de hoje
ainda não me supus boneca.
Menina!...
Contudo, eu serei bem feliz se puder fazer com que o senhor... o senhor...
— Augusto, minha senhora...
— O sr. Augusto passe junto a mim momentos tão agradáveis, como lhe
foram as horas que gozou ao pé da sra. d. Violante.
Augusto gostou da ironia, e já se dispunha a travar conversação com a
menina travessa, quando Fabrício se chegou a eles, e disse a Augusto:
— Tu me deves dar uma palavra.
— Creio que não é preciso que seja imediatamente.
— Se a sra. d. Carolina o permitisse, eu estimaria falar-te já.
— Por mim não seja... disse a menina erguendo-se.
— Não, minha senhora, eu o ouvirei mais tarde, acudiu Augusto, querendo
retê-la.
Nada... não quero que o sr. Fabrício me olhe com maus olhos... Além de que,
eu devo ir apressar o jantar, pois li no seu rosto que a conversação que teve com a
sra. d. Violante, quando mais não desse, ao menos produziu-lhe muito apetite...
mesmo um apetite de... de...
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— Acabe.
— De estudante.
E, mal o disse, a travessa moreninha correu para fora da sala.
CAPÍTULO IV
Falta de condescendência
Fabrício acaba de cometer um grande erro, que para ele será de más
conseqüências. Quem pede e quer ser servido, deve medir bem o tempo, o lugar e
as circunstâncias, e Fabrício não soube conhecer que o tempo, o lugar e as
circunstâncias lhe eram completamente desfavoráveis. Vai exigir que Augusto o
ajude a forjar cruel cilada contra uma jovem de dezessete anos, cujo delito é ter
sabido amar o ingrato com exagerado extremo. Ora, para conseguir semelhante
torpeza, preciso seria que Fabrício aproveitasse uni momento de loucura, um desses
instantes de capricho e de delírio cm que Augusto pensasse que ferir a fibra mais
sensível e vibrante do coração da mulher, a fibra do amor, não é um crime, não é
pelo menos, Louca e repreensível leviandade, e apenas perdoável e interessante
divertimento de rapazes; e nessa hora não podia Augusto raciocinar tão
indignamente. Ainda quando não houvesse nele muita generosidade, estava para
desarmá-lo o poder indizível da inocência, o poderoso magnetismo de vinte olhos
belos como o planeta do dia, a influência cativadora da formosura em botão, da
beleza virgem ainda, de um anjo enfim, porque é símbolo de um anjo a virgindade
de uma jovem bela.
Mas Fabrício olvidou tudo, e mal, sem dúvida, terá de sair de seu empenho
com tantas contrariedades; o tempo não lhe é propício, porque Augusto começa a
sentir todos os sintomas de apetite devorador. Ora, um rapaz, e principalmente um
estudante com fome, aborrece-se de tudo, principalmente do que lhe cheira a
maçada. O lugar não menos lhe era desfavorável, porque, diante de um ranchinho
de belas moças, quem poderá tramar contra o sossego delas?... Então Augusto, que
era dos tais que por semelhante povo, são como formiga por açúcar, macaco por
banana, criança por campainha… e ele tinha razão! Por último, as circunstâncias
também contrariavam Fabrício, pois a sra. d. Violante havia tido o poder de esgotar
toda a elástica paciência do pobre estudante, que não acharia nem mais uma só
dose homeopática desse tão necessário confortativo para despender com o novo
macista.
Fabrício tomou, pois, o braço de Augusto e ambos saíram da sala, este com
vivos sinais de impaciência, o primeiro com ares de quem ia tratar importante
negócio.
A inocente d. Joaninha os acompanhou com os olhos e riu-se brandamente,
encontrando os de Fabrício, que teve ainda bastante audácia para tingir um sorriso
de gratidão.
Eles se dirigiram ao gabinete do lado direito da sala, o qual fora destinado
para os homens; e entrando fechou Fabrício a porta sobre si, para se achar em toda
liberdade. Enfim, estavam sos. Voltados um para o outro, guardavam alguns
momentos de silêncio. Foi Augusto que teve de rompê-lo.
— Então, ficamos a jogar o siso?...
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— Espero a tua resposta, disse Fabrício.
— Ainda não me perguntaste nada, respondeu o outro.
— A minha carta?...
— Eu a li... sim, tive a paciência de lê-la toda.
— E então?...
— Então o que, homem?...
— A resposta.
— Aquilo não tem resposta.
— Ora, deixa-te disso; vamos mangar com a moça.
— Tu estás doido, Fabrício.
— Por tua culpa, Augusto.
— Pois então cuidas que o amor de uma senhora deva ser a peteca com que
se divirtam dois estudantes?...
— Quem é que te fala em peteca?... Pelo contrário, o que eu quero é
desgrudar-me do fatal contrabando.
— Não! A pesar teu, deves respeitar e cultivar o nobre sentimento que te liga
a d. Joaninha. Que se diria dó teu procedimento, se depois de trazeres uma moça
toda cheia de amor e fé na tua constância, por espaço de três meses, a
desprezasses sem a menor aparência de razão, sem a mais pequena desculpa?...
— Então tu, com o teu sistema de...
Eu desengano: previno a todas que as minhas paixões têm apenas horas de
vida, e tu, como os outros, juras amor eterno.
— Estou desconhecendo-te, Augusto. Sempre te achei com juízo e bom
conceito e agora temo muito que estejas com princípios de alienação mental!
Explica-me, por quem és, que súbito acesso de moralidade é esse que tanto te
perturba.
— Isto, Fabrício, chama-se inspiração dos bons costumes.
— Bravo! Bravo! Foi muito bem respondido, mas, palavra de honra que tenho
dó de ti! Vejo que em matéria da natureza da de que tratamos estás tão atrasado
como eu em fazer sonetos. Apesar de todo o teu romantismo, ou talvez
principalmente por causa dele, não vês o que se passa a duas polegadas do nariz.
Pois, meu amigo, quero te dizer: a teoria do amor do nosso tempo aplaude e
aconselha o meu procedimento; tu verás que eu estou na regra, porque as moças
têm ultimamente tomado por mote de todos os seus apaixonados extremos, ternos,
afetos e gratos requebros, estes três infinitos de verbos: iscar, pescar e casar. Ora,
bem vês que, para contrabalançar tão parlamentares e viciosas disposições, nós, os
rapazes, não podíamos deixar de inscrever por divisa em nossos escudos os
infinitos desses três outros verbos: fingir, rir e fugir. Portanto, segue-se que estou
encadernado nos axiomas da ciência.
— Com efeito! ... Não te supunha tão adiantado!
— Pois que dúvida? Para viver-se vida boa e livre, é preciso andar com o olho
aberto e o pé ligeiro. Então as tais sujeitinhas que, com a felicidade e indústria com
que a aranha prende a mosca na teia, são capazes de tecer de repente, com os
olhares, sorrisos, palavrinhas doces, suspiros a tempo, me deixes aproximando-se,
zelos afetados e arrufos com sai e pimenta, uma armadilha tão emaranhada que, se
o papagaio é tolo e não voa logo, mete por força o pé no laço e adeus minhas
encomendas, fica de gaiola para todo o resto de seus dias... E, portanto, meu
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Augusto, deixa-te de insípidos escrúpulos e ajuda-me a sair dos apuros em que me
vejo.
— Torno a dizer-te que estás doido, Fabrício, pois que me acreditas capaz de
servir de instrumento para um enredo… uma verdadeira traição. Então, que pensas?
Eu requestaria d. Joaninha, não é assim?... Tu a deixavas, fingindo ciúmes, e depois
quem me livraria dos apertos em que necessariamente tinha de ficar?...
— Ora, isso não te custava cinco minutos de trabalho: tu... inconstante por
índole e por sistema!
— Fabrício, deixa-te de asneiras; já que te meteste nisso, avante! Além de
que, d. Joaninha é um peixão.
— Oh! Oh! Oh!... Uma desenxabida...
— Que blasfêmia!
— Além disso é impossível... Não posso suportar o peso: escrever quatro
cartas por semana... Só o talento que é preciso para inventar asneiras e mentiras
dezesseis vezes por mês! ... E depois, o Tobias...
— Puxa-lhe as orelhas.
— Como?... Se ele é a cria de d. Joaninha, o alfenim da casa, o São Benedito
da família!
— Não sei, meu amigo, arranja-te como puderes.
— Lembra-te que foste a causa principal de tudo isso.
— Quem?... Eu?... Eu apenas te disse que não sabias o gosto que tinha o
amor à moderna.
Pois bem, saí do meu elemento, fui experimentar a paixão romântica... aí a
tem! ... A tal paixãozinha me esgotou já paciência, juízo e dinheiro. Não a quero
mais.
— Tu sempre foste um papa-empadas.
— Sim, e há dois meses que não sei o que é cheiro delas. Anda, meu
Augustozinho, ajuda-me!
— Não posso e não devo.
— Vê lá o que dizes! Tenho dito.
— Augusto!
— Agora digo mais que não quero.
— Olha que te hás de arrepender!
Esta é melhor! ... Pretendes meter-me medo?... Eu sou capaz de vingar-me.
— Desafio-te a isso.
— Desacredito-te na opinião das moças.
— E um meio de tornar-me objeto de suas atenções. Peço-te que o faças.
Descubro e analiso o teu sistema de iludir a todas. Tornar-me-ás interessante
a seus olhos.
— Direi que és um bandoleiro.
— Melhor, elas farão por tornar-me constante.
— Mostrarei que a tua moral a respeito de amor é a pior possível. Ótimo! ...
Elas se esforçarão por fazê-la boa.
— Hei de, nestes dois dias, atrapalhar-te continuamente.
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— Bravo!... Não contava divertir-me tanto! Então tu teimas no teu propósito?...
— Pois, se é precisamente agora que estou vendo os bons resultados que ele
me promete!
— Portanto... estes dois dias, guerra!
— Bravíssimo, meu Fabrício; guerra!
— Antecipo-te que o meu primeiro ataque terá lugar durante o jantar.
— Oh! Por milhares de razões, tomara eu que chegasse a hora dele!...
— Augusto, até o jantar!
— Fabrício, até o jantar!
Neste momento Filipe abriu a porta do gabinete e, dirigindo-se aos dois,
disse:
— Vamos jantar.
CAPÍTULO V
Jantar Conversado
Ao escutar aquele aviso animador que, repetido pela boca de Filipe, tinha chegado
até o gabinete onde conversavam Augusto e Fabrício, raios de alegria brilhavam em
todos os semblantes. Cada cavalheiro deu o braço a uma senhora e, par a par, se
dirigiram para a sala de jantar. Eram, entre senhoras e homens, vinte e seis
pessoas.
Coube a Augusto a glória de ficar entre d. Quinquina, que lhe dera a honra de
aceitar seu braço direito, e uma jovem de quinze anos, cuja cintura se podia abraçar
completamente com as mãos. Um velho alemão ficava à esquerda dela e, sem
vaidade, podia Augusto afirmar que d. Clementina prestava mais atenção a ele que
ao jogadores, que, também, a falar a verdade, por seu turno, mais se importava com
o copo que com a moça.
D. Quinquina (como a chamam suas amigas) conversa sofrível e
sentimentalmente: é meiga, terna, pudibunda, e mostra ser muito modesta. Seu
moral é belo e lânguido como seu rosto; um apurado observador, por mais que
contra ela se dispusesse, não passaria de classificá-la entre as sonsas. D.
Clementina pertencia, decididamente, a outro gênero: o que ela é lhe estão dizendo
dois olhos vivos e perspicazes e um sorriso que lhe está tão assíduo nos lábios,
como o copo de vinho nos do alemão. D. Clementina é um epigrama interminável;
não poupa a melhor de suas camaradas: sua vivacidade e espírito se empregam
sempre em descobrir e patentear nas outras as melhores brechas, para abatê-las na
opinião dos homens com quem pratica.
Durante as primeiras cobertas ela dissertou maravilhosamente acerca de
suas companheiras. Maliciosa e picante, lançou sobre elas o ridículo, que manejava,
e os sorrisos de Augusto, que com destreza desafiava. As únicas que lhe haviam
escapado eram d. Quinquina, provavelmente por ficar-lhe muito vizinha, e a irmã de
Filipe, que estava defronte ou como é moda dizer — vis-à-vis.
Augusto quis provocar os tiros de d. Clementina contra aquela menina
impertinente, que tão pouco lhe agradava.
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— E que pensa V. S.ª desta jovem senhora que está defronte de nós?
perguntou ele em voz baixa.
Quem?... A Moreninha?... respondeu ela no mesmo tom. Falo da irmã de
Filipe, minha senhora.
— Sim... todos nós gostamos de chamá-la a Moreninha. Essa... Acabe d.
Clementina, disse a irmã de Filipe que, fingindo antes não prestar atenção ao que
conversavam os dois, acabava de fixar de repente na terrível cronista dois olhares
penetrantes e irresistíveis.
Parecia que uma luta interessante ia ter lugar; as duas adversárias
mostravam-se ambas fortes e decididas, porém d. Clementina para logo recuou; e,
como querendo não passar por vencida, sorriu-se maliciosamente e, apontando para
a Moreninha disse, afetando um acento gracejador:
— Ela é travessa como o beija-flor, inocente como uma boneca, faceira como
o pavão, e curiosa como... uma mulher.
— Sim, tornou-lhe d. Carolina. Preciso é que os ouvidos estejam bem abertos
e a atenção bem apurada, quando se está defronte de uma moça como d.
Clementina, que sempre tem coisas tão engraçadas e tão inocentes para dizer! ...
Oh! minha camarada, juro-lhe que ninguém lhe iguala na habilidade de compor um
mapa.
— Mas... d. Carolina... você deu o cavaco?...
Oh! não, não... continuou a menina, com picante ironia; porém é fato que
nenhuma de nós gosta de ser ofuscada com o esplendor de outra. Já basta de
brilhar, d. Clementina; o sr. Augusto deve estar tão enfeitiçado com o seu espírito e
talento, que decerto não poderá toda esta tarde e noite olhar para nós outras, sem
compaixão ou desgosto; portanto, já basta... se não por si, ao menos por nós.
A cronista fez-se cor de nácar e a sua adversária, imitando-a na malícia do
sorriso e no acento gracejador, prosseguiu ainda:
— Mas ninguém conclua daqui que, por ofuscada, perco o amor que tinha ao
astro que me ofuscou. Bela rosa do jardim! Teus espinhos feriram a borboleta, mas
nem por isso deixarás de ser beijada por ela!...
E assim dizendo, a Moreninha estendeu e apinhou os dedos de sua mão
direita, fez estalar um beijo no centro do belo grupo que eles formaram e, enfim,
executou com o braço um movimento, como se atirasse o beijo sobre d. Clementina.
Oh! disse Augusto consigo mesmo: a tal menina travessa não é tola como me
pareceu ainda há pouco. E desde então começou o nosso estudante a demorar seus
olhares naquele rosto que, com tanta injustiça, tachara de irregular e feio. Prevenido
contra d. Carolina, por havê-la surpreendido fazendo-lhe uma careta, o tal sr.
Augusto, com toda a empáfia de um semidoutor, decidiu magistralmente que a moça
tinha todos os defeitos possíveis. Coitadinho! ... Espichou-se tão completamente,
que agora mesmo já estava pensando com os seus botões: ela não será bonita!...
porém feia?... isso é demais!
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— Chegou muito tarde à ilha... balbuciou d. Quinquina, como quem desejava
travar conversação com Augusto.
— Pensa deveras isso, minha senhora?!... respondeu este, pregando nela um
olhar de quem está pedindo um sim.
— Penso... disse a moça enrubescendo.
— Pois é precisamente agora que eu reconheço ter chegado muito tarde ou
pelo contrário, talvez cedo demais.
— Cedo demais?...
— Certamente: não se chegará sempre cedo demais onde se corre algum
risco?
— Aqui, portanto...
— Neste lugar, portanto, continuou o estudante, voltando os olhos por todas
as senhoras, e apontando depois para d. Quinquina; aqui, principalmente, floresce e
brilha o prazer, mas perde-se também a liberdade de um mancebo!
Os dois foram interrompidos para corresponder a uma longa e interminável
coleção de brindes que o alemão principiou a desenrolar, e com tanta freqüência e
tão pouca fertilidade, que só a sra. d. Ana teve, por sua saúde, de vê-lo beber seis
vezes.
Enfim, cedeu um pouco a tormenta, e d. Quinquina, que havia gostado do que
lhe dissera o estudante, continuou:
— Não quis vir com os seus colegas?
— Eu gosto de andar só, minha senhora.
— Sempre é má e triste a solidão.
— Mas às vezes também a sociedade se torna insuportável... por exemplo,
depois de amanhã...
— Depois de amanhã? repetiu ela, sorrindo-se; depois de amanhã o quê?
— Minha senhora, ouvidos que escutaram acordes, sons de harpa sonora,
vibrada por ligeira mão de formosa donzela, doem-se de ouvir o toque inqualificável
da viola desafinada da rude sabia.
Eu não o compreendo bem...
— Quem respirou o ar embalsamado dos jardins. o aroma das rosas, os
eflúvios da angélica, incomoda-se, exaspera-se ao respirar logo depois a atmosfera
grave e carregada de miasmas de um hospital.
— Ainda o não entendi.
— Pois juro, minha senhora, que desta vez me há de compreender
perfeitamente. Digo que, vendo eu hoje dois olhos que por sua cor se assemelham a
dois belos astros de luz, cintilando em céus do mais puro azul; que, escutando uma
voz tão doce como serão as melodias dos anjos; que enfim, respirando junto de
alguém, cujo bafo é um perfume de delícias, depois de amanhã preferirei não ver,
não ouvir e não cheirar coisa alguma, a ver os olhos pardos e encovados ali do meu
amigo Leopoldo, a ouvir a voz de taboca rachada do meu colega Filipe e a respirar a
fumaça dos charutos de meu companheiro Fabrício.
—Ah!... exclamou outra vez inesperadamente d. Carolina, eu creio que d.
Quinquina terá finalmente compreendido o que o sr. Augusto tanto se empenha em
lhe explicar.
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— Minha prima, atreveu-se a dizer a ingênua, modesta, medrosa e muito
sonsa d. Quinquina; minha prima, você o teria compreendido no primeiro instante,
não é assim?...
— Certamente, respondeu a mocinha, sem perturbar-se; o sr. Augusto, além
de falar com habilidade e fogo, pôs em ação três sentidos; o que poderia também
suceder, era que, como algumas costumam fazer, eu fingisse não compreendê-lo
logo, para dar lugar a mais vivas finezas, até que ele de fatigado dissesse tudo, sem
figuras e flores de eloqüência... Ora, isso quase que aconteceu, porque os olhos, os
ouvidos e o nariz do sr. Augusto hão de estar certamente cansados de tão excessivo
trabalho!
— Minha senhora!
Por desdita dele não houve ocasião de pôr em campo um outro sentido; o
gosto ficou em inação, bem contra a sua vontade, não é assim, sr. Augusto?...
— Minha prima, todos olham para nós...
— A respeito do tato, não direi palavra, continuou a terrível Moreninha; porque
se as mãos do sr. Augusto conservaram-se em justa posição, quem sabe os transes
por que passariam os pés de minha prima?... Os srs. estão tão juntinhos, que com
facilidade e sem risco se podem tocar por baixo da mesa.
— Menina! exclamou a sra. d. Ana, com acento de repreensão.
— Minha senhora, consinta que ela continue a gracejar, disse Augusto, meio
aturdido. Além de me dar a honra de tomar-me por objeto de seus gracejos, dá-me
também o prazer de apreciar e admirar seu espírito e agudeza.
— Agradecida! Muito agradecida! tornou o diabinho da menina, rindo-se com
a melhor vontade. Eu cá não custo a compreendê-lo como minha prima; já sei o que
querem de mim os seus elogios... Estou comprada, não falo mais.
Uma risada geral aplaudiu as últimas palavras de d. Carolina; não há nada
mais natural; ela era a neta da dona da casa, além de ser moça e rica.
Começava então a servir-se a sobremesa.
E eu, apesar de amigo e colega de Augusto, disse por fim Fabrício,
endireitando-se, não posso deixar de lastimar a sra. d. Joaquina, pela triste
conquista que acaba de fazer.
Augusto conheceu que lhe era dado o sinal de combate. Fabrício queria tomar
vingança de sua nenhuma condescendência, e pois, preparou-se para sustentar a
luta com todo o esforço. Vendo que todos tinham os olhos fitos nele, como que
esperando unia resposta, não hesitou.
— Obrigado, disse; nem eu mesmo posso de mim formar outro conceito.
Devo, todavia, declarar que, se me fosse dado conhecer a ditosa mortal que
conseguiu ganhar os pensamentos e o coração do meu colega, certo que eu lhe
daria meus parabéns em prosa e verso, porque Fabrício é, sem contradição, a mais
alegre e apreciável conquista!
A ironia o feriu. A interessante Moreninha lançou sobre Augusto um olhar de
aprovação e sorriu-se brandamente; gostou de o ver manejar sua arma favorita. Sem
se explicar o porquê, também o nosso estudante teve em muita conta aquele sorriso
da menina travessa. Fabrício continuou:
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— Venha embora o ridículo, que nem por isso poder-se-á negar que para o
nosso Augusto não houve, não há, nem pode haver amor que dure mais de três
dias.
— Venha embora o ridículo, que nem por isso poder-se-á negar que para o
nosso Augusto não houve, não há, nem pode haver amor que dure mais de três
dias.
Todas as senhoras olharam para o réu daquele horrendo crime de lesaformosura.
Augusto respondeu:
— E o que há aí de mais engraçado, é que Fabrício tem culpa disso, porque,
enfim, manda o meu destino que eu sempre tenha andado, ande, e haja de andar
em companhia dele, que com a maior crueldade do mundo, tira-me todos os lances,
antes de três dias de amor.
Novo olhar, novo sorriso de aprovação de d. Carolina: novo prazer de
Augusto por merecê-los.
Fabrício torceu-se sobre a cadeira e prosseguiu:
— Nada de fugir da questão. Poder-se-ia julgar fraqueza querer de algum
modo ocultar que, tanto em prática como em teoria, o meu colega é e se preza de
ser o protótipo da inconstância.
Eis o que ele não pode negar, acudiram Leopoldo e Filipe, rindo-se.
— E para que negar, se já o nosso colega afirmou que eu me prezava de ter
essa qualidade?
— Misericórdia! exclamou uma das moças.
— É possível?! ... perguntou a avó de Filipe, com seriedade.
— É absolutamente verdade, respondeu o estudante. Lançou depois um olhar
ao derredor da mesa e todas as senhoras lhe voltaram o rosto. D. Quinquina tinha
nos lábios um triste sorriso. A Moreninha olhou-o com espanto, durante um certo
momento, mas logo depois soltou uma sofrível risada e pareceu ocupar-se
exclusivamente de uma fatia de pudim.
Reinou silêncio por alguns instantes; Fabrício parecia vitorioso; Augusto
estava como em isolamento, as senhoras olhavam para ele com receio, e
mostravam temer encontrar seus olhos; dir-se-ia que receavam que de uma troca de
olhar nascesse para logo o sentimento que as devesse tornar desgraçadas. Desde
as fatais palavras de Fabrício, Augusto era naquela mesa o que costumava ser um
leproso na Idade Média: o homem perigoso, cujo contato podia fazer a desgraça de
outro.
Fabrício compreendeu em quão triste situação estava o seu adversário e
inexperiente, se havia de deixá-lo debatendo-se em sua má posição, quis ainda mais
piorá-la, e foi talvez arrancá-lo dela. Fabrício, pois, fala; as senhoras embebem nele
os olhos e o aplaudem, enquanto Augusto, servindo-se de um prato de grosso
melado, afeta prestar pouca atenção ao seu acusador.
— Sim, minhas senhoras, é um jovem inconstante, acessível a todas as
belezas, repudiando-as ao mesmo tempo para correr atrás de outra, que será logo
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deixada pela vista de uma nova, como se ele fosse a inércia da matéria, que
conserva impressão, mas que não a guarda senão o tempo que é gasto para um
novo agente modificá-la!
Muito bem! Muito bem! disseram algumas vozes.
— Seu coração é pétrea abóboda de teatro que não entende o dizer de
Auber, quando soluça a flauta ternos sons de musical discurso, pois aquela muda
superfície reflete a todos, e a todos esquece com estúpida indiferença!
— Bravo!... Fabrício está hoje romântico! exclamou Leopoldo, apontando
maliciosamente para a garrafa que se achava defronte do orador, e quase de todo
esgotada.
Apoiadíssimo! ... murmurou Augusto, apontando também para a garrafa.
— Mas ele deverá viver de lágrimas, suspiros e ânsias de condenado...
concluiu Fabrício.
— Bravo!... Muito bem!... Bravo!...
— Peço a palavra para responder! exclamou Augusto.
— Tem a palavra, mas nada de maçada!
— Duas palavras, minhas senhoras, só duas palavras. Sim, defenda-se,
defenda-se.
— Defender-me?... Certo que não o farei; poderia, ao contrário, acusar, mas
também não quero; julgo apenas dar algumas explicações. Minhas senhoras,
debaixo de certo ponto de vista o meu colega Fabrício disse a verdade, porque eu
sou, com efeito, o mais inconstante dos homens em negócio de amor.
— Ainda repete?!
— Mas também quem me conhece bastante conclui que, por fim de contas,
não há amante algum mais firme do que eu.
— O senhor está compondo enigmas.
— Não o interrompam, deixem-no apresentar o seu programa amoroso.
— Sim, minhas senhoras, continuou Augusto; vamos ao desenvolvimento da
primeira proposição.
— Ouçam! Ouçam!
— A minha inconstância é natural, justa e, sem dúvida, estimável. Eu vejo
uma senhora bela: amo-a, não porque ela é senhora… mas porque é bela; logo, eu
amo a beleza. Ora, esse atributo não foi exclusivamente dado a uma senhora, e
quando o encontro em outra, fora injustiça que eu desprezasse nesta aquilo mesmo
que eu tanto amei na primeira.
— Bravo! ... Viva o raciocínio!
— Mais ainda. Todo mundo sabe que não há quem nasça perfeito.
Suponhamos que eu estou na agradável companhia de três jovens, todas são lindas;
a primeira vence a segunda na delicadeza do talhe, esta supera aquela na ternura
do olhar e na graça dos sorrisos, e a terceira, enfim, ganha-as na sublime harmonia
de umas bastas madeixas negras, coroando um rosto romanticamente pálido; ora,
bem se vê que seria cometer a mais detestável injustiça se eu, por amar a
delicadeza do talhe da primeira, me esquecesse das ternuras dos olhares e da graça
dos sorrisos da segunda, assim como das bastas madeixas negras e do rosto
romanticamente pálido da última.
— Muito bem, Augusto, exclamou Filipe. Estou achando um não sei quê tão
aproveitável no teu sistema, que me vejo em termos de segui-lo.
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— Eis aqui, pois, porque sou inconstante, minhas senhoras; é o respeito que
tributo ao merecimento de todas, é talvez o excesso a que levo as considerações
que julgo devidas ao sexo amável, que me faz ser volúvel. Agora eu entro na
segunda parte de minha explicação.
— Atenção! ... Ele vai provar que é constante!
— Antes que ninguém, minhas senhoras, eu repreendi o meu coração pela
sua volubilidade; mas vendo que era vão trabalho querer extinguir por tal meio uma
disposição que a natureza nele plantara, pretendi primeiro achar na mesma natureza
um corretivo que o fizesse constante. Procurei uma jovem bem encantadora para me
lançar em cativeiro eterno, mas debalde o fiz, porque eu sou tão sensível ao poder
da formosura, que sempre me sucedia esquecer a bela de ontem pela que via hoje,
a qual, pela mesma razão, era esquecida depois. Quantas vezes, minhas senhoras,
nos meus passeios da tarde, eu olvidei o amor da manhã desse mesmo dia por outro
amor, que se extinguiu no baile dessa mesma noite!
— E exageração! disse uma senhora.
— E exatamente assim, acudiu Fabrício.
— Que folha d’alho! ... exclamou d. Quinquina.
— Então, minhas senhoras, prosseguiu Augusto, entendi que deveria recorrer
a mim próprio para tornar-me constante. Consegui-o. Sou firme amante de um só
objeto que não tem existência real, que não vive.
— Como é isso!... Então a quem ama?
— A sua sombra, como Narciso?...
— A boneca que se vê na vidraça do Desmarais?...
— Ao cupido de Praxíteles, como Aquídias de Rodes?...
— Alguma estátua da Academia das Belas-Artes?...
— Nada disso.
— Então a quem?
— A todas as senhoras, resumidas num só ente ideal. À custa dos belos
olhos de uma, das lindas madeixas de outra, do colo de alabastro desta, do talhe
elegante daquela, eu formei o meu belo ideal, a quem tributo o amor mais constante.
Reuno o que de melhor está repartido e faço mais ainda: aperfeiçôo a minha obra
todos os dias. Por exemplo, retirando-me desta ilha, eu creio que vestirei o meu belo
ideal de novas formas!
Viva o cumprimento!...
— Foi assim, minhas senhoras, que me pude tornar constante e, graças ao
meu proveitoso sistema, posso amar a todas as senhoras a um tempo, sem ser infiel
a nenhuma, disse.
— Muito bem!... Muito bem!...
— Augusto desempenhou-se.
O champanha estourava naquele momento. Leopoldo tomou a palavra pela
ordem.
Eu vou, exclamou, propor um belo meio de terminar estas discussões,
convidando a todos os senhores para um brinde, no qual Augusto, por castigo de
sua inconstância, não nos poderá acompanhar. Não é novo que mancebos bebam,
no meio dos prazeres de um festim, um copo de vinho depois de pronunciar o nome
daquela que é a dama de seus pensamentos. Aqui não estamos só mancebos e,
pois, não faremos tanto; pronunciaremos, contudo, a inicial do primeiro nome.
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— Sim! Sim! disse Filipe, Augusto não beberá conosco...
— Não, maninho, acudiu a interessante Moreninha, ele há de beber também.
— Ah, minha senhora! No beber um copo de champanha não está a dúvida; a
dificuldade toda é poder, entre tantos nomes, escolher o mais amado. Acode-me tal
número dos que têm tocado o superlativo do amor...
— M... disse Leopoldo, esvaziando seu copo.
— C... pronunciou Filipe, olhando para d. Clementina.
— J... balbuciou Fabrício, exasperado com um acesso de tosse que atacara
Augusto.
Os outros mancebos pronunciaram suas letras, e só o inconstante faltava.
— Eia! Ânimo, sr. Augusto, disse d. Carolina.
— Mas que letra, minha senhora?... se eles me dessem licença, faria o
enorme sacrifício de reduzir as que me lembram ao diminuto número de vinte e três.
— Nada! nada! Nesta saúde não entra o número plural.
— Pois bem, sr. Augusto, continuou a menina, uma coleção não deixa de ser
singular; beba o seu copo de champanha ao alfabeto inteiro!
— Sim, minha senhora, ao alfabeto inteiro!
Meia hora depois levantaram-se da mesa. Leopoldo aproximou-se de
Augusto.
— Então que dizes, Augusto?...
— Que passaremos a mais agradável noite.
— E quem ganhará a aposta?
— Eu.
— De qual destas meninas estás mais apaixonado?...
— Estou na minha regra, mas hoje tenho-me apaixonado só de três,
principalmente.
— E o que pensas da irmã de Filipe?
— A melhor resposta que te posso dar, é... não sei... porque, ao meio-dia, a
julgava travessa, importuna e feia, mas era-me completamente indiferente.
— À uma hora?...
— Eu a supus estouvada e desagradável.
— Às duas horas?...
— Má, e desejava vê-la longe de mim.
— Durante o jantar?...
— Fui achando-lhe algum espírito e acusei-me por havê-la julgado feia.
— E agora?
— Parece que me sinto inclinado a declará-la engraçada e bonitinha.
— E daqui a pouco? Eu direi.
CAPÍTULO VI
Augusto com seus amores
Poucos momentos depois da cena antecedente, a sala de jantar ficou entregue
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unicamente ao insaciável Keblerc, que entendeu, não sabemos se mal ou bem, que
era muito mais proveitoso ficar fazendo honra a meia dúzia de garrafas de belo
vinho, do que acompanhar as moças, que se foram deslizar pelo jardim. Outro tanto
não fizeram os rapazes, que de perto as acompanharam, assim como pais, maridos
e irmãos, todos animados e cheios de prazer e harmonia, dispostos a acabar o dia e
entrar pela noite com gosto.
Mas dissemos que não sabíamos se Keblerc havia feito bem ou mal em não
imitar os outros. Sem dúvida já fomos condenados por homens de mau gosto;
cumpre-nos dar algumas razões. Entendemos. cá para nós, que por diversos
caminhos vão, tanto o alemão como os rapazes, a um mesmo fim. Em resultado,
esgotadas as garrafas e terminado o passeio, haverá mona, não só na sala de
jantar, mas também no jardim; a diferença é que uma será mona de vinho e a outra
de amor. Esta última costuma sempre ser a mais perigosa. Pela nossa parte
confessamos que não há cachaça que embebede mais depressa do que uma que se
bebe nos olhos travessos de certas pessoas.
Passeava-se. Cada cavalheiro dava o braço a uma senhora, e, divagando-se
assim pelo jardim, o dicionário das flores era lembrado a todo momento. Menina
havia que, apenas algum lhe dizia, apontando para a flor:
— Acácia!
— Sonhei com você! respondia logo.
— Amor-perfeito!
— Existo para ti só! tornava imediatamente.
E o mesmo faria a respeito de todas as flores que lhe mostravam. Era uma
doutora de borla e capelo em todas as ciências amatórias; e esta menina era, sem
mais nem menos, aquela lânguida e sonsinha d. Quinquina... Fiai-vos nas sonsas!
Um moço e uma moça, porém, andavam como se costuma dizer, solteiros;
bem vezes dela se aproximava o sujeito, mas a bela quanto mais perto a via, mais
saltava, corria, voava como um beija-flor, como uma abelha ou, melhor, como uma
doidinha. Eram eles d. Carolina e Augusto.
Augusto passeava só, contra vontade; d. Carolina por assim o querer.
Augusto viu de repente todos os braços "engajados". Duas senhoras, a quem
se dirigiu, fingiram não ouvi-lo ou se desculparam. O inconstante não lhes fazia
conta, ou antes queriam, tornando-se difíceis, vê-lo requestando-as; porque, desde o
programa de Augusto, cada uma delas entendeu lá consigo que seria grande glória
para qualquer, prender com inquebráveis cadeias aquele capoeira de amor e que o
melhor meio de isto conseguir era fingir desprezá-lo e mostrar não fazer conta com
ele. Exatamente intentavam batê-lo por meio dessa tática poderosa, com que quase
sempre se triunfa da mulher, isto é, pouco a pouco.
D. Carolina, pelo contrário, havia rejeitado dez braços. Queria passear só. Um
braço era uma prisão e a engraçada Moreninha gosta sobretudo da liberdade. Ela
quer correr, saltar e entender com as outras; agora adiante de todos, e daqui a
pouco ser a última no passeio; viva, com os olhos brilhantes; ágil, com seu pezinho
sempre pronto para a carreira; inocente para não se envergonhar de suas
travessuras e criada com mimo demais para prestar atenção ao conselho de seu
irmão, está em toda a parte, vê, observa tudo e de tudo tira partido para rir-se. Em
contínua hostilidade com todas aquelas que passeavam com moços, de cada vista
d’olhos, de cada suspiro, de cada ação que percebia, tirava motivo para seus
epigramas; e, inimigo invencível, porque não tinha fraco por onde fosse atacado, era
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por isso temido e acariciado. Deixemô-la, pois, correr e saltar, aparecer e
desaparecer ao mesmo tempo; nem à nossa pena é dado o poder de acompanhá-la,
que ela é tão rápida como o pensamento.
Finalmente, o pobre Augusto encontrou uma senhora que teve piedade dele.
Estão afastados do resto da companhia, e conversam. Vamos ouvi-los.
— Com efeito, disse a sra. d. Ana, devo confessar que me espantei, ouvindoo
sustentar com tão vivo fogo a inconstância do amor.
— Mas, minha senhora, não sei por que se quer espantar!... E uma opinião.
— Um erro, senhor! ... Ou, melhor ainda, um sistema perigoso e capaz de
produzir grandes males.
— Eis o que também me espanta!
— Não, senhor, nada há aqui que exagerado seja; rogo-lhe que por um
instante pense comigo: se o seu sistema é bom, deve ser seguido por todos; e se
assim acontecesse, onde iria assentar o sossego das famílias, a paz dos esposos,
se lhe faltava a sua base — a constância?...
Augusto guardou silêncio e ela continuou:
— Eu devo crer que o sr. Augusto pensa de maneira absolutamente diversa
daquela pela qual se explicou. Consinta que lhe diga: no seu pretendido sistema, o
que há é muita velhacaria; finge não se curvar por muito tempo diante de beleza
alguma, para plantar no amor-próprio das moças o desejo de triunfar de sua
inconstância.
— Não, minha senhora, o único partido que eu procuro, e tenho conseguido
tirar, é o sossego de que há algum tempo gozo.
— Como?
— É uma história muito longa, mas que eu resumirei em poucas palavras.
Com efeito, não sou tal qual me pintei durante o jantar. Não tenho a louca mania de
amar um belo ideal, como pretendi fazer crer; porém, o certo é que eu sou e quero
ser inconstante com todas e conservar-me firme no amor de uma só.
— Então o senhor já ama?...
— Julgo que sim.
— A uma moça?
— Pois então a quem?...
— Sem dúvida bela!...
— Creio que deve ser.
— Pois o senhor não sabe?...
— Juro que não.
— O seu semblante?
— Não me lembro dele.
— Mora na corte?...
— Ignoro-o.
— Vê-a muitas vezes?...
— Nunca.
— Como se chama?...
— Desejo muito sabê-lo.
— Que mistério!
— Eu devo mostrar-me grato à bondade com que tenho sido tratado,
satisfazendo a curiosidade que vejo muito avivada no seu rosto; e, pois, a senhora
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vai ouvir o que ainda não ouviu nenhum dos meus amigos, o que eu não lhes diria,
porque eles provavelmente rir-se-iam de mim. Se deseja saber o mais interessante
episódio de minha vida, entremos nesta gruta, onde praticaremos livres de
testemunhas, e mais em liberdade.
Eles entraram.
Era uma gruta pouco espaçosa e cavada na base de um rochedo que
dominava o mar. Entrava-se por uma abertura alta e larga, como qualquer porta
ordinária. Ao lado direito havia um banco de relva, em que poderiam sentar-se a
gosto três pessoas; no fundo via-se uma pequena bacia de pedra, onde caía, gota a
gota, límpida e fresca, água que do alto do rochedo se destilava; preso por uma
corrente à bacia de pedra, estava um copo de prata, para servir a quem quisesse
provar da boa água do rochedo.
Foi este lugar escolhido por Augusto para fazer suas revelações à digna
hóspeda.
O estudante, depois de certificar-se de que toda a companhia estava longe,
veio sentar-se junto da sra. d. Ana, no banco de relva, e começou a história dos seus
amores.
CAPÍTULO VII
Os dois breves, branco e verde
Negócios importantes, minha senhora, tinham obrigado meu pai a deixar sua
fazenda e a vir passar alguns meses na corte; eu o acompanhei, assim como toda a
nossa família, isto foi há sete anos, e nessa época houve um dia... mas que importa
o dia?... Eu o poderia dizer já; o dia, o lugar, a hora, tudo está presente à minha
alma, como se fora sucedido ontem o acontecimento que vou ter a honra de relatar;
é uma loucura… a minha mania... embora... Foi, pois, há sete anos, e tinha eu então
treze anos de idade, que, brincando em uma das belas praias do Rio de Janeiro, vi
uma menina que não poderia ter ainda oito.
Figure-se a mais bonita criança do mundo, com um vivo, agradável e alegre
semblante, com cabelos negros e anelados voando ao derredor de seu pescoço,
com o fogo do céu nos olhos, com o sorrir dos anjos nos lábios, com a graça divina
em toda ela, e far-se-á ainda uma idéia incompleta dessa menina.
Ela estava à borda do mar e seu rosto voltado para ele; aproximei-me
devagarinho. Uma criança viva e espirituosa, quando está quieta, é porque imagina
novas travessuras ou combina os meios para executar alguma a que se opõe
obstáculos; eu sabia isto por experiência própria; cheguei-me para saber em que
pensava a menina; a pequena distância dela parei, porque já tinha adivinhado seu
pensamento.
Na praia estava deposta uma concha, mas tão perto do mar, que quem a
quisesse tomar e não fosse ligeiro e experiente se expunha a ser apanhado pelas
ondas, que rebentavam com força, então.
Eu vi a travessa menina hesitar longo tempo entre o desejo de possuir a
concha e o receio de ser molhada pelas vagas; depois pareceu haver tomado uma
resolução: o capricho de criança tinha vencido. Com suas lindas mãozinhas
arregaçou o vestido até aos joelhos, e quando a onda recuou, ela fez um
movimento, mas ficou ainda no mesmo lugar, inclinada para diante e na ponta dos
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pés: segunda, terceira, quarta, quinta onda, e sempre a mesma cena de ataque e
receio do inimigo. Finalmente, ao refluxo da sexta, ela precipitou-se sobre a concha;
mas a areia escorregou debaixo de seus pés e a interessante menina caiu na praia,
sem risco e com graça: erguendo-se logo e, espantada ao ver perto de si a nova
onda, que desta vez vinha mansa e fraca como respeitosa, correu para trás e sem o
pensar atirou-se nos meus braços, exclamando:
— Ah!... Eu ia morrer afogada!...
Depois, vendo-se com o vestido cheio de areia, começou a rir-se muito,
sacudindo-o e dizendo ao mesmo tempo:
— Eu caí! Eu caí!...
E como se não bastasse esta passagem rápida do susto para o prazer, ela
olhou de novo para o mar, e tornando-se levemente melancólica, balbuciou com voz
pesarosa, apontando para a concha:
— Mas... a minha concha!...
Ouvindo a sua voz harmoniosa e vibrante, eu não quis saber de fluxos nem
refluxos de ondas; corri para elas com entusiasmo e, radiante de prazer e felicidade,
apresentei-me à linda menina, embora um pouco molhado, mas trazendo a concha
desejada.
Este acontecimento fez-nos logo camaradas. Corremos a brincar juntos com
toda essa confiança infantil que só pode nascer da inocência e que ainda em parte
se dava em mim, posto que já esse tempo fosse eu um pouco velhaquete e sonso,
como um estudante de latim que era, e por tal já procurava minhas blasfêmias no
dicionário.
É sempre digno de observar-se esta tendência que têm as calças para o
vestido! Desde a mais nova idade e no mais inocente brinquedo aparece o tal mútuo
pendor dos sexos... e de mistura umas vergonhas muito engraçadas...
Eu cá sempre fui assim; quando brincava o tempo-será, por exemplo, sempre
preferia esconder-me atrás das portas com a menos bonita de minhas primas, do
que com o mais formoso de meus amigos de infância.
Mas, como ia dizendo, nós brincamos juntos, corríamos e caíamos na areia, e
depois ríamos ambos de nós mesmos. Tínhamos esquecido todo o mundo, e
pensávamos somente em nos divertir, como os melhores amigos.
Depois de uma agradável hora passada em mil diversas travessuras, que
nossa imaginação e inconstância de meninos modificava e inventava a cada
momento, a minha interessante camarada voltou-se de repente para mim, e
perguntou:
— Sou bonita, ou feia?...
Eu quis responder-lhe mil coisas... corei... e finalmente murmurei tremendo:
— Tão bonita!...
— Pois então, tornou-me ela, quando formos grandes, havemos de nos casar,
sim?
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— Oh!... Pois bem!...
— Havemos, continuou o lindo anjinho de oito anos, eu o quero... Olhe, o meu
primo Juca me queria também, mas ainda ontem me quebrou a minha mais bonita
boneca... Ora, o marido não deve quebrar as bonecas de sua mulher!... Eu quero,
pois, me casar com o senhor, que há de apanhar bonitas conchinhas para mim...
Além disso ele não tem, como o senhor, os cabelos louros nem a cor rosada...
— Porém eu gosto mais dos cabelos pretos...
— Melhor!... Melhor!... exclamou a menina, saltando de prazer. Olhe: os meus
são pretos!
E nisto ela puxou com a sua pequena mãozinha um de seus belos anéis da
madeixa, para mostrar-mo, e largando-o depois, eu vi cair outra vez em seu
pescoço, de novo torcido como um caracol.
Ainda corremos mais e continuamos a brincar juntos; e, sem o pensar, nós
nos esquecemos de procurar saber os nossos verdadeiros nomes, porque nos
bastavam esses com que já nos tratávamos, de: meu marido, minha mulher!
A viveza, a graça e o espírito da encantadora menina tinham feito
desaparecer meu natural acanhamento; nós estávamos como dois antigos
camaradas, quando fomos interrompidos em nossas travessuras por um outro
menino que para nós corria chorando.
— O que tem? perguntamos ambos.
— E meu pai que morre! exclamou ele, apontando para uma casinha que
avistamos algumas braças distante de nos.
Ficamos um momento tristemente surpreendidos; depois, como dominados
pelo mesmo pensamento, ela e eu dissemos a um tempo:
— Vamos lá.
E corremos para a pequena casa.
Entramos. Era um quadro de dor e luto que tínhamos ido ver. Uma pobre
velha e três meninos, mal vestidos e magros, cercavam o leito em que jazia
moribundo um ancião de cinqüenta anos, pouco mais ou menos. Pelo que agora
posso concluir, uma síncope havia causado todo o movimento, pranto e desolação
que observamos. Quando chegamos ao pé de seu leito, ele tornava a si.
— Ainda não morri, balbuciou, olhando com ternura para seus filhos, e
deixando cair dos olhos grossas lágrimas. Depois, deparando conosco, continuou:
— Quem são estes dois meninos?...
Ninguém lhe respondeu, porque todos choravam, sem excetuar a minha bela
camarada e eu.
— Não chorem ao pé de mim, exclamou o velho, sufocado em pranto e
escondendo o rosto entre as mãos, enquanto seus três filhos e o quarto que
tínhamos há pouco visto fora, se atiravam sobre ele, no excesso da maior, da mais
nobre e da mais sublime das dores.
A minha camarada dirigiu-se então à velha.
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— O que tem então ele?… perguntou com viva demonstração de interesse.
— Oh, meus meninos, respondeu a aflita velha, ele sofre uma enfermidade
cruel, mas que poderia não ser mortal... porém e pobre!... E morre mais depressa
pelo pesar de deixar seus filhos expostos à fome!... Morre de miséria!... Morre de
fome!...
— Fome! exclamamos com espanto; fome! pois também morre-se de fome?...
E instintivamente a minha interessante companheira tirou do bolso do seu
avental uma moeda de ouro e, dando-a à velha, disse:
— Foi meu padrinho que ma deu hoje de manhã... eu não preciso dela... não
tenho fome.
E eu tirei do meu bolso uma nota, não me lembro de que valor, e por minha
vez a entreguei, dizendo:
— Foi minha mãe que ma deu e ela me dá um abraço, sempre que faço
esmolas aos pobres.
Não é possível descrever o que se passou então naquela miserável
choupana. Minha linda mulher e eu tivemos de ser abraçados mil vezes, de ver de
joelhos a nossos pés a velha e os meninos... Finalmente nós nos aproximamos dele,
que nos apertou com entusiasmo contra o coração.
— Quem sois? pôde, enfim, dizer; quem sois?
— Duas crianças, foi a menina que respondeu.
— Dois anjos, tornou o velho. E quem é este menino?...
— É o meu camarada, disse ainda ela. Vosso irmão?
— Não senhor, meu… marido.
— Marido?
— Sim, eu quero que ele seja meu marido.
— Deus realize vossos desejos!...
Acabando de pronunciar estas palavras, o ancião guardou silêncio por alguns
instantes… bebeu com sofreguidão um púcaro cheio de água e, olhando de novo
para nós, e tendo no rosto um ar de inspiração e em suas palavras um acento
profético, exclamou:
— Seja dado ao homem agonizante lançar seus últimos pensamentos do leito
da morte, além dos anos, que já não serão para ele, e penetrar com seus olhares
através do véu futuro... Meus filhos, amai-vos e amai-vos muito! A virtude se deve
ajuntar, assim como o vício se procura; sim, amai-vos. Eu não vos iludo... vejo lá...
bem longe… a promessa realizada! São dois anjos que se unem... vêde!... Os
meninos que entraram na casa do miserável, que enxugaram o pranto e mataram a
fome da indigência, são abençoados por Deus e unidos em nome d’Ele!... Meus
filhos, eu os vejo casados lá no futuro!
— Oh!... Eis aí outra vez o delírio!… disse a velha, vendo a exaltação e o
semblante afogueado do enfermo.
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— Não, minha mãe, continuou ele; não! Não é delírio... Pois quê!... Não pode
o Eterno abençoar a virtude pela minha boca?... Oh! Meus meninos! Deus paga
sempre a esmola que se dá ao pobre!... Ainda uma vez… lá no futuro... vós o
sentireis.
Nós estávamos espantados: o rosto do ancião se havia tornado rubro, seus
olhos flamejantes... Seus lábios tremiam convulsivamente, sua mão rugosa tinha três
vezes nos abençoado.
Escutando suas palavras, eu acreditei que estávamos ouvindo uma profecia
infalivelmente realizável, pronunciada por um inspirado do Senhor.
Não parou aí a nossa admiração. O doente, cujas forças pareciam haver
reaparecido subitamente, apoiando-se sobre um dos cotovelos, abriu a gaveta de
uma mesa que estava junto de seu leito, e tirando de uma pequena e antiga caixa
dois breves, os deu à velha dizendo:
— Minha mãe, descosa esses dois breves.
A velha, obedecendo pontualmente, os descoseu com prontidão. Os breves
eram dois: um verde e outro branco.
Depois o ancião, voltando-se para mim, disse:
Menino! Que trazeis convosco que possais oferecer a esta menina?...
Eu corri com os olhos tudo que em mim havia e só achei para entregar ao
admirável homem que me falava um lindo alfinete de camafeu, que meu pai me tinha
dado para trazer ao peito: maquinalmente, pus-lhe nas mãos o meu camafeu.
O velho quebrou o pé do alfinete e dando-o a sua mãe, acrescentou:
— Minha mãe, cosa dentro do breve branco este camafeu.
E voltando-se para minha bela camarada, continuou:
— Menina! Que trazeis convosco que possais oferecer a este menino?...
A menina, atilada e viva, como já esperando tal pergunta, entregou-lhe um
botão de esmeralda que trazia em sua camisinha.
O velho o deu a sua mãe, dizendo:
— Minha mãe, cosa esta esmeralda dentro do breve verde.
Quando as ordens do ancião foram completamente executadas, ele tomou os
dois breves e, dando-me o de cor branca, disse-me:
— Tomai este breve, cuja cor exprime a candura da alma daquela menina.
Ele contém o vosso camafeu: se tendes bastante força para ser constante e amar
para sempre aquele belo anjo, dai-lho a fim de que ela o guarde com desvelo.
Eu mal compreendi o que o velho queria: ainda maquinalmente entreguei o
breve à linda menina, que o prendeu no cordão de ouro que trazia ao pescoço.
Chegou a vez dela. O homem deu-lhe o outro breve, dizendo:
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— Tomai este breve, cuja cor exprime as esperanças do coração daquele
menino. Ele contém a vossa esmeralda: se tendes bastante força para ser constante
e amar para sempre aquele bom anjo, dai-lho, a fim de que ele o guarde com
desvelo.
Minha bela mulher executou a insinuação do velho com prontidão, e eu prendi
o breve ao meu pescoço, com uma fita que me deram.
Quando tudo isto estava feito, o velho prosseguiu ainda:
— Ide, meus meninos; crescei e sede felizes! Vós olhastes para mim, pobre e
miserável, e Deus olhará para vós... Ah! Recebei a bênção de um moribundo!...
Recebei-a e sai para não vê-lo expirar!
Isto dizendo, apertou nossas mãos com força: eu senti, então, que o velho
ardia; senti que seu bafo era como vapor de água fervendo, que sua mão era uma
brasa que queimava... Sinto ainda sobre os meus dedos o calor abrasador dos seus
e agora compreendo que, com efeito, ele delirava quando assim praticou com duas
crianças.
Enfim, nós deixamos aquela morada aflitos e admirados. Sós, nós pensamos
no velho e choramos juntos; depois, nas crianças isto não merece reparo, a nossa
dor se mitigou, para cuidarmos em brincar outra vez.
De repente a menina olhou para mim e disse:
— E quando minha mãe perguntar pela esmeralda?...
Eu cuidei que lhe respondia, e fiz-lhe igual pergunta:
— E quando meu pai perguntar pelo meu camafeu?
Ficamos olhando um para o outro; passados alguns instantes, minha linda
mulher, que me parecera estar pensando, disse sorrindo-se.
— Eu vou pregar uma mentira.
— E qual?
— Eu direi a minha mãe que perdi a minha esmeralda na praia.
— E eu responderei a meu pai que perdi o meu camafeu nas pedras.
— Eles mandarão procurar, sem dúvida...
— E, não o achando, esquecer-se-ão disso.
— E os breves?... Nós os guardaremos?...
— O velho disse que sim. Para que será isto?...
— Disse que é para nos casarmos quando formos grandes.
— Pois então nós os guardaremos.
— Oh! Eu o prometo.
— Eu o juro.
Neste momento soou ave-maria.
— Tão tarde! exclamou a menina…minha mãe ralhará comigo!
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E, dizendo isto, correu, esquecendo-se até de despedir-se de mim. Esse fatal
descuido acabava de entristecer-me, quando ela, já de longe, voltou-se para onde
eu estava e, mostrando-me o breve branco, gritou:
— Eu o guardarei!
Pela minha parte entendi dever dar-lhe igual resposta, e, pois, mostrei-lhe o
meu breve verde e gritei-lhe também:
— Eu o guardarei!
Aqui parou Augusto para respirar, tão cansado estava com a longa narração;
porém ergueu-se logo, ouvindo à entrada da gruta.
— Alguém nos escuta! disse ele.
— Foi talvez uma ilusão! respondeu a digna hóspeda.
— Não, minha senhora; eu ouvi distintamente a bulha que faz uma pessoa
que corre, tornou Augusto dirigindo-se à entrada da gruta e observando em derredor
dela.
— Então?... perguntou a sra. d. Ana.
— Enganei-me, na verdade.
— Mas vê alguma pessoa?...
— Apenas lá vejo sua bela neta, a sra. d. Carolina, pensativa e recostada à
Efígie da Esperança.
CAPÍTULO VIII
Augusto prosseguindo
A avó de Filipe quis tomar, por sua vez, a palavra; porém o estudante lhe fez ver que
ainda muito faltava para o fim de suas histórias, e voltando de novo ao seu lugar,
continuou:
— O acontecimento que acabo de relatar, minha senhora, produziu vivíssima
impressão no meu espírito; ajudado por minha memória de menino de treze anos,
apenas entrei em casa escrevi, palavra por palavra, quanto me havia acontecido.
isto me tirou o trabalho de mentir, porque adormecendo sobre o papel que acabava
de escrever, meu pai o leu à sua vontade e soube o destino do camafeu, sem
precisar que eu lhe dissesse. Ele ainda estava junto de mim quando despertei,
exclamando: o meu breve!… o velho!... minha mulher!...
Anda, doidinho, disse-me meu pai com bondade; eu te perdôo as novas
loucuras, em louvor da ação que praticaste, socorrendo um velho enfermo; agora,
guarda, eu to peço, e mesmo to mando, guarda melhor esse breve do que guardaste
o camafeu.
E isto dizendo, deixou-me.
Não se falou mais neste acontecimento; soube que o velho morrera no dia
seguinte e que no momento da agonia abençoara de novo a minha camarada e a
mim.
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Meu pai fez todas as despesas do enterro do velho e socorreu a sua
desgraçada família.
Eu nunca mais vi, nem tive notícia alguma da minha interessante camarada,
mas nem por isso a esqueci, minha senhora... porque, ou seja que meu coração a
tivesse amado deveras, ou que esse breve tivesse alguma coisa de encantador, o
certo é que eu ainda hoje me lembro com saudades dessa criança tão travessa,
porém tão bela. Sem saber seu nome, pois nem lho perguntei, nem ela mo disse,
quando quero falar a seu respeito, digo sempre: a minha mulher! Riem-se... não me
importa: eu não posso dizer de outro modo.
Sempre com sua imagem na minha alma, com seu engraçado sorriso diante
de meus olhos, com suas sonoras palavras soando a meus ouvidos, passei cinco
anos pensando nela de dia, e com ela sonhando de noite; era uma loucura, mas que
havia eu de fazer?... Cheguei assim aos meus dezoito anos.
Eu já era, pois, mancebo. Meus pais nada poupavam para me educar
convenientemente, e eu aprendia quanto me vinha à cabeça; diziam que a minha
voz era sonora, e por tal convidavam-me para cantar em elegantes sociedades;
julgavam que eu dançava com graça e lá ia eu para os bailes; finalmente, como
cheguei a fazer algumas quadras, pediam-me recitar sonetos em dias de anos, e
assim introduziram-me em mil reuniões, onde as belezas formigavam e os amores
eram dardejados por brilhantes olhos de todas as cores.
Além disto freqüentava as casas de meus companheiros de estudos e os
ouvia contar proezas de paixões, triunfos e derrotas amorosas. Meu amor-próprio se
despertou, e tive vontade de amar e ser amado.
Julguei esta minha determinação ainda mais justa, pois tendo ido passar
certas férias na roça, e falando mil vezes no meu breve e em minha mulher, ouvi
minha mãe dizer uma vez, cru que me julgava longe:
— Temo que esse breve tire o juízo àquele menino; talvez que nos seja
preciso casá-lo cedo.
Portanto, para não ouvir somente, mas também para contar alguma vitória de
amor, para não endoidecer por causa do breve e, finalmente, para não ser
necessário à minha mãe casar-me cedo, determinei-me a amar.
— Esqueceu-se, por conseqüência, de sua mulher e do seu breve! perguntou
a sra. d. Ana, interrompendo Augusto.
— Ao contrário, minha senhora, tornou este; foi essa minha resolução que me
tornou mais firme e mais amante de minha mulher.
Não sei, continuou Augusto, que teve o amor comigo. para entender que
todas as moças deviam rir-se de mim e zombar de meus afetos! Pensa que brinco,
minha senhora?... Pois foi isso mesmo que me sucedeu no decurso de minhas
paixões. Eu resumo algumas.
A primeira moça que amei era uma bela moreninha, de dezesseis anos de
idade. Fiz-lhe a minha declaração na carta mais patética que um pateta poderia
conceber, no fim de três dias recebi uma resposta abrasadora e cheia de protestos
de gratidão e ternura; meu coração se entusiasmou com isso... Na primeira reunião
de estudantes contei a minha vitória, li a minha carta e a resposta que havia
recebido. Fui vivamente aplaudido; porém, oito dias depois, os mesmos estudantes
quase me quebraram a cabeça com cacholetas e gargalhadas, porque oito dias,
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bem contadinhos, depois dessa resposta, a minha terna amada casou-se com um
velho de sessenta anos. Jurei não amar moça nenhuma que tivesse a cor morena.
Apaixonei-me logo e fui, desgraçadamente, correspondido por uma
interessante jovem tão coradinha, que parecia mesmo uma rosa francesa, Nós nos
encontrávamos nas noites dos sábados em certa casa, onde se dava todas as
semanas uma partida; era a mais agradável sabatina que podia ter um estudante;
porém o meu novo amor chegava a ser tocante demais, e a minha querida levava o
ciúme até um ponto que me atormentava prodigiosamente: se passava algum dia em
que não a visse e lhe não mandasse uma flor, aparecia-me depois chorosa e
abatida; se na tal partida eu me atrevia a dançar com alguma outra moça bonita, era
contar com um desmaio certo, e desmaio de que não acordava sem que eu mesmo
lhe chegasse ao nariz o seu vidrinho de essência de rosas; tudo mais era por este
teor e forma. Este amor já estava um pouco velho, certamente, tinha três meses de
idade. Um sábado mandei-lhe prevenir que faltaria à partida; mas tendo terminado
cedo meus trabalhos, não pude resistir ao desejo de vê-la e fui à reunião; eram onze
horas da noite quando entrei na sala, procurei-a com os olhos e certo moço, com
quem me dava, que me entendeu, apontou para um gabinete vizinho. Voei para ele.
Ela estava sentada junto de um mancebo e com as costas voltadas para a
porta; tomavam sorvetes. Cheguei-me de manso: conversavam os dois, sem
vergonha nenhuma, em seus amores!
Fiquei espantado e tanto mais que, pelo que ouvi, eles já se correspondiam
há muito tempo; mas o meu espanto se tornou em fúria quando ouvi o machacaz
falar no meu nome, fingindo-se zeloso, e receber em resposta as seguintes palavras:
— Augustozinho?... Lamente-o antes, coitado! É um pobre menino com quem me
divirto nas horas vagas! ... Soltei um surdo gemido; a traidora olhou para mim e,
voltando-se depois para o seu querido, disse com o maior sangue frio: — Ora, aí
tem! Perdi por sua causa este divertimento.
Jurei não amar moça nenhuma de cor rosada. Sem emendar-me, ainda
tornei-me cego amante de uma jovem pálida, e, como das outras vezes, fui
correspondido com ardor; mas desta tive eu provas de afeto muito sérias. Antes de
ver-me, ela amava um primo e até escrevia-lhe a miúdo; eu exigi que a minha
terceira amada continuasse a receber cartas dele e que as respondesse; consentiu
nisso, com a condição de lhe redigir eu as respostas. Belo! disse eu comigo: vou
também divertir-me por minha vez à custa de um amante infeliz!
E o negócio ficou assentado.
Infelizmente eu não conhecia o primo da minha amada, mas essa era a
infelicidade mais tolerável possível.
Um dia tratamos de encontrar-nos em certa igreja, onde tinha de haver
esplêndida festa; cheguei cedo, mas logo depois de minha chegada rebentou uma
tempestade e choveu prodigiosamente. Pouco durou o mau tempo, porém as ruas
deveriam ter ficado alagadas e a bela esperada não podia vir; apesar disso eu
olhava a todos os momentos para a porta e, coisa notável, sempre encontrava os
olhos de um outro moço, que se dirigiam também para lá; acabada a festa, ambos
nos aproximamos.
— Nós devemos ser amigos, disse ele.
— Eu penso do mesmo modo, respondi.
E apertamos as mãos.
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— Sou capaz de jurar que adivinho a razão por que o senhor olhava tanto
para aquela porta, continuou ele.
— E eu também.
Convenho: esperávamos ambos nossas amadas e a chuva mangaram
conosco.
— Exatamente.
— Mas nós vamos, sem dúvida, vingar-nos, indo agora vê-las à janela.
— Eu queria propor a mesma vingança.
Bravo! ... Iremos juntos... Onde mora a sua?...
— Na rua de...
— Ainda melhor... a minha é na mesma rua.
Saímos da igreja, embraçamo-nos e fomos. A minha amada morava perto, eu
avistei-a debruçada na janela, talvez me esperando, pois olhava para o lado donde
eu vinha; abri a boca para dizer ao meu novo amigo: é aquela!... Quando ele me
pronunciou com indizível prazer: é aquela!
Julgue, minha senhora, da minha exasperação! Pela terceira vez eu era a
boneca de uma menina!...
Não sei por que ainda tive ânimo de tirar o meu chapéu à tal pálida, que ao
menos dessa vez se fez cor-de-rosa, talvez por ver-me de braço com o novo amigo.
Passando a maldita casa, Jorge, que assim se chamava o moço, disse-me
com fogo:
— Aquela jovem adora-me!
— Está certo disso, meu amigo?
— Tenho provas.
— Acredita muito nelas?
— Tenho as mais fortes; por último recebi ainda a de maior confiança: eu lhe
conto. Um estudante a requestou e escreveu-lhe; ela mandou-me a carta, e eu
respondi em seu lugar. A correspondência tem continuado por minha vontade e sou
eu quem sempre faço a norma das cartas que ela deve escrever; achará isto
imprudência, e eu acho um belo divertimento.
— Sim... um belo divertimento...
— Mas que é isso? Está tão pálido!
— Não é coisa de cuidado... Eu... ora... o estudante...
— É por certo um famoso pateta...
— Não é bom ir tão longe...
— Não tem dúvida… é um tolo rematado.
— Fale-me a verdade: eu acho aquela moça com cara de ser sua prima.
— Quem lhe disse?... E, com efeito, minha prima!
— Pois vamos à minha casa.
— E a sua amada?...
— Não me fale mais nela.
Apenas chegamos à minha casa, abri uma gaveta, e tirando dela todas as
cartas que Jorge havia escrito à sua prima, e que ela me tinha mandado, assim
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como as normas que eu redigira para as que deveriam ser enviadas ao meu amigo,
acrescentando:
— Concordemos ambos que, se o estudante foi um famoso pateta e um tolo
rematado, não o foi menos o primo daquela senhora a quem cortejamos na rua de...
Jorge devorou todas as cartas e normas que lhe dei; depois desatou a rir e,
abraçando-me, exclamou:
— Concordemos também, caro estudante, que minha prima tem bastante
habilidade para se corresponder com meio mundo, sem se incomodar com o
trabalho da redação de suas cartas!
O bom humor de Jorge tornou-me alegre. Jantamos juntos, rimo-nos todo o
dia, e só de noite se retirou.
Tratei de dormir, mas, antes de adormecer, falei ainda comigo mesmo: juro
que não hei de amar a moça nenhuma de cor pálida.
Desde então declarei guerra ao amor, minha senhora; tornei-me ao que era
dantes, isto é, ocupei-me somente em me lembrar de minha mulher e em beijar o
meu breve.
Mas eu andava triste e abatido e às vezes pensava assim: ora, pois jurei não
amar moça nenhuma que fosse morena, corada ou pálida: estas são as cores, estes
são os tipos da beleza... e, portanto, minha mulher terá, a pesar meu, uma das tais
cores; logo não me caso com minha mulher e, em última conclusão, serei celibatário;
vou ser frade... frade!
Minha tristeza, meu abatimento deu nos olhos da digna, jovial e espirituosa
esposa de um de meus bons amigos. Ela me pediu que lhe confiasse as minhas
penas e eu não pude deixar de relatar estes três fatos à consorte de um caro amigo.
A única consolação que tive foi vê-la correr para o piano, e ouvi-la cantar as
seguintes e outras quadrinhas musicadas no gosto nacional.
I
Menina solteira
Que almeja casar
Não caia em amar
A homem algum;
Nem se/a notável
Por sua esquivança,
Não tire a esperança
De amante nenhum.
II
Mereçam-lhe todos
Olhares ardentes,
Suspiros ferventes
Bem pode soltar:
Não negue a nenhum
Protestos de amor;
A qualquer que for
O pode jurar.
III
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Os velhos não devem
Formar exceção,
Porquanto eles são
Um grande partido;
Que, em falta de moço
Que fortuna faça,
Nunca foi desgraça
Um velho marido.
IV
Ciúmes e zelos,
Amor e ternura
Não será loucura
Fingida estudar;
Assim ganhar tudo
Moças se tem vis/o,
Serve muito isto
Antes de casar.
V
Contra os ardilosos
Oponha seu brio:
Tenha sangue frio
Pra saber fugir;
Eu, todos os casos
Sempre deve estar
Pronta pra chorar,
Pronta para rir.
VI
Pode bem a moça,
Assim praticando,.
Dos homens zombando,
A vida passar;
Mas, se aparecer
Algum toleirão,
Sem mais reflexão,
É logo casar.
— Então o negócio é assim, minha senhora? exclamei eu, ao vê-la levantarse
do piano.
— Certamente, me respondeu ela; é este, pouco mais ou menos, o breviário
por onde reza a totalidade das moças.
— Fico-lhe extremamente agradecido pelo desengano.
— Estimo que lhe sirva de muito.
— Já serve, minha senhora; já tirei grande proveito dele.
— E como?
— Escute. Abatido e desesperado com os meus infortúnios, eu tinha jurado
não amar a mais nenhuma moça que fosse morena, corada ou pálida: estavam,
pois, esgotados os belos tipos... eu deveria morrer celibatário.
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44
— E agora?...
— Agora?... Graças ao seu lundu, juro que de hoje avante amarei a todas
elas... morenas, coradas, magras e gordas, cortesãs ou roceiras, feias ou bonitas…
tudo serve.
— E, com efeito, minha senhora, continuou Augusto, dirigindo-se à sra. d.
Ana, fiz-me absolutamente um ser novo, graças ao lundu; guardando e beijando com
desvelo o meu querido breve, que sempre comigo trago, eu conservo a lembrança
mais terna e constante de minha mulher: ela é o amor de meu coração, enquanto
todas as outras são divertimentos dos meus olhos e o passatempo de minha vida.
Eis, finalmente, a história de meus amores!... Tais foram as razões que me tornaram
borboleta de amor.
Terminando assim, Augusto ia respirar um instante, quando pela segunda vez
lhe pareceu ouvir ruído na porta da gruta.
— Alguém nos escuta, disse ele, como da outra vez.
— E talvez uma nova ilusão... respondeu a digna hóspeda.
— Não, minha senhora; eu ouvi distintamente a bulha de uma pessoa que
corre, tornou Augusto, dirigindo-se à entrada da gruta e observando ao derredor
dela.
Então?... perguntou a sra. d. Ana.
— Enganei-me, na verdade.
— Mas vê alguém?...
— Apenas lá vejo a sua bela neta, a sra. d. Carolina, que se precipita com a
maior graça do mundo sobre uma borboleta que lhe foge, e que ela procura prender.
— Uma borboleta...
CAPÍTULO IX
A srª. D. Ana com suas histórias
Finalmente, o bom do estudante que, quando lhe dava para falar, era mais difuso
que alguns de nossos deputados novos na discussão do artigo l o dos orçamentos,
julgou dever fazer pausa de suspensão; mas a sra. d. Ana, que já tinha-o por vezes
interrompido fora de tempo e debalde, não quis tomar a palavra para responder, sem
assegurar-se, dirigindo-lhe estas palavras pela ordem:
— Então concluiu, sr. Augusto?...
Sim, minha senhora; e peço-lhe perdão por me haver tornado incômodo, pois
fui, sem dúvida, tão minucioso em minha narração que eu mesmo tanto me fatiguei,
que vou beber uma gota d’água.
E isto dizendo, foi ao fundo da gruta, e enchendo o copo de prata na bacia de
pedra, o esgotou até o fim: quando voltou os olhos, viu que a boa hóspeda estava
rindo-se maliciosamente.
— Sabe de que estou rindo?…disse ela.
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45
— Certamente que não o adivinho.
— Pois estava neste momento lembrando-me de uma tradição muito antiga,
seguramente fabulosa, mas bem apropositada dessa fonte, e que tem muita relação
com a história dos seus amores e com o copo d’água que acaba de beber.
— S.S.a põe em tributo a minha curiosidade...
— Eu o satisfaço com todo o prazer.
A sra. d. Ana principiou:
AS LÁGRIMAS DE AMOR
— Eu lhe vou contar a história das lágrimas de amor, tal qual a ouvi à minha
avó, que em pequena a aprendeu de um velho gentio que nesta ilha habitava.
Era no tempo em que ainda os portugueses não haviam sido por uma
tempestade empurrados para a terra de Santa Cruz. Esta pequena ilha abundava de
belas aves e em derredor pescava-se excelente peixe. Uma jovem tamóia, cujo rosto
moreno parecia tostado pelo fogo em que ardia-lhe o coração, uma jovem tamóia
linda e sensível, tinha por habitação esta rude gruta, onde ainda então não se via a
fonte que hoje vemos. Ora, ela, que até aos quinze anos era inocente como a flor, e
por isso alegre e folgazona como uma cabritinha nova, começou a fazer-se tímida e
depois triste, como o gemido da rola; a causa disto estava no agradável parecer de
um mancebo da sua tribo, que diariamente vinha caçar ou pescar à ilha, e vinte
vezes já o havia feito sem que de uma só desse fé dos olhares ardentes que lhe
dardejava a moça. O nome dele era Aoitin; o nome dela era Ahy. A pobre Ahy, que
sempre o seguia, ora lhe apanhava as aves que ele matava, ora lhe buscava as
flechas disparadas, e nunca um só sinal de reconhecimento obtinha; quando no fim
de seus trabalhos, Aoitin ia adormecer na gruta, ela entrava de manso e com um
ramo de palmeira procurava, movendo o ar, refrescar a fronte do guerreiro
adormecido. Mas tantos extremos eram tão mal pagos que Ahy de cansada procurou
fugir do insensível moço e fazer por esquecê-lo; porém, como era de esperar, nem
fugiu-lhe e nem o esqueceu.
Desde então tomou outro partido: chorou. Ou porque a sua dor era tão grande
que lhe podia exprimir o amor em lágrimas desde o coração até os olhos, ou porque,
selvagem mesmo, ela já tinha compreendido que a grande arma da mulher está no
pranto, Ahy chorou.
E também porque nas lágrimas de amor há, como na saudade, uma doce
amargura, que é veneno que não mata, por vir sempre temperado com o reativo da
esperança, a moça julgou dever separar da dor, que a fazia chorar amargores, a
esperança que no pranto lhe adicionava a doçura, e, tendo de exprimir a doçura,
Ahy cantou.
Seu canto era triste e selvagem, mas terno canto. Dizem que um velho frade
português, ouvindo-o por tradição ao depois de muitos anos, o traduziu para a nossa
língua e fez dele uma balada, a qual minha neta canta.
Todos os dias, ao romper da aurora, a pobre Ahy subia ao rochedo, que serve
de teto a esta gruta, e esperava a piroga de Aoitin. Mal a avistava ao longe, chorava
e cantava horas inteiras, sem descanso, até que se partia o bárbaro que nunca dela
dera fé, nem mesmo quando, dormindo na gruta, o canto soava sobre a sua cabeça.
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Mas Ahy era tão formosa e sua voz tão sonora e terna, que o mesmo que não pôde
vencer do insensível moço, pôde do bruto rochedo: com efeito, seu canto havia
amolecido a rocha e as suas lágrimas a traspassaram.
E o mancebo vinha sempre e sempre, e ela cantava e chorava e nunca ele a
atendia.
Uma vez, e já então o rochedo estava todo traspassado pelas lágrimas da
virgem selvagem, uma vez veio Aoitin e, como das outras, não olhou para Ahy, nem
lhe escutou as sentidas cantigas; entregou-se a seus prazeres e, quando se sentiu
fatigado, entrou na gruta e adormeceu num leito de verde relva; mas, ao tempo que
em mais sossego dormia, duas gotas das lágrimas de amor, que tinham passado
através do rochedo, caíram-lhe sobre as pálpebras, que lhe cerravam os olhos.
Aoitin despertou; e tomando suas flechas, correu para o mar, mas, saltando dentro
de sua piroga e afastando-se da ilha, ele viu sobre o rochedo a jovem Ahy e disse
bem alto:
— Linda moça!
No outro dia ele voltou e já então olhou para a virgem selvagem, mas não
ouviu ainda o canto dela; depois de caçar veio, como sempre, adormecer na gruta;
e, dessa vez, a gota de lágrimas lhe veio cair no ouvido; e na volta não só admirou a
beleza da jovem, como, ouvindo a terna cantiga, disse bem alto:
A voz sonora!
Terceiro dia amanheceu e Aoitin viu e ouviu Ahy, caçou e cansou, veio
repousar na gruta e dessa vez a gota de lágrima lhe caiu no lugar do coração e,
quando voltava, disse bem alto:
— Sinto amar-te!
Ora, parece que nada mais faltava a Ahy, e que a ela cumpria responder a
este último grito de Aoitin, confessando também o seu amor tão antigo; mas a
natureza da mulher é a mesma, tanto na selvagem, como na civilizada. A mulher
deseja ser amada, fingindo não amar; deseja ser senhora do mesmo de quem é
escrava: e pois Ahy nada respondeu; mas riu-se, e suas lágrimas secaram; porém já
a esse tempo as muitas que havia derramado tinham dado origem a esta fonte, que
ainda hoje existe.
No dia seguinte veio Aoitin, e viu a sua amada, que já não cantava, nem
chorava: mesmo antes de abicar à praia, foi clamando:
— Sinto amar-te!
E Ahy não respondeu, e só sorriu-se.
Nada de caça... nada de pesca... já o insensível era escravo e não vivia longe
do encanto que o prendia: correu, pois, para a gruta, deitou-se mas não dormiu.
Quem ama não dorme; sentiu que em suas veias corria sangue ardente, que seu
coração estava em fogo: era a febre do amor... Aoitin teve sede, e a dois passos viu
a fonte que manava; correu açodado para o pé dela e, ajuntando as suas mãos, foi
bebendo as lágrimas de amor. A cada trago que bebia, um raio de esperança lhe
brilhava, e quando a sede foi saciada já estava feliz: a fonte era milagrosa.
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As lágrimas de amor, que haviam tido o poder de tornar amante o insensível
mancebo, não puderam esconder a sua origem e fizeram com que Aoitin
conhecesse que era amado.
Então ele não mais buscou sua piroga. Saindo da gruta, fez um rodeio e foi,
de manso, trepando pelo rochedo, até chegar junto de Ahy, que, com os olhos na
praia do lado oposto, esperava ver partir o seu amante e ouvir o seu belo grito:
— Sinto amar-te!
Mas de repente ela estremeceu, porque uma mão estava sobre seu ombro; e
quando olhou, viu Aoitin, que, sorrindo-se, lhe disse de um tom seguro e terno:
— Tu me amas!
Ahy não respondeu, mas também não fugiu dos braços de Aoitin, nem ficou
devendo o beijo que nesse instante lhe estalou na face.
Desde então foram felizes na vida, e foi numa mesma hora que morreram
ambos.
A fonte nunca mais deixou de existir, e há ainda quem acredite que por
desconhecido encanto conserva duas grandes virtudes...
Dizem, pois, que quem bebe desta água não sai da nossa ilha sem amar
alguém dela e volta, por força, em demanda do objeto amado; e em segundo lugar,
querem também alguns que algumas gotas bastam para fazer a quem bebe
adivinhar os segredos de amor.
— Terminei aqui a minha história, disse a sra. d. Ana, respirando.
— E eu sou capaz de jurar, disse Augusto, que pela terceira vez sinto o ruído
de alguém que se retira correndo.
— Pois examine depressa.
Augusto correu à porta e voltou logo depois.
— E então?... perguntou a sra. d. Ana.
— Ninguém, respondeu o estudante.
— E vê alguém no jardim?...
Apenas a sra. d. Carolina, que vai apressadamente para o rochedo.
— Sempre minha neta!...
E eu, minha senhora, tenho que pedir-lhe uma graça.
— Diga.
— Rogo-lhe que, por sua intervenção, me facilite o prazer de ouvir sua linda
neta cantar a balada de Ahy, que tanto me interessou com o seu amor.
— Oh! ... Não carece pedir: não a ouve cantar sobre o rochedo?... É a balada.
— Será possível?!
— Adivinhou o seu pensamento.
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CAPÍTULO X
A balada do rochedo
A hóspeda e o estudante deixaram então a gruta e, tomando o do jardim para
vencer a altura do rochedo, viram a bela Moreninha em pé e voltada para o mar,
com seus cabelos negros divididos em duas tranças que caíam pelas espáduas, e
cantando com terna voz o seguinte:
I
Eu tenho quinze anos
E sou morena e linda!
Mas amo e não me amam
E tenho amor ainda.
E por tão triste amar,
Aqui venho chorar.
II
O riso de meus lábios
Há muito que murchou;
Aquele que eu adoro
Ah! Foi quem matou;
Ao riso, que morreu,
O pranto sucedeu.
III
O fogo de meus olhos
De todo se acabou,
Aquele que eu adoro
Foi quem o apagou:
Onde houve fogo tanto
Agora corre o pranto.
IV
A face cor de jambo
Enfim se descorou,
Aquele que eu adoro
Ah! Foi quem a desbotou:
A face tão rosada
De pranto está lavada!
V
O coração tão puro
Já sabe o que é amor,
Aquele que eu adoro
Ah! Só me dá rigor:
O coração no entanto
Desfaz o amor em pranto.
VI
Diurno aqui se mostra
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Aquele que eu adoro;
E nunca ele me vê,
E sempre o vejo e choro;
Por paga a tal paixão
Só lágrimas me dão!
VII
Aquele que eu adoro
E qual rio que corre,
Sem ver a flor pendente
Que ti margem murcha e morre:
Eu sou u pobre flor
Que vou murchar de amor.
VIII
São horas de raiar
O sol dos olhos meus,
Mau sol! Queima a florzinha
Que adora os olhos seus:
Tempo é do sol raiar
E é tempo de chorar.
IX
Lá vem sua piroga
Cortando leve os mares,
Lá vem uma esperança
Que sempre dá pesares:
Lá vem o meu encanto,
Que sempre causa pranto.
X
Enfim abica a praia,
Enfim salta apressado.
Garboso como o cervo
Que salta alto valado:
Quando há de ele cá vir
Só pra me ver sorrir?
XI
Lá corre em busca de aves
A selva que lhe é cara,
Ligeiro como a seta
Que do arco seu dispara:
Quando há de ele correr
Somente para me ver.
XII
Lá vem do feliz bosque
Cansado de caçar,
Qual beija-flor que cansa
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De mil flores a beijar:
Quando há de ele, cansado,
Descansar a meu lado?
XIII
Lá entra para a gruta,
E cai na rude cama,
Qual flor de belas cores,
Que cai do pé na grama:
Quando há de nesse leito
Dormir junto a meu peito?
XIV
Lá súbito desperta,
E na piroga embarca,
Qual sol que, se ocultando,
O fim do dia marca:
Quando hei de este sol ver
Não mais desaparecer?
XV
Lá voa na piroga,
Que o rasto deixa aos mares,
Qual sonho que se esvai
E deixa após pesares:
Quando há de ele cá vir
Pra nunca mais fugir?...
XVI
Oh bárbaro! Tu partes
E nem sequer me olhaste?
Amor tão delicado
Em outra já achaste?
Oh bárbaro! responde,
Amor como este, aonde?
XVII
Somente pra teus beijos
Te guardo a boca para;
Em que lábios tu podes
Achar maior doçura?...
Meus lábios, murchareis,
Seus beijos não tereis!
XVIII
Meu colo levantado
Não vale teus abraços?...
Que colo há mais formoso,
Mais digno de teus braços?
ingrato! Morrerei...
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E não te abraçarei.
XIX
Meus seios entonados
Não podem ter valia?
Desprezas as delícias
Que neles te of’recia?
Pois hão de os seios puros
Murcharem prematuros?
XX
Não sabes que me chamam
A bela do deserto?...
Empurras para longe
O bem que te está perto?...
Só pagas com rigor
As lágrimas de amor?...
XXI
Ingrato! Ingrato! foge...
E aqui não tornes mais,
Que, sempre que tornares,
‘Terás de ouvir meus ais:
E ouvir queixas de amor,
E ver pranto de dor.1...
XXII
E, se amanhã vieres,
Em pé na rocha dura
‘Starei cantando aos ares
A mal paga ternura...
Cantando me ouviras,
Chorando me acharás!...
CAPÍTULO XI
Travessuras de d. Carolina
Mas ela não pára: o movimento é a sua vida; esteve no jardim e em toda a parte;
cantou sobre o rochedo e ei-la outra vez no jardim!
Infatigável, apenas suas faces se coraram com o rubor da agitação. Travessa
menina!... Porém ela tempera todas as travessuras com tanta viveza, graça e
espírito, que menos valera se não fizera o que faz. Não há um só, entre todos, de
cuja alma não se tenham esvaído as idéias desfavoráveis que à primeira vista
produzira o gênio inquieto de d. Carolina. O mesmo Augusto não pôde resistir à
vivacidade da menina. Encontrando Leopoldo, disseram duas palavras sobre ela.
— Então, como a achas agora?... disse Leopoldo, apontando para a irmã de
Filipe.
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— Interessante, espirituosa e capaz de levar a glória ao mais destro casuísta.
Olha, Fabrício vê-se doido com ela.
— Só isto?...
— Acho-a bonita.
— Nada mais?...
— Tem voz muito agradável.
— É tudo o que pensas?...
— Tem a boca mais engraçada que se pode imaginar.
— Só?...
— Só?...
— Que mais?
— É tão ligeira como um juramento de mulher.
— Dize tudo de uma vez.
— Pois que queres mais que eu diga?
— Que a amas!... Que dás o cavaco por ela.
— Amá-la? Não faltava mais nada! Amo-a como amo as outras.., isto sim.
— Pois meu amigo, todos nós estamos derrotados: o diabinho da menina nos
tem posto o coração em retalhos. Se, de novo, se fizer a saúde que hoje fizemos,
todos, à exceção de Felipe, pronunciarão a letra C.
— Também Fabrício?
— Ora! Esse está doente... perdido... doido enfim! E ela?
— Zomba de todos nós; cada cumprimento que lhe endereçamos paga ela
com uma resposta que não tem troco e que nos racha de meio a meio. Tu ainda lhe
não disseste nada?
— Coisas vãs... e palavras da tarifa.
— E ela?
— Palavras da tarifa… e coisas vãs.
— Tanto melhor para mim.
— Pois é opinião geral que ela te prefere a todos nós.
— E pior para ela, mas... adeus! O meu lindo par se levanta do banco de relva
em que descansava, vou tomar-lhe o braço; tenho-me singularmente divertido: a
bela senhora é filósofa! ... Faze idéia! Já leu Mary de Wollstonecraft e, como esta
defende o direito das mulheres, agastou-se comigo, porque lhe pedi uma comenda
para quando fosse ministra de Estado, e a patente de cirurgião de exército, no caso
de chegar a ser general; mas, enfim, fez as pazes, pois lhe prometi que, apenas me
formasse, trabalharia para encartar-me na Assembléia Provincial e lá, em lugar das
maçadas de pontes, estradas e canais, promoveria a discussão de uma mensagem
ao Governo Geral, em prol dos tais direitos das mulheres; além de que... Mas... tu
bem vês que ela me está chamando; adeus!...
No entanto d. Carolina continuava a cativar todos os olhares e atenções;
tinham notado, é verdade, que ela estivera alguns momentos recostada à efígie da
Esperança, triste e pensativa. Fabrício jurava mesmo que a vira enxugar uma
lágrima, mas logo depois, lhe desaparecera completamente a menor aparência de
tristeza, tornou a brilhar o prazer em ebulição.
Todos tinham tido seu quinhão, maior ou menor, segundo os merecimentos
de cada um, nas graças maliciosas da menina. Ninguém havia escapado: Fabrício
era a vítima predileta, porque também fora ele o único que se atreveu a travar luta
com ela.
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Finalmente d. Carolina acabava de entrar outra vez no jardim, depois de ter
cantado sua balada. De todos os lados soavam-lhe os parabéns, mas ela escapou a
eles, correndo para junto de uma roseira toda corada por suas belas e rubras flores.
Fabrício, que ainda não estava suficientemente castigado e que, além disso,
começava a gostar seu tantum da Moreninha, dirigiu-se com d. Joaninha para o lado
em que ela se achava.
— É decididamente o que eu pensava, disse Fabrício, quando se viu ao pé de
d. Carolina; e dirigindo-se a d. Joaninha: sim... sua bela prima ama as rosas,
exclusivamente.
— Conforme as ocasiões e circunstâncias, respondeu a menina.
— Poderia eu merecer a honra de uma explicação? perguntou Fabrício.
Com toda a justiça e, continuou d. Carolina rindo-se, tanto mais que foi a V.S.a
que me dirigi. Eu queria dizer que entre um beijo de frade ou um cravo defunto e
uma rosa, não hesito em preferir a última.
Fabrício fingiu não entender a alusão e continuou:
— Todavia não é sempre bem pensada semelhante preferência; a rosa é
como a beleza: encanta, mas espinha! V.S.a o sabe, não é assim?
— Perfeitamente, mas também não ignoro que a rosa só espinha quando se
defende de alguma mão impertinente que vem perturbar a paz de que goza; V. S.a o
sabe, não é assim?
— Oh! Então a sra. d. Carolina foi bem imprudente em quebrar o pé dessa
rosa com que brinca, expondo assim seus delicados dedos: e bem cruel também em
fazê-la murchar de inveja, tendo-a defronte de seu formoso semblante.
— Pela minha vida, meu caro senhor! Nunca vi pedir uma rosa com tanta
graça: quer servir-se dela?
— Seria a mais apetecível glória...
— Pois aqui a tem... Querido primo, nada de ciúmes.
E Fabrício, recebendo o belo presente, em vez de olhar para a mão que o
dava, atentava em êxtase o rosto moreno e o sorrir malicioso de d. Carolina. Ao
momento de se encontrar a mão que dava e a que recebia, Fabrício sentiu que lhe
apertavam os dedos; seu primeiro pensamento foi acreditar que era amado, mas
logo se lhe apagou esse raio de vaidade, pois que ele retirou vivamente a mão,
exclamando involuntariamente:
— Ai! Feri-me!...
Era que a travessa lhe havia apertado os dedos contra os espinhos da rosa.
Mas a flor tinha caído na relva: Fabrício, já menos desconcertado, a levantou com
presteza; e encarando a irmã de Filipe, disse-lhe em tom meio vingativo:
— Foi um combate sanguinolento, mas ganhei o prêmio da vitória!
— Pois feriu-se?… perguntou d. Carolina, chegando-se com fingido cuidado
para ele.
— Nada foi, minha senhora: comprei uma rosa por algumas gotas de
sangue... Valeu a pena.
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— Maldita rosa! exclamou a Moreninha, teatralmente... Maldita rosa! Eu te
amaldiçôo!
E dando um piparote na inocente flor, a desfolhou completamente: não ficou
na mão de Fabrício mais que o verde cálice. D. Carolina correu para junto de sua
digna avó, e o pobre estudante ficou desconcertado.
E esta! murmurou ele enfim.
— Foi muito bem-feito! disse d. Joaninha, cheia de zelos e dando-lhe um
beliscão que o fez ir às nuvens.
— Perdão, minha senhora... seja pelo amor de Deus! exclamou Fabrício, que
se via batido por todos os lados.
No entanto começava a declinar a tarde. Uma voz reuniu todas as senhoras e
senhores em um só ponto; servia-se o café num belo caramanchão, mas como fosse
ele pouco espaçoso para conter tão numerosa sociedade, aí só se abrigaram as
senhoras, enquanto os homens se conservaram da parte de fora.
Escravas decentemente vestidas ofereciam chávenas de café fora do
caramanchão e, apesar disso, d. Carolina se dirigiu com uma para Fabrício, que
praticava com Augusto.
— Eu quero fazer as pazes, sr. Fabrício; vejo que deve estar muito agastado
comigo e venho trazer-lhe uma chávena de café temperado pela minha mão.
Fabrício recuou um passo e colocou-se à ilharga de Augusto; ele desconfiava
das tenções da menina, e sua primeira idéia foi esta: o café não tem açúcar.
Então começou entre os dois um duelo de cerimônias, que durou alguns
instantes; finalmente, o homem teve de ceder à mulher, Fabrício ia receber a
chávena, quando esta estremeceu no pires... D. Carolina, temendo que sobre ele se
entornasse o café, recuou um pouco. Fabrício fez outro tanto, e a chávena, ainda
mal tomada, tombou e o café derramou-se inopinadamente. Fabrício recuou ainda
mais com vivacidade, mas encontrando a raiz de um chorão, que sombreava o
caramanchão, perdeu o equilíbrio e caiu redondamente na relva.
Uma gargalhada geral aplaudiu o sucesso.
— Fabrício espichou-se completamente! exclamou Filipe.
O pobre estudante ergueu-se com ligeireza, mas, na verdade, corrido do que
acabava de sobrevir-lhe; as risadas continuavam, as terríveis consolações o
atormentavam, todas as senhoras tinham saído do caramanchão e riam-se, por sua
vez, desapiedadamente. Fabrício daria muito para livrar-se dos apuros em que se
achava, quando de repente soltou também a sua risada e exclamou:
— Vivam as calças de Augusto!
Todos olharam. Com efeito, Fabrício tinha encontrado um companheiro na
desgraça. Augusto estava de calças brancas, e a maior porção do café entornado
havia caído neles.
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CAPÍTULO XII
Meia hora embaixo da cama
Não tardou que Filipe, como bom amigo e hóspede, viesse em auxílio de
Augusto. Em verdade que era impossível passar o resto da tarde e a noite inteira
com aquela calça, manchada pelo café; e, portanto, os dois estudantes voaram à
casa. Augusto, entrando no gabinete destinado aos homens, ia tratar de despir-se,
quando foi por Filipe interrompido.
— Augusto, uma idéia feliz! Vai vestir-te no gabinete das moças.
— Mas que espécie de felicidade achas tu nisso?
— Ora! Pois tu deixas passar uma tão bela ocasião de te mirares no mesmo
espelho em que elas se miram?... De te aproveitares das mil comodidades e das mil
superfluidades que formigam no toucador de uma moça?... Vai!... Sou eu que to
digo; ali acharás banhas e pomadas naturais de todos os países; óleos aromáticos
essências de formosura e de todas as qualidades; águas cheirosas, pós vermelhos
para as faces e para os lábios, baeta fina para esfregar o rosto e enrubescer as
pálidas; escovas e escovinhas, flores murchas e outras viçosas...
— Basta, basta; eu vou, mas lembra-te que és tu quem me fazes ir e que o
meu coração adivinha...
— Anda, que o teu coração sempre foi um pedaço d’asno.
E isto dizendo, Filipe empurrou Augusto para o gabinete das moças e se foi
reunir ao rancho delas.
Ai do pobre Augusto!... Mal tinha acabado de tirar as calças e a camisa, que
também se achava manchada, sentiu o rumor que faziam algumas pessoas que
entravam na sala.
Augusto conheceu logo que eram moças, porque estes anjinhos, quando se
ajuntam, fazem, conversando, matinada tal, que a um quarto de légua se deixam
adivinhar; se é cediço e mesmo insólito compará-las a um bando de lindas maitacas,
não há remédio senão dizer que muito se assemelham a uma orquestra de peritos
instrumentistas, na hora da afinação.
Ora, o nosso estudante estava, por sua esdrúxula figura, incapaz de aparecer
a pessoa alguma: em ceroulas e nu da cinta para cima, faria recuar de espanto,
horror, vergonha e não sei que mais, ao belo povinho que acabava de entrar em
casa e que, certamente, se assim o encontrasse, teria de cobrir o rosto com as
mãos; e portanto, o pobre rapaz seguiu o primeiro pensamento que lhe veio à
mente: ajuntou toda a roupa, enrolou-a, e com ela embaixo do braço escondeu-se
atrás de uma linda cama que se achava no fundo do gabinete, cuidando que cedo se
veria livre de tão intempestiva visita; mas, ainda outra vez, pobre estudante! Teve
logo de agachar-se e espremer-se para baixo da cama, pois quatro moças entraram
no quarto. E eram elas d. Joaninha, d. Quinquina, d. Clementina e uma outra por
nome Gabriela, muito adocicada, muito espartilhada, muito estufada, e que seria
tudo quanto tivesse vontade de ser, menos o que mais acreditava que era, isto é...
bonita.
Depois que todas quatro se miraram, compuseram cabelos, enfeites e mil
outras coisas que estavam muito em ordem, mas que as mãozinhas destas quatro
demoiselles não puderam resistir ao prazer, muito habitual nas moças, de
desarranjar para outra vez arranjar, foram, por mal dos pecados de Augusto, sentarse
da maneira seguinte: d. Clementina e d. Joaninha na cama, embaixo da qual
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estava ele; d. Quinquina de um lado, em uma cadeira; e d. Gabriela exatamente
defronte do espelho, do qual não tirava os olhos, em outra cadeira que, apesar de
ser de braços e larga, pequena era para lhe caber sem incômodo toda a coleção de
saias, saiotes, vestidos de baixo e enorme variedade de enchimentos que lhe faziam
de suplemento à natureza, que com d. Gabriela, segundo suas próprias camaradas,
tinha sido um pouco mesquinha a certos respeitos.
Depois de respirarem um momento, as meninas, julgando-se sós, começaram
a conversar livremente, enquanto Augusto, com sua roupa embaixo do braço,
coberto de teias de aranha e suores frios, comprimia a respiração e conservava-se
mudo e quedo, medroso de que o mais pequeno ruído o pudesse descobrir: para
seu maior infortúnio, a barra da cama era incompleta e havia seguramente dois
palmos e meio de altura descobertos por onde, se alguma das moças olhasse, seria
ele impreterivelmente visto. A posição do estudante era penosa, certamente; por
último saltou-lhe uma pulga á ponta do nariz, e por mais que o infeliz a soprasse, a
teimosa continuou a chuchá-lo com a mais descarada impunidade.
— Antes mil vezes cinco sabatinas seguidas, em tempo de barracas no
campo! ... dizia ele consigo.
Mas as moças falavam já há cinco minutos; façamos por colher algumas
belezas, o que é na verdade um pouco difícil, pois segundo o antigo costume, falam
todas quatro ao mesmo tempo. Todavia, alguma coisa se aproveitará.
— Que calor!… exclamou d. Gabriela, afetando no abanar de seu leque todo
o donaire de uma espanhola; oh! não parece que estamos no mês de julho; mas, por
minha vida, vale bem o incômodo que sofremos o regalo que têm tido nossos olhos.
— Bravo, d. Gabriela!... Então seus olhos...
— Têm visto muita coisa boa. Olhe, não é por falar, mas, por exemplo, há
objeto mais interessante do que d. Luisa mostrar-se gorda, esbelta, bem feita?
— É um saco!
— E como é feia!...
— E horrenda!
— É um bicho!
— E não vimos a filha do capitão com sua dentadura postiça?... Agora não faz
senão rir!...
— Coitadinha! Aperta tanto os olhos!
— Se ela pudesse arranjar também um postiço para o queixo!
— Ora, d. Clementina, não me obrigue a rir!...
— D. Joaninha, você reparou no vestido de chalim de d. Carlota?... Quanto a
mim, está absolutamente fora da moda.
— Ainda que estivesse na moda, não há nada que nela assente bem.
— Ora... é um pau vestido!... Tem urna testa maior que a rampa do largo do
Paço!...
— Um nariz com tal cavalete, que parece o morro do Corcovado!
— E a boca?... Ah! Ah! Ah!
— Parece que anda sempre pedindo boquinhas...
— E que língua ela tem!
— É uma víbora!
— Eu não sei por que as outras mulheres não hão de ser como nós, que não
dizemos mal de nenhuma delas.
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— E verdade, porque se eu quisesse falar...
— Diga sempre, d. Quinquina.
— Não... não quero. Mas, passando a outra coisa... D. Josefina aplaude com
prazer a moda dos vestidos compridos!
— Ora... porque tem pernas de caniço de sacristão.
— Pernas finas também é moda, presentemente.
— Deus me livre!…acudiu d. Clementina; pelo menos para mim nunca deve
ser, pois não posso emendar a natureza, que me deu pernas grossas.
— Não lhe fico atrás, juro-lhe eu! exclamou d. Quinquina. Nem eu! Nem eu!
disseram as outras duas.
— Isso é bom de se dizer, tornou a primeira; mas, felizmente, podemos tirar
as dúvidas.
— Como?
— Facilmente: vamos medir as nossas pernas.
Ouvindo tal proposição, o nosso estudante, apesar de se ver em apuros
embaixo da cama, arregalou os olhos de maneira que lhe pareciam querer saltar das
órbitas; porém, d. Gabriela, que não parecia estar consigo e que só por honra da
firma dissera o seu ‘‘nem eu", veio deixá-lo com água na boca.
Havia de ser engraçado, disse ela, arregaçarmos agora os nossos vestidos!
— Que tinha isso?... acudiu d. Quinquina; não somos todas moças?... Dir-seia
que não temos dormido juntas.
— E verdade, acrescentou d. Clementina e, além do que, não se veria demais
senão quatro ou cinco saias por baixo do segundo vestido.
— E talvez algum saiote... vamos a isto!
— Não... não... disse, por sua vez, d. Joaninha.
— Pois por mim não era a dúvida, tornou d. Clementina, com ar de triunfo,
recostando-se mole e voluptuosamente nas almofadas, e deixando escorregar de
propósito uma das pernas para fora do leito, até tocar com o pé no chão, de modo
que ficou à mostra até o joelho.
— Quem me dera já casar! ... suspirou ela.
Pobre Augusto! ... Não te chamarei eu feliz?... Ele vê a um palmo dos olhos a
perna mais bem torneada que é possível imaginar!…Através da finíssima meia
aparecia uma mistura de cor de leite com a cor-de-rosa e, rematando este
interessante painel róseo, um pezinho que só se poderia medir a polegadas,
apertado em um sapatinho de cetim, e que estava mesmo pedindo um... dez...
cem... mil beijos; mas quem o pensaria? Não foram beijos o que desejou o estudante
outorgado àquele precioso objeto: veio-lhe ao pensamento o prazer que sentiria
dando-lhe uma dentada... Quase que já não se podia suster... já estava de boca
aberta e para saltar... Porém, lembrando-se da exótica figura em que se via, meteu a
roupa que tinha enrolada entre os dentes e, apertando-os com força procurava iludir
a sua imaginação.
— Quem me dera já casar!... repetiu d. Clementina.
— Isto é fácil, disse d. Gabriela; principalmente se devemos dar crédito aos
que tanto nos perseguem com finezas. Olhem, eu vejo-me doida!... Mais de vinte me
atormentam! Querem saber o que me sucedeu ultimamente?... Eu confesso que me
correspondo com cinco… isto é só para ver qual dos cinco quer casar primeiro; pois
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bem, ontem, uma preta que vende empadas e que se encarrega das minhas cartas
recebeu das minhas mãos duas...
— Logo duas?...
— Ora, pois, apesar de todas as minhas explicações, a maldita estava de
mona: mesmo dizendo-lhe eu dez vezes: a de lacre azul é a do sr. Joãozinho e a de
verde é do sr. Juca, sabem o que fez?…trocou as cartas!
— E o resultado?...
— Ei-lo aqui, respondeu d. Gabriela, tirando um papel do seio; ao vir
embarcar, e quando descia, a tal preta, com a destreza precisa, entregou-me este
escrito do sr. Joãozinho: "Ingrata! ainda tremem minhas mãos, pegando no corpo de
delito da tua perfídia! Escreves a outro!? Compareces por tão horrível crime perante
o júri do meu coração; e, bem que tenhas nesse tribunal a tua beleza por advogado,
o meu ciúme e justo ressentimento, que são os juizes, te condenam às perpétuas
galés do desprezo; e só te poderás livrar se apelares dessa sentença para o poder
moderador de minha cega paixão."
— Bravo, d. Gabriela! O sr. Joãozinho é sem dúvida estudante de
jurisprudência?
— Não, é doutor.
Bem mostra pelo bem que escreve.
— Mas eu sou bem tola! Conto tudo o que me sucede e ninguém me confia
nada!
— Isso é razoável, disse d. Clementina; nós devemos pagar com gratidão a
confiança de d. Gabriela. Eu começo declarando que estou comprometida com o sr.
Filipe a deixar esta noite, embaixo da quarta roseira da rua do jardim, que vai
direta ao caramanchão, um embrulhozinho com uma madeixa de meus cabelos.
Que asneira!... Por que lho não entrega ou não lho manda entregar?
— Ora... eu tenho muita vergonha…antes quero assim; até parece mais
romântico.
— São caprichos de namorados! falou d. Quinquina; havia tempo para isso!
Mas, enfim, de futilidades é que o amor se alimenta. Querem ver uma dessas? O
meu predileto está de luto e por isso exige que eu vá á festa de... com uma fita preta
no cabelo, em sinal de sentimento; exige ainda que eu não valse mais, que não
tome sorvetes, para não constipar, que não dê dorninus tecum a moço nenhum que
espirrar ao pé de mim, e que jamais me ria quando ele estiver sério; e a tudo isso
julga ele ter direito, por ser tenente da Guarda Nacional! Pois, por isso mesmo, ando
agora de fita branca no cabelo, valso todas as vezes que posso, tomo sorvetes até
não poder mais, dou dominus tecum aos moços mesmo quando não espirram e na()
posso ver o sr. tenente Gusmão sério sem soltar uma gargalhada.
— Olhem lá o diabinho da sonsa! murmurou consigo mesmo Augusto,
embaixo da cama.
— E você, mana, não diz nada?... perguntou ainda a d. Joaninha.
— Eu?... O que hei de dizer? respondeu esta; digo que ainda não amo.
— E a única que ama deveras! pensou o estudante, a quem já doíam as
cadeiras de tanto agachar-se.
— E o sr. Fabrício?... E o sr. Fabrício?... exclamaram as três.
— Pois bem, tornou d. Joaninha, é o único de quem gosto.
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— Mas que temos nós hoje feito nesta ilha?... Que triunfo havemos
conseguido?... Vaidade para o lado: moças bonitas, como somos, devemos ter
conquistado alguns corações!
— Juro que estou completamente aturdida com os protestos de eterna paixão
do sr. Leopoldo, disse d. Quinquina; mas é uma verdadeira desgraça ser hoje moda
ouvir com paciência quanta frivolidade vem, não direi à cabeça, porque parece que
os tolos como que não a têm, porém aos lábios de um desenxabido namorado. O tal
sr. Leopoldo... não é graça, eu ainda não vi estudante mais desestudável!...
— Você, d. Joaninha, acudiu d. Clementina, tem-se regalado hoje com o
incomparável Fabrício. Não lhe gabo o gosto... só as perninhas que ele tem!...
— Ora, respondeu aquela; ainda não tive tempo de lhe olhar para as pernas…
mas também você parece que não se arrepia muito com a corcova do nariz de meu
primo; confessemos, minha amiga, todas nós gostamos de ser conquistadoras.
— Pois confessamos... isso é verdade.
— Pela minha parte não diga nada, assobiou d. Gabriela mirando-se no
espelho; mas enfim… eu não sei se sou bonita, mas, onde quer que eu esteja, vejome
sempre cercada de adoradores: hoje, por exemplo, tenho-me visto doida...
perseguiram-me constantemente seis... era impossível ter tempo de mangar com
todos a preceito.
— Mas, d. Gabriela, onde está o seu talento?...
— Pois bem, que se ponha outra no meu lugar.
— Alguns homens zombariam de doze de nós outras a um tempo... Houve já
um que não teve vergonha de escrever isto em um papel:
Num dia, numa hora,
No mesmo lugar
Eu gosto de amar
Quarenta,
Cinqüenta,
Sessenta:
Se mil forem belas,
Amo a todas elas.
— Que pateta!
— Que tolo!...
— Que vaidoso!
— Essa opinião segue também o Augusto!
— Oh!... e esse paspalhão!...
Ei-las comigo... murmurou entre os dentes o nosso estudante, estendendo o
pescoço a modo de cágado.
— Como lhe fica mal aquela cabeleira!... Assemelha-se muito a uma preguiça.
— Tem as pernas tortas.
— Eu creio que ele é corcunda.
— Não aquilo é magreza.
— Forte impertinente! Falando, é um Lucas...
— Há de ser interessante dançando!
— Vamos nós tomá-lo à nossa conta?
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— Vamos; pensemos nos meios de zombar dele cruelmente... Pois
pensemos...
Mas elas não tiveram tempo de pensar, porque, nesse momento, ouviu-se um
grito de dor, ao qual seguiu-se viva agitação no interior daquela casa, onde ainda há
pouco só se respirava prazer e delícias. As quatro moças levantaram-se espantadas.
— Pareceu-me a voz de minha prima Carolina, exclamou d. Joaninha.
— Coitada! Que lhe sucederia?...
— Vamos ver.
As quatro moças correram precipitadamente para fora do quarto.
Augusto, que não estava menos assustado, saiu do seu esconderijo, vestiu-se
apressadamente e ia, por sua vez, deixar aquele lugar, em que se vira em tantos
apuros, quando deu com os olhos na carta do sr. Joãozinho, que, com a pressa e
agitação, havia d. Gabriela deixado cair.
O estudante apanhou e guardou aquele interessante papel, e com prontidão e
cuidado pôde, sem ser visto, escapar-se do gabinete.
Um instante depois foi cuidadoso procurar saber a causa do rumor que ouvira.
O grito de dor tinha sido, com efeito, soltado por d. Carolina.
CAPÍTULO XIII
Os quatro em conferência
Ninguém se arreceie pela nossa travessa, O grito de dor foi, na verdade, seu; mas,
se alguém corre perigo, não é certamente ela. O caso é simples.
Morava com a sra. d. Ana uma pobre mulher, por nome Paula muito estimada
de todos, porque o era da despotazinha daquela ilha, de d. Carolina, a quem tinha
servido de ama. Os desvelos e incômodos que tivera na criação da menina lhe eram
sobejamente pagos pela gratidão e ternura da moça.
Ora, todos se tinham ido para o jardim logo depois do jantar mas o nosso
amigo Keblerc achara justo e prudente deixar-se ficar fazendo honra à meia dúzia de
lindas garrafas das quais se achava ternamente enamorado: contudo ele pensava
que seria mais feliz se deparasse com um companheiro que o ajudasse a requestar
aquelas belezas: era um amante sem zelos. Por infelicidade de Paula, o alemão a
lobrigou a entrar num quarto. Chamou-a, obrigou-a a sentar-se junto de si, mostrou
por ela o mais vivo interesse e depois convidou-a a beber à saúde de seu pai e sua
mãe e sua família.
Não havia remédio senão corresponder a brindes tão obrigativos. Depois não
houve ninguém no mundo a quem Keblerc não julgasse dever com a sua meiga
língua dirigir uma saúde, e, como já estivesse um pouco impertinente, forçava Paula
a virar copos cheios. Passado algum tempo, e muito naturalmente, Paula se foi
tornando alegrezinha e por sua vez desafiava Keblerc a fazer novos brindes: em
resultado, as suas garrafas foram-se. Paula deixou-se ficar sentada risonha e
imóvel, junto à mesa, enquanto o alemão, rubicundo e reluzente se dirigiu para a
sala.
Quando daí a pouco a ama de d. Carolina quis levantar-se, pareceu-lhe que
estava uma nuvem diante dos olhos, que os copos dançavam, que havia duas
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mesas, duas salas e tudo em dobro; ergueu-se e sentiu que as paredes andavamlhe
à roda, que o assoalho abaixava-se e levantava-se debaixo dos seus pés;
depois... não pôde dar mais que dois passos, cambaleou e, acreditando sentar-se
numa cadeira, caiu com estrondo contra uma porta. Logo confusão e movimento...
Ninguém ousou pensar que Paula, sempre sóbria e inimiga de espíritos, se tivesse
deixado embriagar, e, por isso, correram alguns escravos para o jardim, gritando que
Paula acabava de ter um ataque.
A primeira pessoa que entrou em casa foi d. Carolina que, vendo a infeliz
mulher estirada no assoalho, caiu sobre ela, exclamando com força:
— Oh, minha mãe!... Foi este o seu grito de dor.
Momentos depois, Paula se achava deitada numa boa cama e rodeada por
toda a família; porém havia algazarra tal, que mal se entendia uma palavra.
— Isto foi o jantar que lhe deu na fraqueza, gritou uma avelhantada matrona,
que se supunha com muito jeito para medicina; é fraqueza complicada com o tempo
frio… não vale nada... venha um copo de vinho!
E dizendo isto, foi despejando meia garrafa de vinho na boca da pobre Paula
que, por mais lépida e risonha que fosse engolindo a largos tragos, não pôde livrarse
de que a interessante Esculápia lhe entornasse boa porção pelos vestidos.
— São maleitas! exclamava d. Violante, com toda a força de seus pulmões...
São maleitas! ... Quem lhe olha para o nariz diz logo que são maleitas! Eu já vi curarse
uma mulher, que teve o mesmo mal, com cauda de cobra moída, torrada e depois
desfeita num copo d’água tirada do pote velho com um coco novo e com a mão
esquerda, pelo lado da parede. E fazer isto já.
— São lombrigas! gritava uma terceira.
— É ataque de estupor! bradava a quarta senhora.
— É espírito maligno! acudiu outra, que foi mais ouvida que as primeiras... E
espírito maligno que lhe entrou no corpo... Venha quanto antes um padre com água
benta e seu breviário.
— Ora, para que estão com tal azáfama?... disse uma senhora que acabava
de entrar no quarto; não se vê logo que isto não passa de uma mona, que a boa da
Paula tomou? Olhem; até tem o vestido cheio de vinho.
— Mona, não senhora! acudiu d. Carolina; a minha Paula nunca teve tão feio
costume, e, se está molhada com vinho, a culpa é desta senhora, que há pouco lhe
despejou meia garrafa por cima. Oh! é bem cruel que, mesmo vendo-se a minha dor,
digam semelhantes coisas!
No meio de toda esta balbúrdia era de ver-se o zelo e a solicitude da menina
travessa! ... Observava-se aquela Moreninha de quinze anos, que parecera somente
capaz de brincar e ser estouvada, correndo de uma para outra parte, prevenindo
tudo e aparecendo sempre onde se precisava apressar um serviço ou acudir a um
reclamo. Só cuidava de si quando devia enxugar as lágrimas.
Junto do leito apareceram os quatro estudantes.
Curto foi o exame. O rosto e o bafo da doente bastaram para denunciar-lhes
com evidência a natureza da moléstia.
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— Isto não vale a pena, disse Filipe em tom baixo a seus colegas; é uma
mona de primeira ordem.
— Está claro, vamos sossegar estas senhoras.
— Não, tornou Filipe, sempre em voz baixa; aturdidas pelo caso repentino e
preocupadas pela sobriedade desta mulher, nenhuma delas quer ver o que está
diante de seus olhos, nem sentir o cheiro que lhes está entrando pelo nariz; minha
irmã ficaria inconsolável, brigaria conosco e não nos acreditaria, se lhe disséssemos
que sua ama se embebedou; e portanto, podemos aproveitar as circunstâncias para
zombar de todas elas e divertir-nos fazendo uma conferência.
— Oh, diabo! ... isso é catecismo dos charlatões!
— Ora, não sejas tolo… não pareces estudante; devemos lançar mão de tudo
o que nos possa dar prazer e não ofenda os outros.
— Mas que iremos dizer nesta conferência, senão que ela está espirituosa
demais? perguntou Augusto.
— Diremos tudo o que nos vier à cabeça, ficando entendido que as honras
pertencerão ao que maior número de asneiras produzir; o caso é que nos não
entendam, ainda que também nos não entendamos.
— Há de ser bonito, tornou Augusto, à vista de tanta gente, que por força
conhecerá esta patacoada.
— Qual conhecer?... Aqui ninguém nos entende, tornou Filipe, que, voltandose
para os circunstantes, disse com voz teatralmente solene:
— Meus senhores, rogamos breves momentos de atenção; queremos
conferenciar.
Movimento de curiosidade.
Seguiu-se novo exame da enferma, no qual os quatro estudantes fingiram
observar o pulso, a língua e os olhos da doente; auscultaram e percutiram-lhe o
peito e fizeram todas as outras pesquisas do costume.
Depois eles se colocaram em um dos ângulos do quarto; Filipe teve a palavra.
Profundo silêncio.
— Acabastes, senhores, de fazer-me observar uma enfermidade que não nos
deixa de pedir sérias atenções e sobre a qual eu vou respeitosamente submeter o
meu juízo. Poucas palavras bastam. A moléstia de que nos vamos ocupar não é
nova para nós; creio mesmo, senhores, que qualquer de vós já a tem padecido
muitas vezes...
— Está enganado.
— Não respondo aos apartes. Eu diagnostico uma baquites. Concebe-se
perfeitamente que as etesias desenvolvidas pela decomposição dos éteres
espasmódicos e engendrados no alambique intestinal, uma vez que a compressão
do diafragma lhes causa vibrações simpáticas que os façam caminhar pelo canal
colédoco até o periostio dos pulmões...
— C’est trop fort!...
— Daí, passando à garganta, perturbam a quimificação da hematose, que por
isso se tornando em linfa hemostática, vá de um jato causar um tricocéfalo no
esfenóide, podendo mesmo produzir uma proctorragia nas glândulas de Meyer, até
que, penetrando pelas câmaras ópticas, no esfíncter do cerebelo, causa um
retrocesso prostático, como pensam os modernos autores, e promovem uma
rebelião entre os indivíduos cerebrais: por conseqüência isto é nervoso.
— Muito bem concluído.
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— O tratamento que proponho é concludente: algumas gotas de éter sulfúrico
numa taça do líquido fontâneo açucarado; o cozimento dos frutos do coffea arábica
torrados, ou mesmo o thea sinensis; e quando isto não baste, o que julgo
impossível, as nossas lancetas estão bem afiadas e duas libras de sangue de menos
não farão falta à doente: disse.
— Como ele fala bem, murmurou uma das moças.
Fabrício tomou a palavra.
— Sangue! Sempre sangue! Eis a medicina romântica do insignificante
Broussais! Mas eu detesto tanto a medicina sanguinária, como a estercorária,
herbária, sudorária e todas as que acabam em ária. Desde Hipócrates, que foi o
maior charlatão do seu tempo, até os nossos dias, tem triunfado a ignorância, mas
já, enfim, brilhou o sol da sabedoria... Hahnemann... Ah! Quebrai vossas lancetas,
senhores; para curar o mundo inteiro basta-vos uma botica homeopática com o
Amazonas ao pé!... Queimai todos os vossos livros, porque a verdade está só,
exclusivamente, no alcorão de nosso Mafoma, no Organon do grande homem! Ah!
Se depois do divino sistema morre por acaso alguém, é por não se ter ainda
descoberto o meio de dividir cm um milhão de partes cada simples átomo da
matéria! Senhores, eu concordo com o diagnóstico de meu colega, mas devo
combater o tratamento por ele oferecido. Uma taça de líquido fontâneo açucarado, e
acidulado com algumas gotas de éter sulfúrico, é, em minha opinião, capaz de
envenenar a todos os habitantes da China! O mesmo direi do cozimento do coffea
arábica...
— Mas por que não têm morrido envenenados os que por vezes os têm
tomado?...
— Eis aí a consideração que os leva ao erro! ... Senhor meu colega, é porque
a ação maléfica desses medicamentos não se faz sentir logo… às vezes só aparece
depois de cem, duzentos e mais anos: eis a grande verdade! ... Mas eu tenho
observações de moléstias de natureza da que nos ocupamos e que vão mostrar a
superioridade do meu sistema. Ouçam-me. Uma mulher padecia este mesmo mal, já
tinha sofrido trinta sangrias; haviam-lhe mandado aplicar mais de trezentas bichas,
purgantes sem conta, vomitórios às dúzias e tisanas aos milheiros; quis o seu bom
gênio que ela recorresse a um homeopata, que, com três doses, das quais cada
uma continha apenas a trimilionésima parte de um quarto de grão de nihilitas
nihilitatis, a pôs completamente restabelecida; e quem quiser pode ir vê-ia na rua... E
certo que não me lembro agora onde, mas posso afirmar que ela mora em uma casa
e que hoje está nédia, gorda, com cores e até remoçou e ficou mais bonita... Outro
fato.
— Basta! Basta!
— Pois bem, basta; e propondo a aplicação das nihilitas nihilitatis na dose da
trimilionésima parte de um grão, dou por terminado o meu discurso.
— O sr. Leopoldo tem a palavra.
— Senhores, eu devo confessar que restam-me muitas dúvidas a respeito do
diagnóstico e, portanto, julgo útil recorrermos ao magnetismo animal, para vermos se
a enferma, levada ao sonambulismo, nos aclara sua enfermidade. Além disto, eu
tenho fé de que não há moléstia alguma que possa resistir à maravilhosa aplicação
dos passes, que tanto abismaram Paracelso e Kisker. Ainda mais: se o diagnóstico
do colega que falou em primeiro lugar é exato, dobrada razão acho para sustentar o
meu parecer; porque, enfim, se simula similibus curantur, necessariamente o
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magnetismo tem de curar a baquites. Voto, pois, para que comecemos já a aplicarlhe
os passes.
Seguiu-se o discurso de Augusto que, por longo demais, parece prudente
omitir. Em resumo basta dizer que ele combateu as raras teorias de Filipe, mas
concordou com o tratamento por ele proposto e falou com arte tal, que d. Carolina o
escolheu para assistência de sua ama.
Augusto determinou as aplicações equivalentes ao caso, mas, não tendo
entrado no número delas a essencial lembrança de um escalda-pés, caiu a tropa das
mezinheiras sobre o desgraçado estudante, que se viu quase doido com a balbúrdia
de novo levantada no quarto.
— Menos ruído, minhas senhoras, dizia o rapaz; isto pode ser fatal à doente!
— Ora... eu nunca vi negar-se um escalda-pés!
— Ainda em cima de não lhe mandar aplicar uma ajuda, esquece-se também
de escalda-pés!
— Se não lhe derem um escalda-pés, eu não respondo pelo resultado!
— Olhem como a doente está risonha, só por ouvir falar em escalda-pés!
— Aquilo é pressentimento!
— Sr. doutor, um escalda-pés! .
— Pois bem, minha senhoras, disse Augusto para se ver livre delas, dêem-lhe
o preconizado escalda-pés!
E fugindo logo do quarto, foi pensando consigo mesmo que as coisas que
mais contrariam o médico são: primeiro, a saúde alheia, segundo, um mau
enfermeiro e, por último, as senhoras mezinheiras.
CAPÍTULO XIV
Pedilúvio sentimental
Ria-se, jogava-se, brincava-se: todos se haviam já esquecido da pobre Paula. Na
verdade também que, por ter a ama de d. Carolina tomado seu copo de vinho a
mais, não era justo que tantas moças e moços, em boa disposição de brincar, e
umas poucas velhas determinadas a maçar meio mundo, ficassem a noite inteira
pensando na carraspana da rapariga. E, além disso, quatro semidoutores já haviam
pronunciado favorável prognóstico; como, pois, se arrojaria Paula a morrer contra a
ordem expressa dos quatro hipocratíssimos senhores?...
Era por isso que todos brincavam alegremente, menos o sr. Keblerc que,
diante de meia dúzia de garrafas vazias, roncava prodigiosamente: grande alemão
para roncar!... Era uma escala inteira que ele solfejava com bemóis, bequadros e
sustenidos!
Dir-se-ia que entoava um hino… a Baco.
Os rapazes estavam nos seus gerais; a princípio, como era seu velho
costume haviam festejado, cumprimentado e aplaudido as senhoras idosas que se
achavam na sala, principalmente aquelas que tinham trazido consigo moças; mas,
passada meia hora, adeus etiquetas e cerimônias!... Estabeleceu-se um cordão
sanitário entre a velhice e a mocidade; a sra. d. Ana achou a ocasião oportuna para
ir dar ordens para o chá; d. Violante ocupou-se em desenvolver a um velho roceiro
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os meios mais adequados para se preencher o déficit provável do Brasil para o ano
financeiro de 44 a 45, sem aumentar os direitos de importação, nem criar impostos,
abolindo-se, pelo contrário, a décima urbana. Já se vê que d. Violante tinha casas na
cidade. Restavam quatro senhoras, que julgaram a propósito jogar o embarque, que
na verdade as divertia muito, com o episódio do ás galar o sete; havia, enfim, outra
mesa em que alguns senhores, viúvos, casados e velhos pais perdiam ou ganhavam
dinheiro no écarté, jogo muito bonito e muito variado, que nos vieram ensinar os
senhores franceses, grandes inventores, sem dúvida!...
A rapaziada empregava melhor o seu tempo: também jogava, mas na sua
roda não havia nem mesa, nem cartas, nem dados. O seu jogo tinha um diretor que,
exceção de regra entre os mais, não podia ter menos de cinqüenta anos: era um
homem de estatura muito menos que a ordinária, tinha o rosto muito vermelho,
cabelos e barbas ruivos, gordo, de pernas arqueadas, ajuntando ao ridículo de sua
figura muito espírito; não estava bem senão entre rapazes. por felicidade deles
sempre se encontra desses. Tal o diretor da roda dos moços. O sr. Batista (este o
seu nome) era fértil em jogos; quando um aborrecia, vinha logo outro melhor. Já se
havia jogado o do toucador e o do enfermo. O terceiro agradou tanto, que se repetia
pela duodécima vez, com aplauso geral, principalmente das moças: era, sem mais
nem menos, o jogo da palhinha.
Caso célebre!... Já se viu que coincidência!... Ora expliquem. se são
capazes... Tem-se jogado a palhinha doze vezes e em todas elas tem a sorte feito
com que Filipe abrace d. Clementina e Fabrício d. Joaninha! E sempre, no fim de
cada jogo, qualquer das duas recua um passo, como se pouca vontade houvesse
nelas de dar o abraço, e fazendo-se coradinha, exclama:
— Quantos abraços!... Pois outra vez?...
— Eu já não dei ainda agora?... Ora isto!...
Entre os rapazes, porém, há um que não está absolutamente satisfeito: é
Augusto. Será porque no tal jogo da palhinha tem por vezes ficado viúvo?... Não! Ele
esperava isso como castigo da sua inconstância. A causa é outra: a alma da ilha
de... não está na sala! Augusto vê o jogo ir indo o seu caminho muito sem ordem;
não se rasgou ainda nenhum lenço, Filipe ainda não gritou com a dor de nenhum
beliscão, tudo se faz em regra e muito direito; a travessa, a inquieta, a buliçosa, a
tentaçãozinha não está aí: d. Carolina está ausente!...
Com efeito, Augusto, sem amar d. Carolina (ele assim o pensa) já faz dela
idéia absolutamente diversa da que fazia ainda há poucas horas: agora, segundo
ele, a interessante Moreninha é, na verdade, travessa, mas a cada travessura ajunta
tanta graça, que tudo se lhe perdoa. D. Carolina é o prazer em ebulição; se é
inquieta e buliçosa, está em sê-lo a sua maior graça: aquele rosto moreno, vivo e
delicado, aquele corpinho, ligeiro como a abelha, perderia metade do que vale se
não estivesse em contínua agitação. O beija-flor nunca se mostra tão belo como
quando se pendura na mais tênue flor e voeja nos ares; d. Carolina é como um
beija-flor completo.
Neste momento a sra. d. Ana entrou na sala, e depois dirigindo-se à grande
varanda da frente, sentou-se defronte do jardim. Batista acabava de dar fim ao jogo
da palhinha e começava novo: Augusto pediu que o dispensassem e foi ter com a
dona da casa.
— Não joga mais, sr. Augusto? disse ela.
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— Por ora não, minha senhora.
— Parece-me pouco alegre.
— Ao contrário… estou satisfeitíssimo.
— Oh! O seu rosto mostra não sentir o que dizem seus lábios; se aqui lhe
falta alguma coisa...
— Na verdade que aqui não está tudo, minha senhora.
— Então que falta?
— A sra. d. Carolina!
A boa senhora riu-se com satisfação. Seu orgulho de avó acabava de ser
incensado: era tocar-lhe no fraco.
— Gosta de minha neta, sr. Augusto?
— É a delicada borboleta deste jardim, respondeu ele, mostrando as flores.
— Vá buscá-la, disse a sra. d. Ana, apontando para dentro.
— Minha senhora, tanta honra!
— O amigo de meu neto deve merecer minha confiança: esta casa é dos
meus amigos e também dos dele. Carolina está, sem dúvida, no quarto de Paula; vá
vê-la e consiga arrancá-la de junto da sua ama.
A sra. d. Ana levou Augusto pela mão até o corredor e depois o empurrou
brandamente.
— Vá, disse ela, e receba isso como a mais franca prova de minha estima
para com o amigo de meu neto.
Augusto não esperou ouvir nova ordem: endireitou para o quarto de Paula,
com presteza e alegria. A porta estava cerrada; abriu sem ruído e parou no limiar.
Três pessoas havia nesse quarto: Paula, deitada e abatida sob o peso de sua
sofrível mona, era um objeto triste e talvez ridículo, se não padecesse; a segunda
era uma escrava que acabava de depor junto do leito a bacia em que Paula deveria
tomar o pedilúvio recomendado, objeto indiferente; a terceira era uma menina de
quinze anos, que desprezava a sala, em que borbulhava o prazer, pelo quarto em
que padecia uma pobre mulher; este objetivo era nobre...
D. Carolina e a escrava tinham as costas voltadas para a porta e por isso não
viam Augusto: Paula olhava, mas não via, ou antes não sabia o que via.
— Anda, Tomásia, dá-lhe o escalda-pés! disse d. Carolina.
Pela sua voz conhecia-se que tinha chorado.
A escrava abaixou-se e puxou os pés da pobre Paula; depois, pondo a mão
n’água, tirou-a de repente, e sacudindo-a:
— Está fervendo!… disse.
— Não está fervendo, respondeu a menina; deve ser bem quente, assim
disseram os moços.
A escrava tornou a pôr a mão e de novo retirou-a com presteza tal, que bateu
com os pés de Paula contra a bacia.
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— Estonteada!... Sai... Afasta-te, exclamou d. Carolina, arregaçando as
mangas de seu lindo vestido.
A escrava não obedeceu.
— Afasta-te daí, disse a menina em tom imperioso; e depois abaixou-se no
lugar da escrava, tomou os pés de sua ama, apertou-os contra o peito, chorando, e
começou a banhá-los.
Belo espetáculo era o ver essa menina delicada, curvada aos pés de uma
rude mulher, banhando-os com sossego, mergulhando suas mãos tão finas, tão
lindas, nessa mesma água que fizera lançar um grito de dor à escrava, quando aí
tocara de leve com as suas, tão grosseiras e calejadas!... Os últimos vislumbres das
impressões desagradáveis que ela causara a Augusto, de todo se esvaíram.
Acabou-se a criança estouvada… ficou em seu lugar o anjo de candura.
O sensível estudante viu as mãozinhas tão delicadas da piedosa menina já
roxas, e adivinhou que ela estava engolindo suas dores para não gemer; por isso
não pôde suster-se e, adiantando-se, disse:
— Perdoe, minha senhora.
— Oh!... O senhor estava aí?
E tenho testemunhado tudo!
A menina abaixou os olhos, confusa, e apontando para a doente, disse:
— Ela me deu de mamar.
— Mas nem por isso deve a senhora condenar suas lindas mãos a serem
queimadas, quando algum dos muitos escravos que a cercam poderia encarregar-se
do trabalho em que a vi tão piedosamente ocupada.
— Nenhum o fará com jeito.
— Experimente.
— Mas a quem encarregarei?
— A mim, minha senhora.
— O senhor falava de meus escravos...
— Pois nem para escravo eu presto?
— Senhor!
E nisto o estudante abaixou-se e tomou os pés de Paula, enquanto d.
Carolina, junto dele, o olhava com ternura.
Quando Augusto julgou que era tempo de terminar, a jovenzinha recebeu os
pés de sua ama e os envolveu na toalha que tinha nos braços.
— Agora deixemo-la descansar, disse o moço.
— Ela corre algum risco?…perguntou a menina.
— Afirmo que acordará amanhã perfeitamente boa.
— Obrigada!
— Quer dar-me a honra de acompanhá-la até à sala? disse Augusto,
oferecendo a sua mão direita à bela Moreninha.
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Ela não respondeu, mas olhou. com gratidão, aceitando o braço do mancebo,
deixou o quarto de Paula.
CAPÍTULO XV
Um dia em quatro palavras
Ao romper do dia de Sant’Ana estavam todos na ilha de... descansando nos braços
do sono: era isso muito natural, depois de uma noite como a da véspera, em que
tanto se havia brincado.
Com efeito, os jogos de prendas tinham-se prolongado excessivamente. A
chegada de d. Carolina e Augusto lhes deu ainda dobrada viveza e fogo. A bonita
Moreninha tornou-se mais travessa do que nunca; mil vezes barulhenta, perturbava
a ordem dos jogos de modo que era preciso começar de novo o que já estava no
fim; outras tantas rebelde, não cumpria certos castigos que lhe impunham, não deu
um só beijo e aquele que atreveu-se a abraçá-la, teve em recompensa um beliscão.
Finalmente, ouviu-se a voz de vamos dormir, e cada qual tratou de fazer por
consegui-lo.
O último que se deitou foi Augusto e ignora-se por que saiu de luz na mão, a
passear pelo jardim, quando todos se achavam acomodados; de volta do seu
passeio noturno, atirou-se entre Fabrício e Leopoldo e imediatamente adormeceu.
Os estudantes dormiram juntos.
São seis horas da manhã e todos dormem ainda a sono solto. Um autor pode
entrar em toda a parte e, pois... não, não, alto lá! No gabinete das moças... Não
senhor; no dos rapazes, ainda bem. A porta está aberta. Eis os quatro estudantes
estirados numa larga esteira; e como roncam!... Mas que faz o nosso Augusto? Rise,
murmura frases imperceptíveis, suspira... Então que é isso?... Dá um beijo em
Fabrício; acorda espantado e ainda por cima empurra cruelmente o mesmo a quem
acaba de beijar...
Oh, beleza! Oh, inexplicável poder de um rosto bonito que, não contente com
as zombarias que faz ao homem que vela, o ilude e ainda zomba dele dormindo!
Estava o nosso estudante sonhando que certa pessoa, de quem ele tivera até
aborrecimento e que agora começava com olhos travessos a fazer-lhe cócegas no
coração, vinha terna e amorosamente despertá-lo; que ele fingira continuar a dormir
e ela se sentara à sua cabeceira que, traquinas como sempre, em vez de chamá-lo
queria rir-se acordando-o pouco a pouco; que para isso aproximava seu rosto do
dele, e, assoprando-lhe os lábios, ria-se ao ver as contrações que produzia a
titilação causada pelo sopro; que ele, ao sentir tão perto dos seus os lindos lábios
dela, estava ardentemente desejoso de furtar-lhe um beijo, mas que temia vê-la fugir
ao menor movimento; que finalmente, não podendo mais resistir aos seus férvidos
beijos, assentara de, quando se aproximasse o belo rosto, ir de um salto colher o
voluptuoso beijo naquela boquinha de botão de rosa; que o rosto chegou à distância
de meio palmo e... (aqui parou o sonho e principiou a realidade) e ele deu um salto
mas, em lugar de pregar um beijo nos lábios de d. Carolina, foi com toda a força e
estouvamento bater com os beiços e nariz contra a testa de Fabrício; depois, como
se o colega tivesse culpa de tal infelicidade, deu-lhe dois empurrões dizendo:
— Sai-te daí, peste! ... Ora, quando eu sonhava com um anjo, acordo-me nos
braços de Satanás!...
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Corra-se, porém, um véu sobre quanto se passou até que se levantaram do
almoço. A sociedade se dividiu logo depois em grupos. Uns conversavam, outros
jogavam, dois velhos ferraram-se no gamão, as moças espalharam-se pelo jardim e
os quatros estudantes tiveram a péssima lembrança de formar uma mesa de
voltarete.
E apesar do poder da cachaça do jogo, de cada vez que qualquer deles dava
cartas, ficava na mesa um lugar vazio, e junto do arco da varanda, que olhava para
o jardim, colocava-se uma sentinela. Já se vê que o voltarete não podia seguir
marcha muito regular. Augusto, por exemplo, distraía-se com freqüência tal, que às
vezes passava com basto e espadilha, e era codilhado todas as mãos que jogava de
feito. A Moreninha já fazia travessuras muito especiais no coração do estudante; e
ele, que se acusava de haver sido injusto para com ela, agora a observava com
cuidado e prazer, para em compensação render-lhe toda justiça. D. Carolina brilhava
jardim e, mais que as outras, por graças e encantos que todos sentiam e que
ninguém poderia bem descrever; confessava-se que não era bela, mas jurava-se
que era encantadora; alguém queria que ela tivesse maiores olhos, porém não havia
quem resistisse à viveza de seus olhares; os que mais apaixonados fossem da doce
melancolia de certos semblantes em que a languidez dos olhos e a brandura de
custosos risos estão exprimindo amor ardente e sentimentalismo, concordariam por
força que no lindo rosto moreno de d. Carolina nada iria melhor do que o prazer que
nele transluz e o sorriso engraçado e picante que de ordinário enfeita seus lábios;
além disto, sempre em brincadeira, guerreia com todos e em interessante
contradição consigo mesma, ela a um tempo solta um ai e uma risada, graceja,
fazendo-se de grave, fala, jurando não dizer palavra, apresenta-se escondendo-se,
sempre quer jamais querendo.
Nunca também se havia mostrado a Moreninha tão jovial e feiticeira, mas
para isso boas razões havia: esse era o dia dos anos da sua boa avó e a pobre
Paula, sua estimada amada ama, estava completamente restabelecida.
Eis uma deliciosa invasão!... Dez moças entram de repente na varanda e num
momento dado tudo se confunde e amotina; d. Carolina atira no meio da mesa do
voltarete uma mão cheia de flores, e enquanto Filipe faz tenção de dirigir-lhe um
discurso admoestador, ela furta-lhe a espadilha e voa para tornar a aparecer logo
depois. E impossível continuar assim: dá-se por acabado o jogo e a Moreninha, à
custa de um único sorriso, faz as pazes com o irmão.
— Parabéns, sra. d. Joaquina, disse Augusto; já triunfou de uma de suas
rivais!
— Como?... perguntou ela.
— Ora, que esta minha prima nunca entende as figuras do sr. Augusto,
acudiu d. Carolina; explique-se, sr. doutor.
Sua prima, minha senhora, a aurora e a rosa disputam sobre qual primará na
viveza da cor, e eu vejo que ela tem presa no cabelo uma das duas rivais.
Eu o encarrego com prazer da guarda fiel desta minha competidora... seja o
seu carcereiro! disse d. Quinquina, querendo tirar uma linda rosa do cabelo, para
oferecê-la a Augusto.
— Oh! Minha senhora! Seria um cruel castigo para ela, que se mostra tão
vaidosa.
— Pois rejeita?...
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— Certo que não; aceito, mas rogo um outro obséquio.
— Qual?
— Que por ora lhe conceda seus cabelos por homenagem. Pois bem, será
satisfeito; eu guardarei a sua rosa.
— Mas cuidado, não haja quem liberte a bela cativa! disse Leopoldo.
— Protesto que a hei de furtar, acrescentou d. Carolina.
— Desafio-lhe a isso! respondeu a prima.
Então começou uma luta de ardis e cuidados entre a Moreninha e d.
Quinquina. Aquela já tinha debalde esgotado quantos estratagemas lhe pôde sugerir
seu fértil espírito, e enfim, fingindo-se fatigada, veio sossegadamente conversar
junto de d. Quinquina, que, não menos viva, conservava-se na defensiva.
Depois de uma meia hora de hábil afetação, a menina travessa, com um
rápido movimento, fez cair o leque de sua adversária; Leopoldo abaixou-se para
levantá-lo e d. Quinquina, um instante despercebida, curvou-se também e soltou
logo um grito, sentindo a mão da prima sobre a rosa: com a sua foi acudir a esta;
houve um conflito entre duas finas mãozinhas, que mutuamente se beliscaram, e em
resultado desfolhou-se completamente a rosa.
Morreu a bela cativa! ... Morreu a pobre cativa! ... gritaram as moças.
— D. Carolina está criminosa! disse d. Clementina.
— Vai ao júri, minha senhora!
É verdade, vamos levá-la ao júri.
A idéia foi recebida com aplauso geral: só Filipe se opôs.
Não, não, disse ele. Carolina é muito rebelde, se fosse condenada, não
cumpriria a sentença.
— Oh! Maninho! Não diga isso. Você jura obedecer?...
— Eu juro por você.
Tanto pior: era mais um motivo para se tornar perjura. Pois bem, dou a minha
palavra, não é suficiente?
— Basta! Basta!
Organizou-se o júri; Fabrício foi encarregado da presidência, um outro moço
serviu de escrivão, e cinco moças saíram por sorte para juradas; d. Clementina terá
de ser a relatora da sentença. A Augusto declararam suspeito na causa. Filipe foi
escolhido para advogado da ré e Leopoldo da autora.
A sessão começou.
Longo fora enumerar tudo o que se passou em duas horas muito agradáveis e
por isso muito breves também. Toda a companhia veio tomar parte naquele
divertimento improvisado e até, quem o diria?! os dois velhos deixaram o tabuleiro
de gamão. Resuma-se alguma coisa.
As testemunhas foram d. Gabriela e uma outra, que deram provas de
bastante espírito: o interrogatório de d. Carolina fez rir a quantos o ouviram. O
debate dos advogados esteve curioso.
Leopoldo acusou a ré, demonstrando que tinha havido a circunstância
agravante da premeditação e que o crime se tornava ainda mais feio, por ser
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causado pelo ciúme; procurou provar que d. Carolina, cônscia de seus encantos e
beleza, queria ser senhora absoluta de todos os corações e até de todos os seres;
que ela se enchera de zelos supondo, com razão, que Augusto desse subido valor à
rosa, por lhe ser dada por uma moça bela como era a autora e, enfim, que o crime
da ré era excessivo, que já na tarde antecedente jurara a perda daquela flor, por
desconfiar que o zéfiro brincava mais com ela do que com seus olhos.
Filipe não se deixou ficar atrás. Argumentou dizendo que era impossível
decidir que mão tinha dado a morte à bela cativa; que não houvera premeditação,
porque a ré não quisera matar, mas sim Libertar; que, se havia crime, só o cometera
a autora, por prender uma inocente flor; e que, por último, ainda quando fosse a ré
que desfolhara a rosa e mesmo dando-se o propósito de o fazer, dever-se-ia atribuir
tal ação à piedade, pois que d. Quinquina a estava matando pouco a pouco com o
veneno da inveja, colocando-a tão perto de suas faces, que tanto a venciam em
rubor e viço.
As juradas recolheram-se ao boilette e cinco minutos depois voltaram com a
sentença, que foi lida por d. Clementina.
O júri declarou d. Carolina criminosa e a condenou a indenizar o dono da rosa
com um beijo.
— Para fazer tal, disse a ré, não carecia eu da sentença do júri: tome um
beijo, minha prima...
— Não é a mim que o deve dar, respondeu a autora; o dono da rosa é o sr.
Augusto.
De rosa fez-se o rosto de d. Carolina.
— O beijo! O beijo! gritaram as juradas. Você deu sua palavra!
Ela hesitou alguns momentos... depois, aproximou-se de Augusto e, com seu
sorriso feiticeiro e irresistível nos lábios, disse...
— O senhor me perdoa?...
— Não! Não! Não! clamaram de todos os lados.
Mas a menina parecia contar com o poder de seus lábios, porque, sorrindo-se
ainda do mesmo modo, tornou a perguntar com meiguice e ternura:
— Me perdoa?...
— Não! Não!
— Porém, como resistir ao seu sorriso?... Como dizer que não a quem pede
como ela?…exclamou Augusto, entusiasmado.
D. Carolina estava, pois, perdoada.
— Agradecida! disse ela com vivo acento de gratidão e estendeu sua destra
para Augusto que, não podendo ceder tudo com tão criminoso desinteresse, tomou
entre as suas aquela mãozinha de querubim e fez estalar sobre ela o beijo mais
gostoso que tinham até então dado seus lábios.
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A manhã deste dia foi assim passada e à tarde voltou-se aos preparativos do
sarau.
CAPÍTULO XVI
O sarau
‘Um sarau é o bocado mais delicioso que temos, de telhado abaixo. Em um sarau
todo o mundo tem que fazer. O diplomata ajusta, com um copo de champanha na
mão, os mais intrincados negócios; todos murmuram e não há quem deixe de ser
murmurado. O velho lembra-se dos minuetes e das cantigas do seu tempo, e o moço
goza todos os regalos da sua época; as moças são no sarau como as estrelas no
céu; estão no seu elemento; aqui uma, cantando suave cavatina, eleva-se vaidosa
nas asas dos aplausos, por entre os quais surde, às vezes, um bravíssimo
inopinado, que solta de lá da sala do jogo o parceiro que acaba de ganhar sua
partida do écarté mesmo na ocasião em que a moça se espicha completamente,
desafinando um sustenido; daí a pouco vão outras pelo braço de seus pares, se
deslizando pela sala e marchando em seu passeio, mais a compasso que qualquer
de nossos batalhões da Guarda Nacional, ao mesmo tempo que conversam sempre
sobre objetos inocentes que movem olhaduras e risadinhas apreciáveis. Outras
criticam de uma gorducha vovó, que ensaca nos bolsos meia bandeja de doces que
vieram para o chá, e que ela leva aos pequenos que, diz, lhe ficaram em casa. Ali
vê-se um ataviado dândi que dirige mil finezas a uma senhora idosa, tendo os olhos
pregados na sinhá, que senta-se ao lado. Finalmente, no sarau não é essencial ter
cabeça nem boca, porque, para alguns e regra, durante ele, pensar pelos pés e falar
pelos olhos.
E o mais é que nós estamos num sarau: inúmeros batéis conduziram da corte
para a ilha de... senhoras e senhores, recomendáveis por caráter e qualidade:
alegre, numerosa e escolhida sociedade enche a grande casa, que brilha e mostra
em toda a parte borbulhar o prazer e o bom gosto.
Entre todas essas elegantes e agradáveis moças, que com aturado empenho
se esforçam por ver qual delas vence em graças, encantos e donaires, certo que
sobrepuja a travessa Moreninha, princesa daquela festa.
Hábil menina é ela! Nunca seu amor-próprio produziu com tanto estudo seu
toucador e, contudo, dir-se-ia que o gênio da simplicidade a penteara e vestira.
Enquanto as outras moças haviam esgotado a paciência de seus cabeleireiros,
posto em tributo toda a habilidade das modistas da rua do Ouvidor e coberto seus
colos com as mais ricas e preciosas jóias, d. Carolina dividiu seus cabelos em duas
tranças, que deixou cair pela costa; não quis adornar o pescoço com seu adereço de
brilhantes nem com seu lindo colar de esmeraldas; vestiu um finíssimo, mas simples
vestido de garça, que até pecava contra a moda reinante, por não ser sobejamente
comprido. Vindo assim aparecer na sala, arrebatou todas as vistas e atenções.
Porém, se um atento observador a estudasse, descobriria que ela adrede se
mostrava assim, para ostentar as longas e ondeadas madeixas negras, em belo
contraste com a alvura de seu vestido branco, e para mostrar, todo nu, o elevado
colo de alabastro, que tanto a aformoseava, e que seu pecado contra a moda
reinante não era senão um meio sutil de que se aproveitara para deixar ver o
pezinho mais bem feito e mais pequeno que se pode imaginar.
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73
Sobre ela estão conversando agora mesmo Fabrício e Leopoldo; terminaram sem
dúvida a sua prática; não importa. Vamos ouvi-los.
— Está na verdade encantadora!... repetiu pela quarta vez aquele.
— Danças com ela? perguntou Leopoldo.
— Não, já estava engajada para doze quadrilhas.
— Oh! Lá vai ter com ela o nosso Augusto. Vamos apreciá-lo.
Os dois estudantes aproximaram-se de Augusto, que acabava de rogar à
linda Moreninha a mercê da terceira quadrilha.
— Leva de tábua, disse Fabrício ao ouvido de Leopoldo; é a mesma que eu
lhe havia pedido.
Mas a jovenzinha pensou um momento antes de responder ao pretendente;
olhou para Fabrício e com particular mover de lábios pareceu mostrar-se
descontente; depois riu-se e respondeu a Augusto:
— Com muito prazer.
— Mas minha senhora, disse Fabrício, vermelho de despeito e aturdido com
um beliscão que lhe dera Leopoldo; há cinco minutos que já estava engajada até á
duodécima.
— E verdade, tornou d. Carolina; e agora só acabo de ratificar uma promessa;
o sr. Augusto poderá dizer se ontem pediu-me ou não a terceira contradança.
— Juro... balbuciou Augusto.
— Basta! acudiu Fabrício interrompendo-o; é inútil qualquer juramento de
homem, depois das palavras de uma senhora.
Fabrício e Leopoldo retiraram-se; d. Carolina, que tinha iludido o primeiro,
vendo brilhar o prazer na face de Augusto, e temendo que daquela ocorrência
tirasse este alguma explicação lisonjeira demais, quis aplicar um corretivo e,
erguendo-se, tomou o braço de Augusto. Aproveitando o passeio, disse:
— Agradeço-lhe a condescendência com que ia tomar parte na minha
mentira... foi necessário que eu praticasse assim; quero antes dançar com qualquer,
do que com aquele seu amigo.
— Ofendeu-a, minha senhora?
— Certo que não, mas diz-me coisas que não quero saber.
— Meu Deus! É um crime que também eu tenho estado bem perto de
cometer!
— Pois bem, foi esta a única razão.
— Mas eu temo perder a minha contradança... alguns momentos mais e serei
réu como Fabrício.
— A culpa será de seus lábios.
— Antes dos seus olhos, minha senhora.
— Cuidado, sr. Augusto! Lembre-se da contradança!
— Pois será preciso dizer que a detesto?...
— Basta não dizer que me ama.
— Ë não dizer o que sinto; eu não sei mentir. Ainda há pouco ia jurar falso...
— Nas palavras de um anjo ou de uma...
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— Acabe.
— Tentaçãozinha.
— Perdeu a terceira contradança.
— Misericórdia! Eu não falei em amor!...
Neste momento a orquestra assinalou o começo do sarau. E preciso antecipar
que nos não vamos dar ao trabalho de descrever este; é um sarau como todos os
outros, basta dizer o seguinte:
Os velhos lembraram-se do passado, os moços aproveitaram o presente,
ninguém cuidou do futuro. Os solteiros fizeram por lembrar-se do casamento, os
casados trabalharam por esquecer-se dele. Os homens jogaram, falaram em política
e requestaram as moças; as senhoras ouviram finezas, trataram de modas e
criticaram desapiedadamente umas às outras. As filhas deram carreirinhas ao som
da música, as mães, já idosas, receberam cumprimentos por amor daquelas e as
avós, por não terem que fazer nem que ouvir, levaram todo o tempo a endireitar as
toucas e a comer doces. Tudo esteve debaixo destas regras gerais; só basta dar
conta das seguintes particularidades:
D. Carolina sempre dançou a terceira contradança com Augusto, mas, para
isso, foi preciso que a sra. d. Ana empenhasse todo o seu valimento; a tirana
princesinha da festa esteve realmente desapiedada. e não quis passear com o
estudante.
. A interessante d. Violante fez o diabo a quatro: tomou doze sorvetes, comeu
pão-de-ló como nenhuma, tocou em todos os doces, obrigou alguns moços a tomála
por par, e até dançou uma valsa corrupio.
Augusto apaixonou-se por seis senhoras com quem dançou; o rapaz é
incorrigível. E assim tudo mais.
Agora são quatro horas da manhã; o sarau está terminado, os convidados vão
retirando-se e nós, entrando no toilette, vamos ouvir quatro belas conhecidas
nossas, que conversam com ardor e fogo.
— É possível?!… exclamou d. Quinquina, dirigindo-se à sua mana; pois é
verdade que esse sr. Augusto lhe fez uma declaração de amor?...
— Como quer que lhe diga, maninha!... Asseverou que meus olhos pretos
davam à sua alma mais luz do que aos seus olhos todos os candelabros da sala
nesta noite, e mesmo do que o sol nos dias mais brilhantes… palavras dele.
— Que insolente!… tornou d. Quinquina, ele mesmo, que me jurou ser a mais
bela a seus olhos e a mais cara ao seu coração, porque meus cabelos eram fios de
ouro e a cor das minhas faces o rubor de um belo amanhecer!... Palavras dele.
— Que atrevido!… bradou d. Clementina; o próprio que afirmou ser-lhe
impossível viver sem alentar-se com a esperança de possuir-me, porque eu sabia
ferir corações com minhas vistas e curar profundas mágoas com meus sorrisos!...
Palavras dele.
— Oh! Que moço abominável, disse, por sua vez, d. Gabriela; e ousou dizerme
que me amava com tão subida paixão que, se fora por mim amado e pudesse
desejar e pedir algum extremo, não me pediria como a outras, para beijar-me a face,
porque das virgens do céu somente se beijam os pés, e de joelho! Palavras dele.
— Mas isto é um insulto feito a todas nós!
— Como se estará ele rindo!
— Qual! Se ele está apaixonado... Apaixonado?... E por quem?...
— Por nós quatro... talvez por outras mais: ele pensa assim.
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— Que maldito brasileiro com alma de mouro!...
— E havemos de ficar assim?...
— Não, acudiu d. Joaninha: vamos ter com ele, desmascaremo-lo.
— Isto é nada para quem não tem vergonha!...
— Pois troquemos os papéis: finjamos que estávamos tratadas para desafiarlhe
os requebros, e... ridicularizemo-lo como for possível.
— Sim... obriguemo-lo a dizer qual de nós é a mais bonita; cada uma lhe
pedirá um anel de seus cabelos... uma prenda... uma lembrança... ponhamo-lo
doido.
— Muito bem pensado! Vamos!
— Deus nos livre!... A vista de tanta gente!...
— Então, quando e aonde?
— Uma idéia... seja a zombaria completa: escreva-se uma carta anônima,
convidando-o para estar ao romper do dia na gruta.
— Bravo! Então escreva...
— Eu, não, escreva você...
— Deus me defenda! ... escreva d. Gabriela, que tem boa letra...
— Então, nenhuma escreve? Pois tiremos por sorte.
A idéia foi recebida com aprovação e a sorte destinou para secretária d.
Clementina, que tirando de seu álbum um lápis uma tira de papel, escreveu sem
hesitar:
"Senhor: — Uma jovem que vos ama e que de vós escutou palavras de
ternura tem um segredo a confiar-vos: ao ralar da aurora a encontrareis no banco de
relva da gruta; sede circunspecto e vereis a quem, por meia hora ainda, quer ser
apenas — Uma incógnita".
— Bem, disse d. Quinquina, eu me encarrego de fazer-lhe receber a carta.
Saiamos.
As quatro moças iam sair, quando um suspiro as suspendeu; mais alguém
estava no toilette. D. Joaninha, medrosa de que uma testemunha tivesse
presenciado a cena que se acabava de passar, voltou-se para o fundo do gabinete e
o susto logo se dissipou.
— Vejam como ela dorme! ... disse.
Com efeito, recostada em uma cadeira de braços, d. Carolina estava
profundamente adormecida.
A Moreninha se mostrava, na verdade, encantadora no mole descuido de seu
dormir, e à mercê de um doce resfolegar, os desejos se agitavam entre seus seios;
seu pezinho bem à mostra, suas tranças dobradas no colo, seus lábios entreabertos
e como por costume amoldados àquele sorrir cheio de malícia e de encanto que já
lhe conhecemos e, finalmente, suas pálpebras cerradas e coroadas por bastos e
negros supercílios, a tornavam mais feiticeira que nunca.
D. Clementina não pôde resistir a tantas graças: correu para ela… dois rostos
angélicos se aproximaram... quatro lábios cor-de-rosa se tocaram e este toque fez
acordar d. Carolina.
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Um beijo tinha despertado um anjo, se é que o anjo realmente dormia.
CAPÍTULO XVII
Foram buscar lã e saíram tosquiadas
Se houve alguém que quisesse servir a d. Quinquina, ou se foi ela mesma quem pôs
a carta anônima no bolso da jaqueta de Augusto, é coisa que pouco interesse dá; o
certo é que o estudante, indo tirar o lenço para assoar-se, achou o interessante
escritinho; então correu logo para um lugar solitário, e só depois de devorar o convite
sem assinatura, foi que lembrou-se que ainda não se havia assoado e que o pingo
estava cai não cai na ponta do nariz; enfim, ainda com o lenço acudiu a tempo, e
depois entendeu que, para melhor decidir o que lhe cumpria fazer naquela
conjuntura, deveria avivar o cérebro, sorvendo uma boa pitada de rapé; portanto,
lançou a mão ao segundo bolso de sua jaqueta, e eis que lhe sai com a caixa do
bom Princesa um outro escritinho como o primeiro.
— Bravo! exclamou o nosso estudante; temíveis mãozinhas seriam estas, se
dessem ao exercício, não de encher, mas de vazar as algibeiras da gente.
E sem mais dizer, abriu e leu o escrito.
"Senhor: — Uma moça, que nem é bonita nem namorada, mas que quer
interessar-se por vós, entende dever prevenir-vos que no banco de relva da gruta
não achareis ao amanhecer uma incógnita, porém quatro conhecidas, que
pretendem zombar de vós, porque esta mesma noite jurastes amar a cada uma
delas cm particular. Não procureis adivinhar quem vos escreve, porque apesar de
vossa amiga será por agora — Uma incógnita".
— Muito bonito! Muito bonito!... disse Augusto, beijando o bilhete; estou
exatamente representando um papel de romance! Mas quem sabe se ainda acharei
mais cartas?...
E nisso pensando, foi correndo um por um todos os bolsos de seus vestidos,
sem esquecer o do relógio; e até passou os dedos pela sua basta cabeleira,
presumindo que talvez introduzissem algum no enorme canudo de cabelos que lhe
escondia as orelhas.
Porém nada mais havia; também duas cartas tão curiosas já eram de sobra
em uma só noite.
O estudante pensou no conteúdo de ambas, e ainda reflexionava se lhe
cumpria fugir ou aceitar um certame com quatro moças, que ele adivinhava quais
eram, quando a primeira rosa da aurora se desabriu no horizonte. Augusto correu
para a gruta encantada.
Chegando ao pé, foi de mansinho se aproximando, sentiu rumor e ouviu que
alguém dizia em tom baixo:
— Oh! Se ele vier!
— Ei-lo aqui, minhas belas senhoras, exclamou o estudante, que entendeu
não lhes dever nunca dar tempo a tomarem a ofensiva; eis-me aqui!...
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As moças, que estavam todas sentadinhas no banco de relva, como quatro
pombas rolas enfileiradas no mesmo galho, ergueram-se sobressaltadas ao ver
entrar inopinadamente o estudante; era isso mesmo o que ele queria, pois
continuou:
— As senhoras vêem que acudi de pronto ao honroso convite e que me
entusiasmo vendo quatro auroras em lugar de uma só. Belo amanhecer é este, sem
dúvida… mas, exposto ao fogo abrasador de oito olhos brilhantes… eu me sinto
arder... juro que tenho sede... Eis ali uma fonte... Mas, meu Deus, é a fonte
encantada que descobre os segredos de quem está conosco!... Bem! Bem! Melhor…
uma gota desta linfa de fadas!...
— O que é que ele está dizendo, mana? exclamou d. Quinquina, apontando
para Augusto, que tinha entre os lábios o copo de prata.
— É preciso decidir-nos a começar, disse d. Gabriela.
— Principie você, disse d. Joaninha.
— Eu não! comece você.
— Eu não, que sou a mais moça.
Então o estudante, que tinha acabado de esgotar o seu copo d’água, voltouse
para elas, e dando a seu rosto uma expressão animada e às suas palavras
estudado acento:
— Começo eu, minhas senhoras, disse, e começo por dizer-vos que aquela
fonte é realmente encantada; sim, eu tenho, à mercê de sua água, adivinhado belos
segredos: escutai vós Perdoai e consenti que vos trate assim, enquanto vos falar
inspirado por um poder sobrenatural. Vós viestes aqui para maltratar-me e zombar
de mim, por haver amado a todas vós numa só noite; que ingratidão!... Eu vos
poderia perguntar como o poeta: Assim se paga a um coração amante?! Mas,
desgraçadamente, a fada que preside àquela fonte, quer mais alguma coisa ainda, e
me dá uma cruel missão! Ordena-me que eu diga a cada uma de vós, em particular,
algum segredo do fundo de vossos corações, para melhor provar os seus
encantamentos. Pois bem, é preciso obedecer; qual de vós quer ser a primeira?...
Eu não ouso falar alto, porque pelo jardim talvez estejam passeando alguns
profanos. Qual de vós quer ser a primeira?...
Nenhuma se moveu.
— Será preciso que eu escolha? continuou o tagarela. Escolherei... lluminaime,
boa fada! Quem será?... Será… a sra. d. Gabriela?
— Eu?! respondeu a menina, recuando.
— A senhora mesma, disse Augusto, trazendo-a pela mão para junto da
fonte; vinde, senhora, para bem perto do lugar encantado; agora silêncio... ouvi.
— Ele está mangando conosco, murmurou d. Clementina.
Augusto já estava falando em voz baixa a d. Gabriela.
— Vós, senhora, ainda não amastes a pessoa alguma; para vós amor não
existe: é um sonho apenas, e só olhais como real a galanteria; vós queríeis zombar
de mim, porque vos protestei os mesmos sentimentos que havia protestado a mais
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três companheiras vossas, e todavia, estais incursa em igual delito, pois só por
cartas vos correspondeis com cinco mancebos.
— Senhor!...
— Oh! Não vos impacienteis; quereis provas?... Há quatro dias, uma
vendedora de empadas, que se encarrega de vossas cartas, enganou-se na entrega
de duas; trocou-as e deu, se bem se lembra a fada, a de lacre azul ao sr. Juca e a
de lacre verde ao sr. Joãozinho.
— Ora… ora, senhor! Quem lhe contou essas invenções?
— A fada! E fez mais ainda. Vós não achareis em vosso álbum o escrito
desesperado do sr. Joãozinho, que vos foi entregue no momento de vossa partida
para esta ilha; sou eu que o tenho, a fada mo deu há pouco com sua mão invisível.
— Impossível! balbuciou d. Gabriela, recorrendo ao seu álbum.
Ela não podia encontrar o escrito.
— Sr. Augusto, disse então, toda vergonha e acanhamento, eu lhe rogo que
me dê esse papel.
— Pois não quereis ouvir mais nada!...
— Basta o que tenho ouvido e que não posso bem compreender; mas dê-me
o que lhe pedi.
— Daqui a pouco, senhora, na hora de minha partida para a corte, porém com
uma condição.
— Pode dizê-la.
— Sois sobremaneira delicada, senhora; este excesso vos deve ser nocivo;
quereis fazer-me o obséquio de ir descansar e dar-me a honra de aceitar a minha
mão até à porta da gruta?...
— Com muito prazer.
Então os dois se dirigiram para fora; passando junto das três companheiras,
d. Gabriela pôde apenas dizer-lhes:
— Até logo.
Chegando à porta, Augusto falou já em outro tom:
— Minha senhora, espero que me faça a justiça de crer que fico
extremamente penalizado por não poder dilatar por mais tempo a glória de
acompanhá-la; mas sabe o que ainda tenho de fazer.
— Obrigada, respondeu d. Gabriela, não poupe as outras.
Não é possível bem descrever a admiração das três.
Augusto chegou-se a d. Quinquina, e tomando-lhe a mão disse:
— Minha senhora, é chegada a vossa vez.
D. Quinquina deixou-se levar para junto da fonte; as moças tinham perdido
toda a força; o que diante delas se passava pedia uma explicação que não estava
ao seu alcance dar. Augusto começou:
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— Senhora, eu poderia dizer-vos, pelo que me conta a boa fada, que vós sois
como as outras de vossa idade, tão volúveis como eu; mas para tal saber não
precisava eu beber da água encantada; podia também gastar meia hora em falar do
vosso galanteio com um tenente da Guarda Nacional, por nome Gusmão...
— Senhor!...
— Por nome Gusmão, que leva o seu despotismo amoroso a ponto de exigir
que não valseis, que não tomeis sorvetes, que não deis dominus tetum quando ao
pé de vós espirrar algum moço e que não vos riais quando ele estiver sério,
— Quem lhe disse isto, senhor?...
— A fada, senhora; e ainda me disse mais: por exemplo, contou-me que no
baile desta noite, passeando com um velho militar, vós recebestes da mão dele um
lindo cravo e a seus olhos o escondestes, com gesto apaixonado, no palpitante seio;
mas daí a um quarto de hora essa mesma flor, tão ternamente aceita, deveria ir
parar ao bolso de um belo jovem, chamado Lúcio, se acaso não fosse roubada pela
fada que preside esta fonte.
— Eu não entendo nada do que o senhor está dizendo… isso não é comigo.
— Eu me explico: o sr. Lúcio viu ser dado e recebido o presente, e fingindo-se
zeloso, vos pediu esse cravo, muito notável porque, além da flor aberta, havia sete
flores em botão. Ora, dizei, não é verdade? Pois o sr. Lúcio queria esse cravo, mas
vós não lho podíeis dar, porque o velho militar não tirava os olhos de vós; ora,
conversando com o sr. Lúcio, acordastes ambos que ele iria esperar um instante no
jardim e que um pequeno escravo, por nome Tobias, lhe levaria a flor; e como o tal
Tobias ainda não conhecia o sr. Lúcio, este lhe daria por senha as seguintes
palavras — sete botões — não foi assim?
D. Quinquina guardou silêncio, porque tudo era verdade; ela estava cor de
nácar. Augusto prosseguiu:
— Isto se passou estando vós na grande varanda, sentados em um banco e
com as costas voltadas para uma janela da sala do jogo; ora, a fada esteve
recostada a essa janela, ouviu quanto dissestes e como lhe é dado tomar todas as
figuras, tomou a do moço, foi ao jardim, e quando viu o Tobias, disse — sete botões;
e o cravo foi logo da fada e é agora meu; ei-lo aqui!...
— Isto é uma invenção; eu não conheço essa flor.
— Bem então consentireis que eu a traga esta manhã no meu peito?... Se
não confessais, eu a mostrarei... O senhor coronel ainda se não retirou e...
— Perdoe-me, balbuciou, enfim, d. Quinquina, deixando cair uma lágrima na
mão de Augusto. Dê-me esse maldito cravo.
— Eu vo-lo darei na hora de minha partida, senhora; porém, ouvi mais.
— Basta.
— Pois bem, basta; mas eu vejo que vossa face está umedecida; seria uma
lágrima se o relento da noite não molhasse também a rosa. Quereis descansar sem
dúvida; poderei gozar o prazer de conduzir-vos até à porta da gruta?...
— Sim, senhor.
Duas guerreiras tinham sido batidas; só a curiosidade retinha as outras;
Augusto se chegou para elas e falou a d. Clementina:
— Agora vós, senhora.
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Ela deixou-se levar pela mão até junto da fonte, e o estudante começou:
— Quereis fatos de anteontem ou da noite passada, senhora?
Eu não entendo o que o senhor quer dizer.
— Pergunto, senhora, se vos dá gosto que eu vos repita o que convosco se
passou, quando tomáveis um sorvete ao lado de um jovem de cabelos negros... o
que convosco conversou o meu colega Filipe, quando tomáveis chá?
— Eu não preciso saber mais nada disso.
— Então dir-vos-ei o que mais vos interessa; sossegarei mesmo os vossos
cuidados e os de sr. Filipe, a respeito da perda de certo objeto...
— Sr. Augusto!
— Senhora, foi a fada desta misteriosa fonte quem vos roubou um precioso
embrulho que continha uma trança de vossos cabelos e que deveria ser achado
embaixo da quarta roseira da rua que vai ter
— Sr. Augusto!
— Senhora, foi a fada desta misteriosa fonte quem vos roubou um precioso
embrulho que continha uma trança de vossos cabelos e que deveria ser achado
embaixo da quarta roseira da rua que vai ter ao caramanchão; e essa trança pára
hoje em minhas mãos, ei-la aqui...
— Oh! Dê-ma.
— Não preferis antes que eu a entregue ao feliz para quem a destináveis?
— Não, eu lhe peço que ma dê.
— Eu estou pronto a obedecer-vos, senhora, mas só na hora de minha
partida. Vós quatro queríeis zombar de mim, e não concebo até onde iria a vossa
vingança; preciso de reféns que assegurem a paz entre nós, estes são os meus;
quereis saber mais alguma coisa?
— Eu já sei que o senhor sabe demais!
— Então...
Quer, como às duas primeiras, oferecer-me a mão e obrigar-me a desamparar
o campo? Venceu, senhor, e sou eu que lhe peço que me acompanheis até à porta
da gruta.
— Eu estou pronto, senhora, para servir-vos em tudo.
Só restava d. Joaninha: era a vez dela.
— Eu vos deixei para o fim, disse Augusto, porque a vós é que eu mais
admiro, porque vós sois exatamente a única dentre elas que tem amado melhor e
que mais infeliz tem sido; eu vos explicarei isto. Sois, todavia, um pouco excessiva
em exigências.
— Que quer dizer, sr. Augusto?
— Que quereis muito, quando ordenais a um estudante que vos escreva
quatro vezes por semana, pelo menos; que passe defronte de vossa casa quatro
vezes por dia; que vá a miúdo ao teatro e aos bailes que freqüentais, e até que não
fume charutos de Havana, nem de Manilha, por ser falta de patriotismo.
Quem lhe disse isso, senhor?
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— A fada, senhora, que sabe que amais a um moço, a quem dais a honra de
chamar querido primo.
— E uma vil traição!
— Exatamente diz o mesmo a nossa boa fada, e ainda mais, senhora, quer
que eu vos aconselhe a que desprezeis esse jovem infiel, que não sabe pagar o
vosso amor: eu poderia dar-vos provas...
— Não as tenho eu bastantes, exclamou d. Joaninha com sentimento, quando
lhe ouço repetir o que deveria ser sabido dele e de mim somente?
Augusto ia falar; ela o interrompeu.
— Senhor, eu agradeço o benefício que recebi; o senhor quis zombar de mim,
como das outras, mas não o fez; ao contrário, atalhou em princípio uma grande
enfermidade, que, talvez, fosse daqui a pouco tempo incurável! Eu galanteio
também às vezes, porém sei amar ao extremo. Adeus, senhor! Eu posso apenas
agradecer-lhe, dizendo que tenho tanta confiança na sua discrição e no seu caráter,
que nem mesmo lhe recomendo o cuidado do meu segredo.
D. Joaninha ia deixar a gruta, e Augusto lhe ofereceu o braço.
— Agradecida, disse ela; permita que eu entre sé em casa. Augusto ficou sé.
Esteve alguns momentos lembrando-se da cena que acabava de ter lugar;
finalmente disse, soltando uma risada:
— Vieram buscar lã e saíram tosquiadas!
E já estava para pôr o pé fora da gruta, quando uma voz branda e sonora o
suspendeu, dizendo:
— Agora, sr. Augusto, é chegada a sua vez...
CAPÍTULO XVIII
Achou quem o tosquiasse
Escutando aquelas inesperadas palavras que o chamavam para a mesma posição
em que ele tinha colocado as quatro moças, Augusto voltou-se de repente e viu no
fundo da gruta a interessante Moreninha, que enchia o copo de prata.
— Minha senhora!... balbuciou o estudante confuso.
D. Carolina respondeu-lhe primeiro com o seu costumado sorriso e depois
assim:
— Não se dirá que um homem zombou impunemente de quatro senhoras;
uma outra toma o cuidado de vingá-las. Sr. estudante, eu também sou adepta ao
culto desta fada e vou invocá-la em meu auxílio.
A menina travessa bebeu em seguida a estas palavras o seu copo d’água e
depois, imitando o estilo de Augusto que se achava junto dela, disse:
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— Quereis que vos fale do passado, do presente, ou do futuro?
— De todas essas épocas... ao menos para ouvir por mais tempo os
vaticínios e palavras de tão amável Sibila.
— Pois então principiemos pelo passado. Oh! Que belas revelações me faz a
fada! Sim, eu estou lendo no livro da vossa vida estou vendo tudo, estou dentro do
vosso espírito e de vosso coração!
— Oh! Sim, eu juro que isso é verdade, atalhou o estudante. A menina fingiu
não entender a alusão e continuou:
— Senhor, vós amastes muito cedo… creio… sim, foi na idade de treze anos.
Augusto recuou um passo; ela prosseguiu:
— Amastes, sim, a uma menina de sete anos, com quem brincastes à borda
do mar.
— E quem era ela? Como se chamava? perguntou Augusto com fogo, talvez
pensando que d. Carolina estava com efeito adivinhando e podia dizer-lhe o que ele
mesmo ignorava.
Posso eu sabê-lo? respondeu a Moreninha; a fada só me diz o que se passou
em vosso coração, e vós, por certo, que também não sabeis quem era essa menina
e só a conheceis pelo nome de — minha mulher.
— Prossiga, minha senhora!
Poderia eu contar-vos uma longa história de velho moribundo, esmeralda,
camafeu, mas basta de vossa mulher; permiti que vos diga que mostrava ser uma
criança doidinha, que cedo começava a fazer loucuras.
— Que cruel juízo!
— Oh! Não vos agasteis; eu a respeito também, em atenção a vós, porém
vamos acabar com o vosso passado. Houve um tempo em que quisestes figurar
entre os amigos como galanteador de damas, e por justo e bem merecido castigo
fostes desgraçado: todas elas zombaram de vós!
E a menina interrompeu-se, para rir-se da cara que fazia Augusto.
— Ora, por esta não esperava eu, disse o estudante.
A primeira jovem que requestastes foi uma moreninha de dezesseis anos, que
jurou-vos gratidão e ternura, e casou-se oito dias depois com um velho de sessenta
anos! Não foi assim?
E a menina de novo desatou a rir.
— Minha senhora, de que se ri tanto?
Ora! E que a fada está me dizendo que ainda em cima os vossos amigos,
quando souberam de tal, deram-vos uma roda de cacholetas!
— Então a sra. d. Ana lhe contou tudo isso?
— Juro-vos, senhor, que minha avó não me fala em semelhantes objetos.
Consenti que eu continue. A segunda foi uma jovem coradinha, a quem em uma
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noite ouvistes dizer num baile que éreis um pobre menino com quem ela se divertia
nas horas vagas, não foi assim?
— Prossiga, minha senhora.
— A terceira foi uma moça pálida, que zombou solenemente, tanto de um
primo que tinha, como de vós. Eis alguns de vossos principais galanteios.
Exasperado com o infeliz resultado deles e vivamente tocado das letras e da música
de certo lundu que se vos cantou, tomastes outro partido e desde então vós
pretendeis fazer-vos passar por borboleta de amor.
— Borboleta?!... Sim... Sim… lembro-me agora que a senhora passeava pelo
jardim. Já sei de quem foram certas carreirinhas e portanto compreendo que sabeis
de tudo à custa...
— A custa da fada, senhor, e escuso estender-me mais, porque vós estais
bem certo de que eu devo saber ainda muito.
Sim, mas diga sempre.
— Não, antes quero falar-vos do vosso presente.
— Pelo amor de seus belos olhos, minha senhora, vamos antes ao que eu
não sei, vamos ao meu futuro.
— Sois sobejamente sôfrego! Não vedes como isso vai contra a boa ordem
da narração?
— Mas a desordem é hoje moda! O belo está no desconcerto; o sublime no
que se não entende; o feio é só o que podemos compreender: isto é, romântico;
queira ser romântica, vamos ao meu futuro.
— Pois bem, vamos ao vosso futuro. Principiarei, como pretendia fazer, se
falasse do presente de vossa vida, dizendo-vos que vós não sois tão inconstante
como afetais.
— Misericórdia!
— Mas que estais a ponto de o ser; digo-vos que perdereis uma certa aposta
que fizestes com três estudantes.
— Como é isso? Então a senhora sabe...
— A fada que me revelou isso leu o termo na carteira de quem o guardou.
— A fada? Sim, a feiticeira o leu... Compreendo.
— Vós não sois inconstante, porque tendes até hoje cultivado com religioso
empenho o amor de vossa mulher; mas vós o ides ser, porque não longe está o dia
em que a esquecereis por outra.
— A culpa será dos olhos dessa outra; porém quem sabe?... Desejo que não;
contudo, eu já vos vejo em princípio e temo que ides ao fim; sereis perjuro, tereis de
escrever um romance e perdoai-me se vos desejo este mal: eu quisera que ao pé de
meu irmão, que vos apresentará o termo da aposta, aparecesse a vossos olhos a
mulher traída. Do vosso futuro eis quanto me disse a fada.
— E disse bastante para me confundir.
— Quereis que vos fale agora do vosso presente?
— Oh, se quero! No presente está a minha glória.
— Ontem, no baile, dissestes palavras de ternura pelo menos a seis
senhoras.
— Esta agora é melhor! E quem o pôde notar?
— Provavelmente a fada vos observava.
— Então a fada, a feiticeira fazia isso?
— Depois do baile puseram-vos duas cartas no bolso.
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— Que mãos delicadas?... Não mo sabe dizer a fada, porém vós viestes para
esta gruta acudindo a um convite, e fingistes adivinhar segredos de corações.
— Não era verdade: a fada nada vos revelou, e o que dissestes que sabíeis
antes e a fada me disse como.
— Explique-me, pois, minha senhora.
— Quando involuntariamente fui causa de vos entornarem café nas calças,
vós fostes mudar de roupa e entrastes para o gabinete das senhoras; lá ouvistes
tudo o que afetastes adivinhar há pouco.
— E quem me viu entrar?
— A fada sem dúvida. O cravo de d. Quinquina fostes vós que o recebestes
no jardim; na noite dos jogos de prendas, fostes vós ainda quem, com uma luz na
mão, procurou e achou a trança de cabelos de d. Clementina, embaixo da quarta
roseira da rua que vai para o caramanchão.
— Mas quem observou o que eu fiz às escondidas e com tanto cuidado?
— A fada, que, segundo penso, vos tem sempre seguido com os olhos.
— A fada?!... A feiticeira me segue sempre com os olhos?!... Oh! Como sou
feliz!... A feiticeira é a senhora!
— Senhor! Sois pouco modesto; que me importariam vossos passos e vossas
ações?...
— Perdão! Perdão!... Eu sou um tresloucado... um incivil... um doido... não sei
o que faço, nem o que digo, mas continue...
— Basta! Vós duvidastes da fada e por isso eu termino aqui. Não! Não minha
senhora! E preciso dizer-me mais alguma coisa ainda!... Por força a fada lhe deveria
ter revelado! Ela, que adivinha tudo o que está dentro do meu coração, diga o que
ainda se passa nele.
Nada mais me disse.
— Beba outro copo d’água...
— Não julgo necessário. Pois então...
— Cumpre retirar-me.
— Não é por certo! Perdoe-me, minha senhora, mas eu devo descobrir todos
os meus segredos a quem conhece tão boa parte deles.
— Eu me contento com o pouco que sei.
— Ouça uma só palavra...
— Não sou curiosa.
— Pois a senhora...
— Sei que sou senhora, mas sou exceção de regra; não quero saber.
— Embora, eu lhe direi ainda contra a vontade...
— E para isso toma-me a saída?...
— E só para lhe dizer que eu amo...
— Já sei, à sua mulher
— Não é isso: a uma bela moça...
— Ela o deve ser agora.
Muito espirituosa...
— Já ela o era em criança.
— E que se chama...
— Ah! espreitam-nos da entrada da gruta!
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Augusto correu a examinar quem era a indiscreta testemunha; não aparecia
pessoa alguma; compreendeu então que fora ainda um meio de que se lembrara d.
Carolina para não deixá-lo concluir sua declaração e, disposto a lançar-se aos pés
da menina, voltou-se já com o nome da bela nos lábios, e...
D. Carolina tinha desaparecido da gruta.
CAPÍTULO XIX
Entremos nos corações
O que é bom dura pouco. As festas estão acabadas, as nossas belas conhecidas
bordam, os nossos alegres estudantes estão de livro na mão. Mas, pelo que toca a
estes, qual é digam-me, qual o estudante que, depois de uma patuscada de tom,
não fica por oito dias incapaz de compreender a mais insignificante lição? Isto
sucede assim; essa pobre gente vê, por toda a parte e misturando-se com todos os
pensamentos, no livro em que estuda, nas estampas que observa, na dissertação
que escreve, o baile, as moças e os prazeres que apreciou.
O nosso Augusto, por exemplo, está agora bronco para as lições e
impertinente com tudo. Rafael é quem paga o pato: se o inocente moleque lhe
apronta o chá muito cedo, apanha meia dúzia de bolos, porque quer ir vadiar pelas
ruas; se no dia seguinte se demora só dez minutos, leva dois pescoções, para andar
mais ligeiro. Não há, enfim, coisa alguma que possa contentar o sr. Augusto; está
aborrecido da medicina, tem feito duas gazetas na aula; de ministerial, que era,
passou-se para a oposição; não quer mais ser assinante de periódicos, não há para
seus olhos lugar nenhum bonito no mundo; aborrece a corte, detesta a roça e só
gosta das ilhas.
Deveremos fazer-lhe uma visita; ele está em seu gabinete e um pouco menos
carrancudo, porque Leopoldo, o seu amigo do coração, o acompanha e tem a
paciência de estar ouvindo pela duodécima vez a narração do que com ele se
passou na ilha de...
Segundo parece, Augusto acaba de relatar o que ocorreu na gruta, entre ele e
a bela Moreninha, porque Leopoldo lhe perguntou:
— E por onde fugiria ela?...
— Por uma difícil saída que eu não tinha observado, respondeu Augusto, e
que exatamente se praticava no fundo da gruta.
— Que diabinho de menina!
— Quanto mais se tu notasses a graça e malícia com que ela, quando entrei
na sala, me perguntou sossegadamente: "Esteve dormindo na gruta, sr. Augusto?…"
— Então ela gostou da tua semideclaração?!
— Não... não... se ela tivesse gostado, não me fugiria.
— Ora, é boa! Não devia fazer outra coisa.
Se ela gostasse de mim!... Mas, por que não me deu um só sinal de
ternura?... Também eu, às vezes tão adiantado, fui desta um tolo, um basbaque!
Tremi diante de uma criança que não tem quinze anos e não soube dizer duas
palavras.
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— Estás doido, Augusto, e doido varrido; acredita que d. Carolina foi mais
sensível aos teus cumprimentos que aos de nenhum outro; e se não, dize por que se
não deixou ela dormir, como as outras senhoras, e foi à hora de tua partida passear
pela praia e ver-te embarcar?... Por que ficou ali passeando até desaparecer o teu
batelão?
— Isto não significa nada.
— Ora, ature-se um namorado!... Mas venha cá sr. Augusto, então como é
isto?... Estás realmente apaixonado?!
— Quem te disse semelhante asneira?...
— Há três dias que não falas senão na irmã de Filipe e...
— Ora viva! Quero divertir-me… digo-te que a acho feia; não é lá essas
coisas; parece ter mau gênio. Realmente notei-lhe muitos defeitos... sim... mas, às
vezes... Olha, Leopoldo, quando ela fala ou mesmo quando está calada, ainda
melhor; quando ela dança, ou mesmo quando está sentada... ah! ela, rindo-se… e
até mesmo séria... quando ela canta ou toca ou brinca ou corre, com os cabelos à
negligé, ou divididos em belas tranças; quando... Para que dizer mais? Sempre,
Leopoldo, sempre ela é bela, formosa, encantadora, angélica!
Então, que história é essa? Acabas divinizando a mesma pessoa que,
principiando, chamaste feia?...
— Pois eu disse que ela era feia? É verdade que eu... no princípio... Mas
depois... Ora, estou com dores de cabeça; este maldito Velpeau!... Que lição temos
amanhã?
— Tratar-se-á das representações de...
— Temos maçada! Quem te perguntou por isso agora? Falemos de d.
Carolina, do baile, do...
— Eis aí outra! Não acabaste de perguntar-me qual era a lição de amanhã?
— Eu? Pode ser... Esta minha cabeça!...
— Não é a tua cabeça, Augusto, é o teu coração.
Houve então um momento de silêncio. Augusto abriu um livro e fechou-o logo;
depois tomou rapé, passeou pelo quarto duas ou três vezes e, finalmente, veio de
novo sentar junto de Leopoldo.
— É verdade, disse; não é a minha cabeça: a causa está no coração.
Leopoldo, tenho tido pejo de te confessar, porém luto posso mais esconder estes
sentimentos que eu penso que são segredos e que todo o mundo lê nos olhos!
Leopoldo, aquela menina que aborreci no primeiro instante, que julguei insuportável
e logo depois espirituosa, que daí a algumas horas comecei a achar bonita, no curto
trato de um dia, ou melhor ainda, em alguns minutos de unia cena de amor e
piedade, em que a vi de joelhos banhando os pés de sua ama, plantou no meu
coração um domínio forte, um sentimento filho da admiração, talvez, mas,
sentimento que é novo para mim, que não sei como o chame, porque o amor é um
nome muito frio para que o pudesse exprimir!... Eu já não me conheço... não sei
onde irá isto parar... Eu amo! Ardo! Morro!
— Modera-te, Augusto; acalma-te; não é graça; olha que estás vermelho
como um pimentão.
— Oh! Tudo naquela ilha fatal se assanhou para enfeitiçar-me, tudo, até a
própria mentira.
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— E tu acreditaste muito nessa senhora!…
— Escuta, Leopoldo: uma vez que com a avó de Filipe conversava na gruta,
eu, fatigado e sequioso, bebi um copo d’água da fonte do rochedo; então, a nossa
boa hóspeda contou-me uma fabulosa e singular tradição daquela fonte. A água
dizia-se milagrosa e quem a bebesse não sairia da ilha sem atuar algum de seus
habitantes. Eis aqui, pois, uma mentira, mais uma mentira que excitou a minha
imaginação; uma mentira que me perseguiu lá dois dias e que me persegue ainda
hoje; uma mentira, enfim, que se transformou em verdade, porque eu bebi daquela
água e não pude deixar a ilha sem amar, e muito, um de seus habitantes...
— Deveras que isso não deixa de ser interessante. Mas que efeito esperas tu
que provenha de toda essa moxinifada?
— Que efeito?... O... amor...
— Amor?... Amor não é efeito, nem causa, nem princípio. nem fim, e é tudo
isso ao mesmo tempo; e uma coisa que... sim... finalmente, para encurtar razões,
amor é o diabo... Dize-me, pois, sinceramente falando, qual o resultado que pensas
tirar de tudo isso que me contaste.
— Que resultado?... O... amor...
— E ele a dar-me com o maldito amor! Augusto, falemos sério, essa tua
exaltação estava muito em ordem num moço que quisesse desposar d. Carolina;
porém tu nem cuidas em casamento nem, se em tal pensasses, te lembrarias,
roceiro como és, de escolher para mulher uma menina que foi criada, educada e
pode-se dizer que mora na corte.
— Esta agora não é má!... Deveras que ainda me não passou pela mente a
idéia do casamento, nem chegará a tal ponto minha loucura; mas suponhamos o
contrário disto; que mal tu achas em que um roceiro se case com uma moça da
cidade?
— Que mal?... Ora, escuta: devendo ir morar na roça, a moça tem,
necessariamente, de mudar de costumes e de vida; compreende, pois, quanto
atormentará o coração do pobre marido a vista dos dissabores e contrariedades que
sofrerá na solidão e monotonia campestre urna senhora amamentada no seio dos
prazeres festins da corte! ... Quanto devem entristecer os suspiros e saudades de
que será testemunha, quando a amada companheira recordar-se de sua família, de
suas amigas, do teatro, do passeio, dessa cadeia de delícias, enfim, que, apesar
dela, a ligará ainda a seu passado.
— Oh! não, não, Leopoldo, se o marido for amado. Quando se ama deveras e
se está com o objeto do amor, não se recorda, não se deseja, não se quer mais
nada!...
— Tu falas em amor, Augusto?... Ainda bem que somos ambos estudantes da
roça e posso dizer-te agora o que entendo, sem medo de ofender suscetibilidade de
cortesão algum. Pois ainda não observaste que o verdadeiro amor não se dá muito
com os ares da cidade?... Que por natureza e hábito, as nossas roceiras são mais
constantes que as cidadãs?... Olha, aqui encontramos nas moças mais espírito,
mais jovialidade, graça e prendas, porém, nelas não acharemos nem mais beleza,
nem tanta constância. Estudemos as duas vidas. A moça da corte escreve e vive
comovida sempre por sensações novas e brilhantes por objetos que se multiplicam e
se renovam a todo momento, por prazeres e distrações que se precipitam; ainda
contra a vontade, tudo a obriga a ser volúvel: se chega à janela um instante só, que
variedade de sensações! Seus olhos têm de saltar da carruagem para o cavaleiro,
da senhora que passa para o menino que brinca, do séqüito do casamento para o
acompanhamento de enterro! Sua alma tem que sentir ao mesmo tempo o grito de
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dor e a risada de prazer, os lamentos, os brados de alegria e o ruído do povo;
depois, tem o baile com sua atmosfera de lisonjas e mentiras, onde ela se acostuma
a fingir o que não sente, a ouvir frases de amor a todas as horas, a mudar de
galanteador em cada contradança; depois, tem o teatro, onde cem óculos fitos em
seu rosto parecem estar dizendo — és bela! — E assim enchendo-a de orgulho e
muitas vezes de vaidade; finalmente, ela se faz por força e por costume tão
inconstante como a sociedade em que vive, tão mudável como a moda dos vestidos.
Quereis agora ver o que se passa com uma moça da roça?...
Ali está ela na solidão de seus campos, talvez menos alegre, porém,
certamente, mais livre; sua alma é todos os dias tocada dos mesmos objetos: ao
romper d’alva, é sempre e só a aurora que bruxoleia no horizonte; durante o dia, são
sempre os mesmos prados, os mesmos bosques e árvores; de tarde, sempre o
mesmo gado que se vem recolhendo ao curral; à noite, sempre a mesma lua que
prateia seus raios à Lisa superfície do lago! Assim, ela se acostuma a ver e amar um
único objeto; seu espírito, quando concebe uma idéia, não a deixa mais, abraça-a,
anima-a, vive eterno com ela; sua alma quando chega a amar, é para nunca mais
esquecer, é para viver e morrer por aquele que ama. Isto é sim, Augusto; considera
que é lá em nossos campos que mais brilham esses sentimentos, que são a mesma
vida e que não podem acabar senão com ela!...
— Como estás exagerado, Leopoldo! Juraria que desejas casar com alguma
moça da roça!
— Oh!... Se esse desejo me dominar, certamente que o satisfarei com uma
das muitas cachopinhas da minha terra.
Eu logo vi que em teus raciocínios e observações andava o gênio da
prevenção; escuso-me, porém, de responder-te, pois que falaste em geral e desse
modo concedes...
— Que há muitas exceções, sem dúvida.
Bom! Quando não, tu me forçarias a tomar a palavra para defender a linda
Moreninha, que tanto cativa.
Então, Augusto, teremos porventura um romance? Que romance?
— Perderás a aposta e ao completar-se o mês...
— Daqui até lá… se eu pudesse esquecê-la! ... Mas aquela menina não é
como as outras; é uma tentação... um diabinho...
— Quando, pois, começas a escrever?
— Estás tolo… respondeu Augusto, tomando por um momento seu antigo
bom humor; eu ainda pretendo nestes quinze dias mudar de amor três vezes.
Basta porém de estudantes. Já temos ouvido bastante o nosso Augusto e
demorar-se mais tempo em seu gabinete fora querer escutar ainda as mesmas
coisas; porque o tal mocinho, que quer campar de beija-flor, parece que caiu no
visco dos olhos e graças da jovem beleza da ilha de... e está sinceramente
enamorado dela. Ora, todos sabem que os amantes têm um prazer indizível em
matraquear os ouvidos dos que os atendem com uma história muito comprida e mil
vezes repetida que, reduzindo-se à expressão mais simples, ficaria em zero ou,
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quando muito, nos seguintes termos: "eu olhei e ela olhou"; eu lhe disse "pode ser,
não pode ser". Deixemos, portanto, o senhor Augusto entregue a seus cuidados de
moço, e tanto mais que já conhecemos o estado em que se acha. Vamos agora
entrar no coraçãozinho de um ente bem amável, que não tem, como aquele, uma
pessoa a quem confie suas penas, e por isso sofre talvez mais. Faremos urna visita
à nossa linda Moreninha.
Também suas modificações têm aparecido no caráter de d. Carolina, depois
dos festejos de Sant’Ana. Antes deles, era essa interessante jovenzinha o prazer da
ilha de... irreconciliável inimiga da tristeza, ela ignorava o que era estar melancólica
dez minutos e praticava o despotismo de não consentir que alguém o estivesse;
junto dela, por força ou por vontade, tudo tinha de respirar alegria; sabia tirar partido
de todas as circunstâncias para fazer rir, e, boa, afável e carinhosa para com todos,
amoldava os corações à sua vontade; o ídolo, o delírio de quantos a praticavam, era
ela a vida daquele lugar e empunhava com suas graças o cetro do prazer. Hoje suas
maneiras são outras e, enquanto suas músicas se empoeiram, seu piano passa dias
inteiros fechado, suas bonecas não mudam de vestido, ela vagueia solitária pela
praia, perdendo seus belos olhares na vastidão do mar, ou, sentada no banco de
relva da gruta, descansa a cabeça em sua mão e pensa... Em quê?... Quais serão
os solitários pensamentos de uma menina de menos de quinze anos?... E às vezes
suspira... um suspiro?... Eis o que já é um pouco explicativo.
Assim como o grito tem o eco, a flor o aroma e a dor o gemido, tem o amor o
suspiro; ah! o amor é um demoninho que não pede para entrar no coração da gente
e, hóspede quase sempre importuno, por pior trato que se lhe dê, não desconfia,
não se despede, vai-se colocando e deixando ficar, sem vergonha nenhuma, faz-se
dono da casa alheia, toma conta de todas as ações, leva o seu domínio muito cedo
aos olhos, e às vezes dá tais saltos no coração, que chega a ir encarapitar-se no
juízo; então, adeus minhas encomendas!...
Pois muito bem, parece que a tal tentação anda fazendo peloticas no peito da
nossa cara menina; também não há moléstia de mais fácil diagnóstico. Uma
mocinha que não tem cuidados, com quem a mamãe não é impertinente, que não
sabe dizer onde lhe dói, que não quer que se chame médico, que suspira sem ter
flatos, que não vê o que olha, que acha todo o guisado mal temperado, é porque já
ama; portanto, d. Carolina ama, mas a quem?!...
Ah! Sr. Augusto! Sr. Augusto, a culpa é toda sua, sem dúvida. Esta bela
menina, acostumada desde as faixas a exercer um poder absoluto sobre todos os
que a cercam, não pôde ouvir o estudante vangloriar-se de não ter encontrado ainda
a mulher que o cativasse deveras, sem sentir o mais vivo desejo de reduzi-lo a
obediente escravo de seus caprichos; ela pôs em ação todo o poder de suas graças,
ideou mesmo um plano de ataque, estudou a natureza e os fracos do inimigo,
observou e bateu-se; o combate foi fatal a ambos, talvez, e no fim dele a orgulhosa
guerreira apalpou o seu coração e sentiu que nele havia penetrado um dardo;
consultou a sua consciência e ouviu que ela respondia; se venceste, também estás
vencida!
Com efeito, d. Carolina ama o feliz estudante, e unia mistura de saudades e
de temor da inconstância do seu amado é provavelmente a causa da sua tristeza;
ajunta-se a isto a novidade e os cuidados de um amor nascente e primeiro, o
incômodo de um sentimento novo, inexplicável, que lhe enchia o inocente coração e
ver-se-á que ela tem suas razões para andar melancólica.
E portanto toda a família está assaltada do mesmo mal: há na ilha uma
epidemia de mau humor que tem chegado a todos, desde a sra. d. Ana até a última
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escrava. Além de quanto se acaba de expor, acresce que Filipe se deixou ficar na
cidade a semana inteira. sem querer dispensar uma só tarde para vir visitar sua
querida avó e a bonita maninha.
Eis porém, o que se chama acusação injusta. Diz o ditado que falai no mau,
aprontai o pau! Filipe estava esperando pelo dia de sábado para aproveitar o
domingo todo no seio de sua família; ei-lo aí que recebe a bênção de sua avó e beija
a fronte de sua irmã.
— Pensei, disse aquela, que não querias mais ver-nos!
— E quase que deixei a viagem para amanhã, minha boa avó.
— O ingrato ainda o diz... ouves, Carolina?... Então por quê... Para vir na
companhia de Augusto, que deve passar o dia conosco.
Estas palavras tiveram poder elétrico; d. Carolina, para ocultar a perturbação
que a agitava, correu a esconder-se em seu quarto.
Lá, bem às escondidas, ela derramou uma lágrima: doce lágrima… era de
prazer.
CAPÍTULO XX
1o. Domingo: ele marca
Augusto madrugou e muito. Quando a aurora começou a aparecer, já ele havia
vencido meia viagem e seu desejo era ir acordar na ilha de... uma pessoa que tinha
o mau costume de dormir até alto dia; por isso instava com os remadores para que
forcejassem; e enquanto seu batelão deslizava pelas águas, rápido como uma flecha
pelos ares, ele o acusava de pesado, de vagaroso; tinha há muito descoberto a ilha
de... e os objetos foram pouco a pouco se tornando mais e mais distintos; viu a casa,
viu o rochedo em que outrora a tamóia deveria ter cantado seus amores, e sobre o
qual cantara, havia oito dias, d. Carolina a sua balada; depois distinguiu sobre esse
rochedo negro um ponto, um objeto branco, que foi crescendo, sempre crescendo,
que enfim lhe pareceu uma figura de mulher, que ostentava a alvura de seus
vestidos. Depois ele tinha desviado um pouco os olhos; quando os voltou de novo
para o rochedo, a figura branca havia desaparecido como um sonho.
Enfim o batelão abordou à ilha de...; Augusto correu à casa de que tantas
saudades sofrera; todos já se tinham levantado; ninguém dormia ainda, d. Carolina
estava vestida de branco.
— Eu lhe agradeço bem, sr: Augusto, disse a sra. d. Ana, depois dos
primeiros cumprimentos; eu lhe agradeço a sua boa visita; nós temos passado oito
dias de nojo, e foi preciso que Filipe nos trouxesse a notícia de sua vinda, para
reviver nossa antiga alegria; Carolina, por exemplo, desde ontem à noite já tem
estado sofrivelmente travessa.
— Eu, minha avó, sempre tive fama de desinquieta e prazenteira; e se ontem
me adiantei, foi porque chegou-me um companheiro para traquinar comigo.
— Não o negues, menina; tens estado melancólica e abatida toda esta
semana; eram saudades da agradável companhia que tivemos. Que eram saudades
conheci eu pelos suspiros que soltavas; e também não vai mal nenhum em
confessá-lo.
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D. Carolina voltou o rosto. Augusto arregalou os olhos e sentiu que a ventura
lhe inundava o coração.
O mesmo por lá nos sucedeu, disse Filipe, tornando a palavra; estivemos
todos carrancudos e, seja dito em amor da verdade, Augusto, mais do que nenhum
outro, gostou de nosso trato e da nossa companhia; realmente foi ele o que mostrou
sofrer maiores saudades.
— É verdade, sr. Augusto? perguntou a boa hóspeda.
— Minha senhora, a visita que vim ter o gosto de fazer é a melhor resposta
que lhe posso dar.
D. Carolina tinha os olhos em um livro de música, mas seus ouvidos e sua
atenção pendiam dos lábios de Augusto: ouvindo as últimas palavras do estudante,
ela se sorriu brandamente.
— De que estás rindo, Carolina? perguntou Filipe.
— De um engraçado pedacinho da cavatina do Fígaro no Barbeiro de Sevilha.
Então ele examinou o livro e viu que havia mentido, porque o que tinha diante de
seus olhos era uma coleção de modinhas de Laforge.
Duas horas depois serviu-se o almoço. Mas durante essas duas horas, que se
passaram muito depressa, Augusto teve de agradecer as obsequiosas atenções da
avó de Filipe, que dizia ter por ele notável predileção, e também de reparar com
esmero e minuciosidade no objeto de seus recentes cultos. Em resultado de suas
observações concluiu que d. Carolina estava bonita como dantes, porém mais
lânguida; que às vezes reparava suas indiscrições e que outras, quando mais
parecia ocupar-se com seu alegres trabalhos, olhava-o a furto, com uma certa
expressão de receio, pejo e ardor, que a embelecia ainda mais.
Durante o almoço a conversação divagou sobre inúmeros objetos; finalmente
teve de ir bulir com um pobre lencinho que estava na mão de d. Carolina e que, se aí
não estivesse, passaria despercebido.
— Eu julgo que ele está trabalhoso e perfeitamente marcado, disse Augusto.
— E ir muito longe, respondeu a menina; aí o tem, observe-o de perto, e
repare que barafunda vai por aqui.
Ora, eu acho tudo o melhor possível; ao muito, poder-se-ia dizer que este X
foi marcado por mão de moça travessa.
— Quer dizer que foi pela minha? adivinhou.
— Tem uma bela prenda, minha senhora. Que é muito comum.
— E nem por isso merece menos.
— Eu não entendo assim; aprecio bem pouco o que todo o mundo pode ter.
Quem não sabe marcar? Eu, minha senhora.
— E porque não quer.
— E porque não posso; eu não me poderia haver com uma agulha na mão.
— Um dia de paciência lhe seria suficiente.
— Querem ver, acudiu Filipe, que minha maninha resolve Augusto a aprender
a marcar?
— Então, seria isso alguma asneira?
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— Não, por certo; maninha pode mesmo dar-te algumas.
— Nada, respondeu a menina; sou muito raivosa e à primeira linha que ele
rebentasse, eu o chamaria a bolos.
— Se é uma condição que oferece, eu a aceito, minha senhora; ensine-me
com palmatória.
— Veja o que diz!...
— Repito-o.
— Pois bem, palmatória não, porque, enfim, podia doer-lhe muito; mas, de
cada vez que eu julgar necessário, dar-lhe-ei um puxão de orelha.
— Menina! disse a sra. d. Ana.
— Mas minha avó, eu não estou pedindo a ele que venha aprender comigo.
— Porém podes ensinar-lhe com bons modos.
— E o que pretendo fazer.
— Ele há de aproveitar muito.
— Terá os meus elogios.
— E se por acaso errar alguma vez?
— Levará um puxão de orelha.
Se me é permitido, disse Augusto, aceito as condições.
— Pois bem, respondeu d. Carolina, está o senhor matriculado na minha aula
de marcar e daqui a uma hora principiaremos a nossa lição.
E então ele não passeia comigo? perguntou Filipe.
— Depois da lição, respondeu a mestra, fazendo-se de grave; antes não lhe
dou licença.
Levantaram-se da mesa, e algum tempo foi destinado a descansar; Filipe
desafiou Augusto para uma partida de gamão e incontinente foram travar combate
na varanda. Filipe derrotou seu competidor em três jogos consecutivos; estavam no
começo do quarto, e tocou na sala uma campainha; os dois estudantes não deram
atenção a isso e continuaram; o jogo tornou-se duvidoso, e qualquer dos dois podia
dar ou levar gamão; Augusto acabava de lançar um dois e ás, que desconcertaram
seu antagonista, quando d. Carolina apareceu e, dirigindo-se ao seu discípulo, disse
com engraçada seriedade:
O senhor não ouviu tocar a campainha?
— Então isso era comigo?
— Sim, senhor, são horas de lição, e espero que para outra vez não me seja
preciso chamá-lo.
Aceito a admoestação, minha bela mestra, mas rogo-lhe o obséquio de
consentir que termine esta partida.
— Não, senhor.
— E uma mão de honra!
— Pior está essa!
Ora é boa! acudiu Filipe; então quer você...
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— Não tenho a dizer-lhes o que quero, nem o que não quero; são horas da
lição, vamos.
E preciso obedecer, concluiu Augusto levantando-se.
Daí a pouco estava tudo em via de regra; Augusto, sentado em uma
banquinha aos pés de sua bela mestra, escutava, com olhos fitos no rosto dela, as
explicações necessárias. As vezes d. Carolina não podia conservar imperturbável
sua afetada gravidade e então os sorrisos da bela mestra e do aprendiz
graciosamente se trocavam; ela se mostrava mais pacífica e ele menos atento do
que haviam prometido, porque era já pela quarta vez que a bela mestra recomeçava
suas explicações e o aprendiz cada vez a entendia menos.
Filipe apareceu na sala, pronto para ir caçar, e convidou o seu amigo para
com ele partilhar do mesmo prazer. Todo o mundo adivinha que Augusto disse que
não; ele poderia responder que não queria caçar, porque estava pescando, mas
contentou-se com dizer:
— Minha bela mestra não dá licença.
— Tome cuidado no modo de pegar nessa agulha! gritou ela, com mau modo,
e sem se importar com Filipe.
— Está bem, disse este, saindo: eu não os posso aturar.
E depois acrescentou sorrindo-se:
Finque-se aí, sr. Hércules, aos pés da sua bela Onfale!
Ouviu o que ele disse? perguntou Augusto.
Já lhe tenho repetido três vezes que não é assim que se pega na agulha.
Ora, minha senhora...
— Ora, minha senhora!... Ora, minha senhora! Eu não sou sua senhora, sou
sua mestra.
Minha bela mestra!
Digo-lhe que já me vai faltando a paciência. O senhor não atenta no que
faz!... Já tem quatro vezes rebentado a linha e é a décima segunda que lhe cai o
dedal.
— Não se exaspere, minha bela mestra, eu o vou apanhar e não cairá mais
nunca.
Augusto curvou-se e ficou quase de joelhos diante de d. Carolina; ora, o dedal
estava bem junto dos pés dela e o aprendiz, ao apanhá-lo, tocou, ninguém sabe se
de propósito, com seus dedos em um daqueles delicados pezinhos: esse contato fez
mal; a menina estremeceu toda. Augusto olhou-a admirado, os olhos de ambos se
encontraram e os olhos de ambos tinham fogo. Um momento se passou, e o
sossego se restabeleceu.
— Já não posso mais! exclamou a bela mestra; rebentou o senhor pela quinta
vez a linha; não dá um ponto que preste; não há outro remédio...
E, dizendo isto, lançou uma das mãos à orelha do aprendiz, que de súbito deu
um grito e acudiu com as suas. Ora, essas mãos se encontraram e nesse ensejo os
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dedos da bela mestra foram docemente apertados pela mão do aprendiz. Novo fogo
de olhares; que aproveitável lição!
— Menina, tenha modo!... O sr. Augusto não é criança, exclamou a sra. d.
Ana, que a dez passos cosia, e que só podia ver a exterioridade do que passava
entre a bela mestra e o aprendiz.
A lição se prolongou até ao meio-dia e mais de mil vezes se repetiu a mesma
cena do encontro das mãos; d. Carolina não conseguiu puxar uma só vez a orelha
do estudante e o aprendiz não perdeu uma só ocasião de apertar os dedos da bela
mestra. Augusto se comprometeu a apresentar na primeira lição um nome marcado
pela sua mão, e tudo foi às mil maravilhas.
O resto do dia se passou como se havia passado o seu princípio para
Augusto e d. Carolina.
Eles não se chamaram mais por seus nomes próprios, o amor lhes tinha
ensinado outros, eram: "meu aprendiz", e "minha bela mestra".
A madrugada seguinte foi triste, porque presidiu às despedidas do aprendiz e
sua bela mestra, mas ainda foi bem doce, porque ambos meigamente se disseram:
— Até domingo!
CAPÍTULO XXI
2o. domingo: brincando com bonecas
Raiou o belo dia, que seguiu a sete outros, passados entre sonhos, saudades e
esperanças. Augusto está viajando, e já não é mais aquele mancebo cheio de
dúvidas e temores da semana passada; é um amante que acredita ser amado e que
vai, radiante de esperanças, levar à sua bela mestra a lição de marca que lhe foi
passada.
O prognóstico de d. Carolina, na gruta encantada, vai-se verificando: Augusto
está completamente esquecido da aposta que fez e do camafeu que outrora deu à
sua mulher. Um bonito rosto moreninho fez olvidar todos esses episódios da vida do
estudante. O. Carolina triunfa, e seu orgulho de despotazinha de quantos corações
conhece deveria estar altaneiro, se ela não amasse também.
Como da primeira vez, Augusto vê o dia amanhecer-lhe no mar; e, como na
passada viagem, avista sobre o rochedo o objeto branco, que vai crescendo mais e
mais, à medida que seu batelão se aproxima, até que distintamente conhece nele a
elegante figura de uma mulher, bela por força; mas desta vez, não como da outra,
essa figura se demora sobre o rochedo, não desaparece como um sonho, é uma
bonita realidade: é d. Carolina que só desce dele para ir receber o feliz estudante
que acaba de desembarcar.
— Minha bela mestra!
— Meu aprendiz!... Já sei que traz o nome bem marcado.
Oh! Sempre precisarei que me queira puxar as orelhas.
— Não, eu não farei tal na lição de hoje.
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— E se eu merecer?
— Talvez.
— Então errarei toda a lição.
Eles se sorriam, mas Filipe acaba de chegar e todos três vão pela avenida se
dirigindo à casa.
Ter a ventura de receber o braço de uma moça bonita e a quem se ama,
apreciar sobre si o doce contato de uma bem torneada mão que tantas noites se tem
sonhado beijar; roçar às vezes com o cotovelo um lugar sagrado; voluptuoso e
palpitante; sentir sob sua face o perfumado bafo que se esvaiu dentre os lábios
virginais e nacarados, cujo sorrir se considera um favor do céu; o apanhar o leque
que escapa da mão que estremeceu, tudo isso... mas para que divagações? Que
mancebo há aí, de dezesseis anos por diante, que não tenha experimentado esses
doces enleios, tão leves para a reflexão e tão graves e apreciáveis para a
imaginação de quem ama? Pois bem, Augusto os está gozando neste momento;
mas, porque só a ele é isto de grande intimidade e convém dizer apenas o que
absolutamente se faz preciso, pode-se, sem inconveniente, abreviar toda a história
de duas boas horas, dizendo-se: almoçaram e chegou a hora da lição.
— Vamos, disse d. Carolina a Augusto, que estava já assentado a seus pés e
em sua banquinha; vamos, meu aprendiz, o senhor comprometeu-se a trazer-me um
nome marcado pela sua mão; que nome marcou?
— Entendi que devia ser o nome da minha bela mestra.
Ela não esperava outra resposta.
— Vamos, pois, ver a sua obra, continuou, e creia que estou disposta a
perdoar-lhe, como fiz na lição passada. Venha a marca.
Augusto apresentou então um finíssimo lenço aos olhos da sua bela mestra,
que teve de ler em cada ângulo dele o nome Carolina e no centro o dístico Minha
bela mestra. Tudo estava primorosamente trabalhado, e preciso é confessar: o
aprendiz havia marcado melhor do que nunca o tivera feito d. Carolina.
Augusto esperava com ansiedade ver brilhar nos olhos de sua bonita querida
o prazer da gratidão, e fruía já de antemão o terno agradecimento com que contava,
quando viu, com espanto, que sua bela mestra ia gradualmente corando e por fim se
fez vermelha de cólera e de despeito.
Nunca a mão grosseira de um homem poderia marcar assim!... disse ela a
custo.
— Mas minha bela mestra...
— Eu quero saber quem foi! exclamou com força.
— Eu não entendo...
— Foi uma mulher! Isso não carece que me diga. Uma moça lhe marcou este
lenço para o senhor vir zombar e rir-se de mim, de minha credulidade, de tudo!...
— Minha senhora...
— Vejam!... Já nem quer chamar-me sua mestra!... Agora só sabe dizer
"minha senhora"!...
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A interessante jovem acabava de ser inesperadamente assaltada de um
acesso de ciúme. Augusto estava espantado e a sra. d. Ana, levantando os olhos ao
escutar a última exclamação de sua neta, viu-a correndo para ela.
Que é isto, menina? perguntou.
— Veja, minha querida avó: aqui está a marca que ele me traz! Eu queria um
nome muito mal leito, uma barafunda que se não entendesse, o pano suado e feio,
tudo mau, tudo péssimo, e eu me riria com ele. Sabe, porém, o que fez? Foi para a
corte tomar outra mestra, que não há de ter a minha paciência nem o meu prazer,
mas que marca melhor que eu, que é mais bonita!... Veja, minha querida avó; ele
tem outra mestra, outra bela mestra!...
E dizendo isto, ocultou o rosto no seio da extremosa senhora e começou a
soluçar.
— Que loucura é essa, menina? Que tem que ele tomasse outra mestra? Pois
por isso choras assim?
— Mas nem me quer dizer o nome dela!... Que me importa que seja moça ou
bonita? Nada tenho com isso, porém quero saber-lhe o nome, só o nome!...
Então ela ergueu-se e, com os olhos ainda molhados, com a voz
entrecortada, mas com toda a beleza da dor e delírio do ciúme, voltou-se para
Augusto e perguntou:
— Como se chama ela?
— Juro que não sei.
— Não sabe?...
— Quis trazer um lenço bem marcado para ostentar meus progressos e
motivar alguns gracejos e mandei-o encomendar a uma senhora muito idosa, que
vive destes trabalhos.
— E verdade.
— Não lhe deram este lenço?
— Paguei-o.
— Pois eu rasgo... Pode fazê-lo.
— Ei-lo em tiras.
— Que fazes, Carolina? exclamou a sra. d. Ana, querendo, já tarde, impedir
que sua neta rasgasse o lenço.
— Fez o que cumpria, minha senhora, acudiu Augusto: exterminou o mau
gênio que acaba de fazê-la chorar.
— E que importa que eu rasgasse uni lenço, minha querida avó? Peço-lhe
licença para dar um dos meus ao sr. Augusto.
A sra. d. Ana, que começava a desconfiar da natureza dos sentimentos da
mestra e do aprendiz, julgou a propósito não dar resposta alguma, mas nem com
isso desnorteou a viva mocinha que, tirando da sua cesta de costura um lenço
recentemente por ela marcado, o ofereceu a Augusto, dizendo:
— Eu não admito uma só desculpa, não desejo ver a menor hesitação; quero
que aceite este lenço.
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97
Augusto olhou para a sra. d. Ana, como para ler-lhe n’alma o que ela pensava
daquilo.
— Pois rejeita um presente da minha neta? perguntou a amante avó.
A resposta de Augusto foi um beijo na prenda de amor.
— Agora, que já estamos bem, disse ele, vamos à minha lição.
— Não, não, respondeu a bela mestra, basta de marcar; não me saí bem do
magistério, chorei diante do meu aprendiz, não falemos mais nisto.
— Então fui julgado incapaz de adiantamento?
— Ao contrário, pelo trabalho que trouxe, vi que o senhor estava adiantado
demais; porém, sou eu quem tem outros cuidados.
Já tem cuidados?...
— Quem é que deles não carece?… O pai de família tem os filhos, o senhor
os seus livros e eu, que sou criança, tenho as minhas bonecas. Quer vê-las?
Com o maior prazer.
Um momento depois a sala estava invadida por uma enorme quantidade de
bonecas, cada uma das quais tinha seus parentes, seus vestidos, jóias e um número
extraordinário de bugiarias, como qualquer moça da moda as tem no seu toucador.
Ora, o tal bichinho chamado amor é capaz de amoldar seus escolhidos a
todas as circunstâncias e de obrigá-los a fazer quanta parvoíce há neste mundo. O
amor faz o velho criança, o sábio doido, o rei humilde cativo; faz mesmo às vezes,
com que o feio pareça bonito e o grão de areia um gigante. O amor seria capaz de
obrigar a um coxo a brincar o tempo-será, a um surdo o companheiro e a um cego o
procura quem te deu. O amor foi inventor das cabeleiras, dos dentes postiços que...
mas, alto lá! Que isto é bulir com muita gente; enfim, o amor está fazendo um
estudante do quinto ano de medicina passar um dia inteiro brincando com bonecas.
Com efeito, Augusto já sabe de cor e salteados todos os nomes dos membros
daquela família, conhece os diversos graus de parentesco que existem entre eles,
acalenta as bonecas pequenas, despe umas e veste outras, conversa com todas,
examina o guarda-roupa, batiza, casa, em uma palavra, dobra-se aos prazeres de
sua bela mestra, como uma varinha ao vento.
No entanto a sra. d. Ana os observa cuidadosa; tem simpatizado muito com
Augusto, mas nem por isso quer entregar todo o futuro do objeto que mais ama no
mundo, ao só abrigo do nobre caráter e sérias qualidades que tem reconhecido no
mancebo.
Como de costume, a tarde teve de ser empregada em passeios a borda do
mar e pelo jardim. O maior inimigo do amor é a civilidade, Augusto o sentiu, tendo de
oferecer o braço à sra. d. Ana, mas esta lhe fez cair a sopa no mel, rogando-lhe que
o reservasse para sua neta.
Filipe acompanhava sua avó e na viva conversação que entretinham, o nome
de Augusto foi mil vezes pronunciado.
Uma vez Augusto e Carolina, que iam adiante, ficaram distantes do par que
os seguia.
A mão da bela Moreninha tremia convulsamente no braço de Augusto e este
apertava às vezes contra seu peito, como involuntariamente, essa delicada mão;
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alguns suspiros vinham também pertubá-los mais e havia dez minutos eles se não
tinham dito uma palavra.
Em uma das ruas do jardim duas rolinhas mariscavam; mas ao sentirem
passos, voaram e pousando não longe, em um arbusto, começaram a beijar-se com
ternura; e esta cena se passava aos olhos de Augusto e Carolina!...
Igual pensamento, talvez, brilhou cm ambas aquelas almas, porque os
olhares da menina e do moço se encontraram ao mesmo tempo e os olhos da
virgem modestamente se abaixaram e cm suas faces se acendeu um fogo, que era o
do pejo. E o mancebo, apontando para ambos, disse:
— Eles se amam!
E a menina murmurou apenas:
— São felizes!
— Pois a credita que em amor possa haver felicidades?
— Às vezes.
— Acaso já tem a senhora amado?
— Eu?!... E o senhor?
— Comecei a amar há poucos dias.
A virgem guardou silêncio e o mancebo, depois de alguns instantes,
perguntou tremendo:
— E a senhora já ama também?
Novo silêncio; ela pareceu não ouvir, mas suspirou. Ele falou menos baixo:
— Já ama também?...
Ela baixou ainda mais os olhos e com voz quase extinta disse:
— Não sei... talvez.
— E a quem?...
— Eu não perguntei a quem o senhor amava.
Quer que lho diga?... Eu não pergunto.
— Posso eu fazê-lo?
— Não... não lho impeço. É a senhora.
D. Carolina fez-se cor-de-rosa e só depois de alguns instantes pôde
perguntar, forcejando um sorriso:
— Por quantos dias?
— Oh! Para sempre, respondeu Augusto, apertando-lhe vivamente o braço.
Depois ainda continuou:
— E a senhora não me revela o nome feliz?...
— Eu não... não posso...
— Mas por que não pode?
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— Por que não devo.
— E nunca o dirá?!
— Talvez um dia.
— E quando?...
— Quando estiver certa que ele não me ilude.
— Então... ele é volúvel?...
— Ostenta sê-lo...
— Oh!... Pelo céu! ... Acabe de matar-me! ... Basta o nome pronunciado bem
em segredo, bem no meu ouvido, para que ninguém o possa ouvir, nem a brisa o
leve… pelo céu...
— Senhor!...
— Um só nome lhe peço!...
— É impossível! ... Eu não posso...
Se eu perguntasse?... Oh!... Não!...
— Serei eu?...
A virgem tremeu toda e não pôde responder. Augusto lhe perguntou ainda,
com fogo e ternura:
— Serei eu?...
A interessante Moreninha quis falar... não pôde mas, sem o pensar, levou o
braço do mancebo até o peito e lhe fez sentir como o seu coração palpitava.
— Serei eu?... perguntou uma terceira vez Augusto. com requintada ternura.
A jovenzinha murmurou uma palavra que pareceu mais um gemido do que
uma resposta, porém que fez transbordar a glória e o entusiasmo da alma do seu
amante; ela tinha dito somente:
— Talvez.
CAPÍTULO XXII
Mau tempo
Tristes dias tem-se arrastado. Augusto está desesperado. Voltando da ilha de...
depois daquele belo dia da declaração de amor achou na corte seu pai e em poucos
momentos teve de concluir, na severidade com que era tratado, que já alguém o
havia prevenido das suas loucuras e dos muitos pontos que ultimamente tinha dado
nas aulas. A mais bem merecida repreensão, e um discurso cheio de conselhos e
admoestações, veio por fim dar-lhe a certeza de que o seu bom velho estava ciente
de tudo.
Para coroar a obra, contra o costume do maior número dos nossos
agricultores que, quando vêm à cidade, estão no caso do fogo viste, lingüiça? e
ainda não puseram os pés no largo do Paço já têm os olhos na praia Grande (que
por estes bons cinqüenta anos há de continuar a ser praia Grande, apesar de a
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terem crismado Niterói), o pai de Augusto não falava em voltar para a roça; e a
julgar-se pelo sossego e vagar com que tratava os menos importantes negócios.
parecia haver esquecido a moagem e a safra.
Chegou o sábado. O nosso Augusto, depois de muitos rodeios e cerimônias,
pediu finalmente licença para ir passar o dia de domingo na ilha de... e obteve em
resposta um não redondo; jurou que tinha dado sua palavra de honra de lá se achar
nesse dia e o pai. para que o filho não cumprisse a palavra, nem faltasse à honra,
julgou muito conveniente trancá-lo em seu quarto.
Mania antiga é essa de querer triunfar das paixões com fortes meios; erro
palmar, principalmente no caso em que se acha o nosso estudante; amor é um
menino doidinho e malcriado que. quando alguém intenta refreá-lo, chora,
escarapela, esperneia. escabuja. morde, belisca, e incomoda mais que solto e livre;
prudente é facilitar-lhe o que deseja, para que ele disso se desgote; soltá-lo no
prado, para que não corra; limpar-lhe o caminho. para que não passe; acabar com
as dificuldades e oposições, para que ele durma e muitas vezes morra. O amor é um
anzol que, quando se engole. agadanha-se logo no coração da gente, donde, se não
é com jeito, o maldito rasga, esburaca e se aprofunda. Portanto, muita indústria deve
ter quem o quer pôr na rua, e para consegui-lo convém ir despedindo-o com bons
modos, parlamentares oferecimentos e nunca bater-lhe com a porta na cara. Porém
os homens, mal passam de certa idade, só se lembram do seu tempo para gritar
contra o atual e esquecem completamente os ardores da mocidade. O resultado
disso é o mesmo que tirara o pai de Augusto da energia e violência com que procura
apagar a paixão do filho.
Já era tarde. Augusto amava deveras, e pela primeira vez cm sua vida; e o
amor, mais forte que seu espírito, exercia nele um poder absoluto e invencível. Ora,
não há idéias mais livres que as do preso; e, pois, o nosso encarcerado estudante
soltou as velas da barquinha de sua alma, que voou, atrevida, por esse mar imenso
da imaginação; então começou a criar mil sublimes quadros e em todos eles lá
aparecia a encantadora Moreninha, toda cheia de encantos e graças. Viu-a, com seu
vestido branco, esperando-o em cima do rochedo, viu-a chorar, por ver que ele não
chegava, e suas lágrimas queimavam-lhe o coração. Ouviu-a acusá-lo de
inconstante e ingrato, daí a pouco pareceu-lhe que ela soluçava; escutou um grito de
dor semelhante a esse que soltara no primeiro dia que ele tinha passado na ilha!
Aqui, foi o nosso estudante às nuvens; saltou exasperado fora do leito em que se
achava deitado, passou a largos passos por seu quarto, acusou a crueldade dos
pais, experimentou se podia’ arrombar a porta, fez mil planos de fuga, esbravejou,
escabelou-se e, como nada disso lhe valesse, atirou com todos os seus livros para
baixo da cama e deitou-se de novo, jurando que não havia de estudar dois meses.
Carrancudo e teimoso, mandou voltar o almoço, o jantar e a ceia que lhe trouxeram,
sem tocar num só prato; e sentindo que seu pai abria a porta do quarto, sem dúvida
para vir consolá-lo e dar-lhe salutares conselhos, voltou o rosto para a parede e
principiou a roncar como um endemoninhado.
— Já dormes, Augusto? perguntou o bom pai, abrindo as cortinas do leito.
A única resposta que obteve foi um ronco que mais assemelhou-se a um
trovão.
O experimentado velho fingiu ter-se deixado enganar, e retirando-se, trancou
a porta ao pobre estudante.
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Uma noite de amargor foi, então, a que se passou para este; na solidão e
silêncio das trevas, a alma do homem que padece é, mais que nunca, toda de sua
dor; concentra-se, mergulha-se inteira em seu sofrimento, não concebe; não pensa,
não vela e não se exalta senão por ela. Isto aconteceu a Augusto, de modo que, ao
abrir-se na manhã seguinte a porta do quarto, o pai veio encontrá-lo ainda acordado,
com os olhos em fogo e o rosto mais enrubescido que de ordinário.
Augusto quis dar dois passos e foi preciso que os braços paternais o
sustivessem para livrá-lo de cair.
— Que fizeste, louco? perguntou o pai, cuidadoso.
— Nada, meu pai; passei uma noite em claro, mas… eu não sofro nada.
Oh! ele queria dizer que sofria muito!
Imediatamente foi-se chamar um médico que, contra o costume da classe,
fez-se esperar pouco.
Augusto sujeitou-se com brandura ao exame necessário e quando o médico
lhe perguntou:
— O que sente?
Ele respondeu com toda fria segurança do homem determinado:
— Eu amo.
— E mais nada?
— Oh! Sr. doutor, julga isso pouco?
E além destas palavras não quis pronunciar mais uma única sobre o seu
estado. E, contudo, ele estava em violenta exacerbação. O médico deu por
terminada a sua visita. Algumas aplicações se fizeram e um dos colegas de Augusto,
que o tinha vindo procurar, fez-lhe o que chamou uma bela sangria de braços.
A enfermidade de Augusto não cedeu, porém, com tanta facilidade como a
princípio supôs o médico, e três dias se passaram sem conseguir-se a mais
insignificante melhora; uma mudança apenas se operou: a exacerbação foi seguida
de um abatimento e prostração de força notável; sua paixão, que também se
desenhava no ardor dos olhares, na viveza das expressões e na audácia dos
pensamentos, tomou outro tipo: Augusto tornou-se pálido, sombrio e melancólico;
horas inteiras se passavam sem que uma só palavra fosse apenas murmurada por
seus lábios, prolongadas insônias eram marcadas minuto a minuto por dolorosos
gemidos; e seus olhos, amortecidos, como que obsequiavam a luz quando por
acaso se entreabriam.
Na visita do quarto dia o médico disse ao pai de Augusto:
— Não vamos bem...
Uma idéia terrível apareceu então no pensamento do sensível velho: a
possibilidade de morrer seu filho, a flor de suas esperanças, e tal idéia derramou em
seu coração todo esse fel, cujo amargor só pode sentir a alma de um pai; entrou
apressado e trêmulo no quarto do enfermo, e vendo-o prostrado no leito, como
insensível, como meio morto, exclamou com lágrimas nos olhos:
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— Oh! Meu filho!... Meu filho!... Por que me queres matar?
Um brando favônio de vida passeou pelo rosto de Augusto; seus olhos se
abriram, um leve sorriso de gratidão lhe alisou os lábios, também duas lágrimas
ficaram penduradas em suas pálpebras e ele, tomando e beijando a mão paterna,
murmurou com voz sumida e terna:
— Meu pai... tão bom!...
Doces frases que retumbaram com mais doçura ainda no coração do velho.
— Querido louco! ... disse ele: tu me obrigas a fazer loucuras!
E saiu do quarto e logo depois de casa, mas, voltando passadas algumas
horas, entrou de novo na câmara do doente; fez retirar todas as pessoas que aí se
achavam e, ficando só com ele, deu-lhe provavelmente algum elixir tão admirável,
que as melhoras começaram a parecer como por encantamento, no mesmo instante.
Que milagre não será capaz de fazer o amor dos pais?...
Novidades do mesmo gênero perturbavam a paz e os prazeres da ilha de... D.
Carolina também padecia. Os nossos amantes acabavam de chegar ao sentimental,
e com seu sentimentalismo estavam azedando a vida dos que lhes queriam bem. Os
namoradores são semelhantes às crianças: primeiro divertem-nos com suas
momices, depois incomodam-nos choramingando.
A bela Moreninha tinha visto romper a aurora do domingo, no rochedo da
gruta, e tendo, debalde, esperado o seu estudante até alto dia, voltou para casa
arrufada. No almoço não houve prato que não acusasse de mal temperado: faltavalhe
o tempero do amor; o chá não se podia tomar, o dia estava frio de enregelar,
toda a gente de sua casa a olhava com maus olhos, e seu próprio irmão tinha um
deleite imperdoável: era estudante, pertencia a uma classe cujos membros eram,
sem exceção, sem exceção nenhuma (bradava ela lindamente enraivecida), falsos,
maus, mentirosos e até... feios. A tarde sentiu-se incomodada. Retirou-se, não ceou
e não dormiu.
Tudo neste mundo é mais ou menos compensado, e o amor mio podia deixar
de fazer parte da regra. Ele, que de um nadazinho tira motivos para o prazer de dias
inteiros, que de uma flor já murcha engendra o mais vivo contentamento, que por um
só cabelo faz escarcéus tais, que nem mesmo a sorte grande os causaria, que por
uma cartinha de cinco linhas põe os lábios de um pobre amante em inflamação
aguda com o estalar de tantos beijos, se não produzisse também agastados arrufos,
às vezes algumas cólicas, outras amargores de boca, palpitações, ataques de
hipocondria, pruído de canelas etc., seria tão completa a felicidade cá embaixo, que
a terra chegaria a lembrar-se de ser competidora do céu.
Um exemplo dessa regra está sendo a nossa cara menina. Coitadinha! Vai
passando uma semana de ciúmes e amarguras; acordando-se ao primeiro trinar do
canário, ela busca o rochedo, e com os olhos embebidos no mar, canta muitas vezes
a balada de Ahy, repetindo com fogo a estrofe que tanto lhe condiz, por principiar
assim:
"Eu tenho quinze anos
E sou morena e linda".
E quando o sol começa a fazer-se quente, deixa o rochedo, para passar o dia
inteiro no fundo do seu gabinete, ou ao lado de sua boa avó, que mal pode consoláwww.
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la, porque, conhecendo já a causa da tristeza da querida neta, teme vê-la fugir
vermelha de pejo, se não fingir com finura ignorar o estado de seu coração.
O dia de sexta-feira trouxe ainda algumas novidades à ilha de... A sra. d. Ana
recebeu cartas que a tornaram talvez menos triste, mas, sem dúvida, muito
pensativa. A presença da linda neta parecia alentar mais essas reflexões, que se
prolongaram até à tarde do dia seguinte, em que um velho e particular amigo de sua
família veio da corte visitá-la e com a respeitável senhora ficou duas horas
conferenciando a sós.
Esse homem despediu-se, enfim, da sra. d. Ana, deixando-a cheia de prazer;
e no momento em que saltava dentro do seu batei, vendo a interessante Moreninha
que tristemente passeava à borda do mar, saudou-a com esta simples palavra,
apontando para o céu:
— Esperança!
D. Carolina levantou a cabeça e viu que já o batel cortava as ondas mas,
como para corresponder a tão animador cumprimento, ela por sua vez, apontou
também para o céu, e pondo a outra não no lugar do coração disse:
— Esperarei.
CAPÍTULO XXIII
A esmeralda e o camafeu
D. Carolina passou uma noite cheia de pena e de cuidados, porém já menos
ciumenta e despeitada; a boa avó livrou-a desses tormentos. Na hora do chá,
fazendo com habilidade e destreza cair a conversação sobre o estudante amado,
dizendo:
— Aquele interessante moço, Carolina, parece pagar-nos bem a amizade que
lhe temos, não entendes assim?...
— Minha avó… eu não sei.
— Dize sempre, pensarás acaso de maneira diversa?...
A menina hesitou um instante e depois respondeu:
— Se ele pagasse bem, teria vindo domingo.
— Eis uma injustiça, Carolina. Desde sábado à noite que Augusto está na
cama, prostrado por uma enfermidade cruel.
— Doente?! exclamou a linda Moreninha, extremamente comovida. Doente?...
Em perigo?...
— Graças a Deus, há dois dias ficou livre dele; hoje já pôde chegar à janela,
assim me mandou dizer Filipe.
— Oh! Pobre moço!... Se não fosse isso, teria vindo ver-nos!...
E, pois, todos os antigos sentimentos de ciúme e temor da inconstância do
amante se trocaram por ansiosas inquietações a respeito de sua moléstia.
No dia seguinte, ao amanhecer, a amorosa menina despertou, e buscando o
toucador, há uma semana esquecido, dividiu seus cabelos nas duas costumadas
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belas tranças, que tanto gostava de fazer ondear pelas espáduas, vestiu o estimado
vestido branco e correu para o rochedo.
— Eu me alinhei, pensava ela, porque enfim... hoje é domingo e talvez…
como ontem já pôde chegar à janela, talvez consiga com algum esforço vir ver-me.
E quando o sol começou a refletir seus raios sobre o liso espelho do mar, ela
principiou também a cantar sua balada:
"Eu tenho quinze anos
E sou morena e linda ."
Mas, como por encantamento, no instante mesmo em que ela dizia no seu
canto:
"Lá vem sua piroga
Cortando leve os mares".
um lindo batelão apareceu ao longe, voando com asa intumescida para a ilha.
Com força e comoção desusadas bateu o coração de d. Carolina, que calouse
para só empregar no batel que vinha atentas vistas, cheias de amor e de
esperança. Ah! Era o batel suspirado.
Quando o ligeiro barquinho se aproximou suficientemente, a bela Moreninha
distinguiu dentro dele Augusto, sentado junto a um respeitável ancião, a quem não
pôde conhecer; então, ela, vendo que chegavam à praia, fingiu não tê-los sentido e
continuou sua balada:
"Enfim abica à praia
Enfim salta apressado..."
Augusto, com efeito, saltava nesse momento fora do batel, e depois deu a
mão a seu pai para ajudá-lo a desembarcar; d. Carolina, que ainda não mostrava dar
fé deles, prosseguiu seu canto até que quando dizia:
"Quando há de ele correr
Somente pra me ver...
sentiu que Augusto corria para ela. Prazer imenso inundava a alma da menina, para
que possa ser descrito; como todos prevêem, a balada foi nessa estrofe interrompida
e d. Carolina, aceitando o braço do estudante, desceu do rochedo e foi
cumprimentar o pai dele.
Ambos os amantes compreenderam o que queria dizer a palidez de seus
semblantes e os vestígios de um padecer de oito dias guardaram silêncio e não
tiveram uma palavra para pronunciar; tiveram só olhares para trocar e suspiros a
verter. E para que mais?... A sra. d. Ana recebeu com sua costumada afabilidade o
pai de
Augusto e abraçou a este com ternura. Ao servir-se o almoço, ela lhe
perguntou:
— Por que não veio o meu neto?
— Ficou para vir mais tarde, com os nossos dois amigos Leopoldo e Fabrício.
— Eu o espero.
— Então teremos um excelente dia.
Uma hora depois o pai de Augusto e a sra. d. Ana conferenciavam a sós, e os
dois namorados achavam-se, defronte um do outro, no vão de uma janela.
E eles continuavam no silêncio, mas olhavam-se com fogo.
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Augusto parecia querer comunicar alguma coisa bem extraordinária à sua
interessante amada, porém sempre estremecia ao entreabrir os lábios.
E d. Carolina, cônscia já de sua fraqueza, e como lembrando-se dos pesares
que tinha sofrido, não sabia mais servir-se de seus sorrisos com a malícia do tempo
da liberdade e mostrava-se esquecida de seu viver de alegrias e travessuras.
Alguma grande resolução obrigava o moço a estar silencioso, como tremendo
pelo êxito dela...
No fim de muito tempo eles haviam conseguido dizer-se:
— O mar está bem manso.
— O dia está sereno.
Felizmente para eles a sra. d. Ana convidou-os a entrar no gabinete. Augusto
para aí se dirigiu tremendo, d. Carolina curiosa. Quando eles se sentaram, o ancião
falou:
— Augusto, eu acabo de obter desta respeitável senhora a honra de te julgar
digno de pretenderes a mão de sua linda neta, e agora resta que alcances o sim da
interessante pessoa que amas. Fala.
Tanto d. Carolina como o pobre estudante ficaram cor de nácar; houve bons
cinco minutos de silêncio e o pai de Augusto instou para que ele falasse, e o bom do
rapaz não fez mais do que olhar para a moça, com ternura, abrir a boca e fechá-la
de novo, sem dizer palavra.
A sra. d. Ana tomou, então, a palavra e disse sorrindo-se:
— Enfim, é necessário que os ajudemos. Carolina, o sr. Augusto te ama e te
quer para sua esposa; tu que dizes?...
Nem palavra.
Foi preciso que se repetisse pela terceira vez a pergunta, para que a menina,
sem levantar a cabeça, murmurasse apenas:
— Minha avó… eu não sei.
— Pois creio que ninguém melhor que tu o poderá saber. Desejas que eu
responda em teu nome?...
A bela Moreninha pensou um momento... não pôde vencer-se, sorriu-se como
se sorria dantes, e erguendo a cabeça disse:
— Eu rogo que daqui a meia hora se vá receber a minha resposta na gruta do
jardim.
— Quererás consultar a fonte? Pois bem, iremos.
D. Carolina saiu com ar meio acanhado e meio maligno.
Passados alguns instantes a sra.. d. Ana, como quem estava certa do
resultado da meia hora de reflexão, e já por tal podia gracejar com os noivos, disse a
Augusto:
— O sr. não quer refletir também no jardim?
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— O estudante não esperou segundo conselho e para logo dirigiu-se à gruta.
D. Carolina estava sentada no banco de relva, e seu rosto, sem poder ocultar a
comoção e o pelo que lhe produzia o objeto de que se tratava, tinha, contudo,
retomado o antigo verniz do prazer e malícia. Vendo entrar o moço, disse:
— Eu creio que ainda se não passou meia hora.
— Ah! Podia eu esperar tanto tempo?...
— Acaso veio perguntar-me alguma coisa?...
— Não, minha senhora, eu só venho ouvir a minha sentença.
— Então... pede-me para sua esposa. A senhora o ouviu há pouco.
— Pois bem, sr. Augusto, veja como verificou—se o prognóstico que fiz do
seu futuro! Não se lembra que aqui mesmo lhe disse que não longe estava o dia em
que o sr. havia de esquecer sua mulher?
— Mas eu nunca fui casado... murmurou o estudante.
— Oh! Isso é uma recomendação contra a sua constância! E quem tem a
culpa de tudo, senhora?
— Muito a tempo ainda me lança em rosto a parte que tenho na sua
infidelidade; pois, eu emendarei a mão agora. O senhor há de cumprir a palavra que
deu há sete anos!
Augusto recuou dois passos.
— O senhor é um moço honrado, continuou a cruel Moreninha, e, portanto,
cumprirá a palavra que deu, e só casará com sua desposada antiga.
— Oh!... Agora já é impossível!
— Ela deve ser uma bonita moça! ... Teria razão de queixar-se contra mim, se
eu roubasse um coração que lhe pertence… até por direito de antiguidade; ora, eu,
apesar de ser travessa, não sou má, e, portanto, o senhor só será esposo dessa
menina.
— Jamais!
— Juro-lhe que há de sê-lo.
— E quem me poderá obrigar?
— Eu, pedindo.
— A senhora?
— E a honra, mandando.
— Para que, pois, animou o amor que pela senhora sinto?...
— Para satisfazer a minha vaidade de moça, somente para isso. Eu o ouvi
gabar-se de que nenhuma mulher seria capaz de conservá-lo em amoroso enleio por
mais de três dias, e desejei vingar a injúria feita ao meu sexo. Trabalhei, confesso
que trabalhei para prendê-lo; fiz talvez mais do que devia, só para ter a glória de
perguntar-lhe uma vez, como agora o faço: "Então, senhor, quem venceu: o homem
ou a mulher9
— Foi a beleza.
— Porém já passou o tempo do galanteio, e eu devo lembrar-lhe o dever que
com a paixão esquece. Escute: de idade de treze anos o senhor amou uma linda e
travessa menina, que contava apenas sete.
— Já a senhora em outra ocasião me disse isso mesmo.
— Junto ao leito de um moribundo jurou que havia de amá-la para sempre.
— Foi um juramento de criança.
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— Embora, foi um juramento; trocou com ela aí mesmo prendas de amor, e
quando a menina lhe apresentar a que recebeu e lhe pedir a que ofereceu e o
senhor o aceitou?...
— Ah! Senhora...
— Quando o velho moribundo, dando-lhe o breve de cor branca disse: tomai
este breve, cuja cor exprime a candura da alma daquela menina; ele contém vosso
camafeu; se tendes bastante força para ser constante e amar para sempre aquele
belo anjo, dai-lho, para que ela o guarde com desvelo. Por que deu o senhor o breve
à menina?...
— Porque eu era um louco, uma criança!...
— E nem ao menos se lembra de que o velho disse com voz inspirada: "Deus
paga sempre a esmola que se dá ao pobre!... Lá no futuro vós o sentíreis?" Não tem
o senhor esperança de ver realizar-se essa bela profecia? Não se lembra de ouvi-la?
Pois ela soou bem docemente no meu coração quando, às escondidas, a escutei
repetida nesta gruta por seus lábios.
— Oh! Mas porque Deus não me prendeu a essa menina nos laços
indissolúveis, antes que eu visse o lindo anjo desta ilha?
— E como, senhor, posso eu acreditar nos seus protestos de ternura e
constância, se já o vejo faltar à fé de outra?…Senhor! Senhor! O que foi que
prometeu há sete anos passados?...
— Então eu não pensava no que fazia. E agora pensa no que quer fazer?
— Penso que sou um desgraçado, um louco!... Penso que é uma barbaridade
inqualificável que, enquanto eu padeço, sofro mil torturas, deixe a senhora brincar
nos seus lábios o sorriso com que costuma encantar para matar; penso...
— Acabe!
— Penso que devo fugir para sempre desta ilha fatal, deixar aquela cidade
detestável, abandonar esta terra de minha pátria, onde não posso ser outra vez
feliz!... Penso que a lembrança do meu passado faz a minha desgraça, que o
presente me enlouquece e me mata, que o futuro... Oh! Já não haverá futuro para
mim! Adeus, senhora!
— Então, parte?…
— E para sempre.
D. Carolina deixou cair uma lágrima e falou ainda, mas já com voz fraca e
trêmula:
— Sim, deve partir... vá... Talvez encontre aquela a quem jurou amor eterno...
Ah! Senhor! Nunca lhe seja perjuro.
— Se eu a encontrasse!
— Então?... Que faria?...
— Atirar-me-ia a seus pés, abraçar-me-ia com eles e lhe diria:
"Perdoai-me, perdoai-me, senhora, eu já não posso ser vosso esposo! Tomai
a prenda que me deste..."
E o infeliz amante arrancou debaixo da camisa um breve, que
convulsivamente apertou na mão.
— O breve verde!…, exclamou d. Carolina, o breve que contém a esmeralda!
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— Eu lhe diria, continuou Augusto: "Recebei este breve que já não devo
conservar, porque eu amo outra que não sois vós, que é mais bela e mais cruel do
que vós!..."
A cena estava se tornando patética; ambos choravam e só passados alguns
instantes, a inexplicável Moreninha pôde falar e responder ao triste estudante.
— Oh! Pois bem, disse; vá ter com sua antiga desposada, repita-lhe o que
acaba de dizer, e se ela ceder, se perdoar, volte que eu serei sua... esposa.
— Sim... eu corro... Mas meu Deus, onde poderei achar essa moça a quem
não tornei a ver, nem poderei conhecer?... Onde, meu Deus?... Onde?...
E tornou a deixar correr o pranto por um momento suspenso.
— Espere, tornou d. Carolina, escute, senhor. Houve um dia, quando minha
mãe era viva, em que eu também socorri um velho moribundo. Como o senhor e sua
camarada, matei a fome de sua família e cobri a nudez de seus filhos; em sinal de
reconhecimento também este velho me fez um presente; deu-me uma relíquia
milagrosa que, asseverou-me ele, tem o poder uma vez, na vida de quem a possui,
de dar o que se deseja. Eu cosi essa relíquia dentro de um breve; ainda não lhe pedi
coisa alguma, mas trago-a sempre comigo; eu lha cedo... tome o breve, descosa-a,
tire a relíquia e à mercê dela talvez encontre sua antiga amada. Obtenha o seu
perdão e me terá por esposa.
— Isto tudo me parece um sonho, respondeu Augusto, porém, dê-me, dê-me
esse breve!
A menina, com efeito, entregou o breve ao estudante, que começou a
descosê-lo precipitadamente. Aquela relíquia, que se dizia milagrosa, era sua última
esperança; e, semelhante ao náufrago que no derradeiro extremo se agarra à mais
leve tábua, ele se abraçava com ela. Sé faltava a derradeira capa do breve.., ei-la
que cede e se descose alta uma pedra... e Augusto, entusiasmado e como delirante,
cai aos pés de d. Carolina, exclamando:
— O meu camafeu!…O meu camafeu!...
A senhora d. Ana e o pai de Augusto entraram nesse instante na gruta e
encontraram o feliz e fervoroso amante de joelhos e a dar mil beijos nos pés da linda
menina, que também por sua parte chorava de prazer.
— Que loucura é esta? perguntou a senhora d. Ana.
— Achei minha mulher!... bradava Augusto; encontrei minha mulher! …
Encontrei minha mulher!
— Que quer dizer isto, Carolina?...
— Ah! Minha boa avó!… respondeu a travessa Moreninha ingenuamente; nós
éramos conhecidos antigos.
Epílogo
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109
A chegada de Filipe, Fabrício e Leopoldo veio dar ainda mais viveza ao prazer que
reinava na gruta. O projeto de casamento de Augusto e d. Carolina não podia ser um
mistério para eles, tendo sido, como foi, elaborado por Filipe. de acordo com o pai do
noivo, que fizera a proposta, e com o velho amigo, que ainda no dia antecedente
viera concluir os ajustes com a senhora d. Ana e portanto, o tempo que se gastaria
em explicações passou-se em abraços.
— Muito bem! Muito bem! disse por fim Filipe; quem pôs o fogo ao pé da
pólvora fui eu, eu que obriguei Augusto a vir passar o dia de Sant’Ana conosco.
— Então estás arrependido?...
— Não, por certo, apesar de me roubares minha irmã. Finalmente para este
tesouro sempre teria de haver uni ladrão: ainda bem que foste tu que o ganhaste.
— Mas, meu maninho, ele perdeu ganhando...
— Como?...
Estamos no dia 20 de agosto: um mês!
— E verdade! Um mês!... exclamou Filipe.
— Um mês! ... gritaram Fabrício e Leopoldo.
— Eu não entendo isto, disse a senhora d. Ana.
Minha boa avó, acudiu a noiva, isto quer dizer que, finalmente, está presa a
borboleta.
— Minha boa avó, exclamou Filipe, isto quer dizer que Augusto deve-me um
romance.
— Já está pronto, respondeu o noivo.
— Como se intitula?
A Moreninha.
FIM

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O Aluno (por ele mesmo)

O aluno não copia: compara resultados.O aluno não fala: troca opinões.O aluno não dorme: se concentra.O aluno não se distrai: examina as moscas.O aluno não falta na escola: é solicitado em outros lugares.O aluno não diz besteiras: desabafa.O aluno não masca chiclete: fortalece a mandíbula.O aluno não lê revistas na sala: se informa.O aluno não destrói o colégio: decora a escola segundo seu gosto.
(BRINCADEIRINHA!!!!!!!!)